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Igreja se une a Obama contra as armas

Em liquidação?

Uma das discussões mais intensas e acaloradas nos Estados Unidos tem sido o controle sobre a compra e o porte de armas proposto pelo presidente Barack Obama. E a Igreja Católica tem se mostrado firmemente a favor da adoção de novas restrições, posição que contraria boa parte da sociedade americana (praticamente a metade), mas que não é nova e, aparentemente, ainda não foi amplamente divulgada pela imprensa internacional.

Neste post, primeiro vamos ver como está a situação do problema nos Estados Unidos e, segundo, apresentar o que diz a Igreja Católica sobre esse assunto.

CONTEXTO – Basicamente, o ambiente esquentou quando o recém-reeleito presidente Obama disse no fim do ano passado que apresentaria medidas urgentes para mudar as políticas de compra e controle de armas de fogo no país, após mais um entre tantos tristes massacres em escolas americanas – quando um atirador matou 20 crianças e 6 adultos. Porém, a rica e potente indústria bélica dos Estados Unidos, com seus influentes grupos de lobby no Congresso e apoio de boa parte da população, quer impedir qualquer mudança nesse sentido e procura desvincular as frequentes tragédias ao fácil acesso às armas de fogo.

Obama e o Partido Democrata apresentaram mais de 20 medidas, entre elas a proibição da venda de armas pesadas e militares, como metralhadoras, e a necessidade de comprovação de ausência de antecedentes criminais para que se possa comprar armas de fogo. Mas é grande a resistência a esse projeto, que precisa ser aprovado também por legisladores do Partido Republicano. Os Republicanos geralmente têm maior número de representantes nas regiões onde o comércio de armas está mais consolidado e faz parte da cultura local. É muito comum em áreas rurais praticar caça, por exemplo, ou tiro ao alvo.

Obama assumiu praticar tiro ao alvo, mas está firme na guerra contra as armas

Mas, de acordo com Obama, que hoje afirmou ser ele próprio um praticante de tiro ao alvo, as regras são importantes para as áreas urbanas do país. Segundo o presidente americano, é preciso “entender que a realidade das armas em áreas urbanas é muito diferente das realidades em áreas rurais”. A Associação Nacional de Rifles, uma das mais fortes instituições contrárias ao controle de armas nos Estados Unidos, reclama que as ideias de Obama vão de encontro aos direitos individuais de todo cidadão, que pode comprar quantas armas quiser para proteger a si mesmo, à sua família e a seus bens pessoais.

Na tentativa de explicar o motivo da forte resistência popular ao controle de armas, Obama declarou: “Se você cresceu e seu pai te deu um rifle de caça quando você fez 10 anos, e você saiu e passou o dia com ele e com seus tios, e isso se tornou parte das tradições de sua família, dá para ver por que você resistiria a isso (o controle de armas).” De qualquer forma, o presidente tem reclamado que os Republicanos não querem se comprometer com essa essencial mudança na sociedade.

IGREJA DEFENDE RESTRIÇÕES – Embora a Igreja Católica e o governo Obama tenham se enfrentado no que diz respeito à defesa da vida e o sistema de saúde americano (entenda melhor aqui), desta vez os dois estão do mesmo lado da briga. Em janeiro deste ano, a Santa Sé afirmou que recebeu positivamente a iniciativa de Barack Obama.

Dessa vez juntos

Dessa vez, juntos

O porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, publicou um editorial no jornal L’Osservatore Romano dizendo que “as iniciativas anunciadas pela administração americana para a limitação e o controle da difusão e do uso das armas são certamente um passo na justa direção”. O sacerdote recordou que “47 líderes religiosos de várias confissões e religiões enviaram um apelo aos deputados americanos para limitar as armas de fogo que ‘estão fazendo a sociedade pagar um preço inaceitável em tragédias e mortes insensatas’, e acrescentou: “Estou com eles.”

E essa posição, como dissemos no início do post, não é recente e vem sendo há tempos reiterada. Em 2006, na Mensagem para o Dia Mundial para a Paz, o Papa Bento XVI lamentou “o aumento preocupante das despesas militares” e o comércio de armas “cada vez mais próspero” no mundo.

No caso específico dos Estados Unidos, os bispos americanos divulgaram em novembro 2000 um documento chamado “Responsabilidade, Reabilitação e Restauração: Uma Perspectiva Católica sobre o Crime e a Justiça Criminal“, no qual dizem claramente que são contra o livre comércio de armas no país e que, no longo prazo, seu uso deveria ser “eliminado de nossa sociedade”, exceto para policiais e militares. Diz o episcopado americano:

“Como bispos, apoiamos as medidas que controlam a venda e o uso de armas de fogo e as tornam mais seguras – especialmente esforços para evitar seu uso não supervisionado por crianças ou qualquer outra pessoa que não o proprietário – e reiteramos nosso pedido por uma regulação sensata das armas de fogo.”

Enfim, muitas outras vezes a Igreja Católica vem defendendo a restrição e até mesmo o fim do comércio de armas. Também outras instituições e associações – muitas delas formadas por parentes de vítimas de massacres – tentam caminhar no mesmo sentido. Aparentemente, o governo Obama está fazendo um esforço real para mudar a situação, mas a dificuldade está no Congresso.

Como nos Estados Unidos os dois principais partidos se enfrentam muito duramente na política e os grupos de lobby são muito ricos e influentes, pode ser que ainda por um bom tempo as coisas fiquem como estão. Enquanto isso, até em supermercados é possível comprar revólveres e munições e, com sorte, quem sabe se encontra uma boa liquidação.

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O voto católico em Obama

Resolvemos propositalmente esperar até o fim de semana para escrever neste blog sobre a reeleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos, que ocorreu na última terça-feira (6). Queríamos ver qual seria a reação da mídia católica e dos jornalistas de religião e, como imaginávamos, muito se falou sobre as supostas “incertezas” nas relações diplomáticas entre a Santa Sé e os Estados Unidos. Mas essa não parece ser a grande questão neste momento.

Se o presidente é o mesmo, os partidos são os mesmos, o Papa é o mesmo, a relação continua sendo a mesma: delicada, especialmente no que diz respeito às questões da chamada “defesa da vida”. Já tratamos neste blog da insatisfação dos bispos católicos dos Estados Unidos com a reforma da saúde do governo Obama, que obriga empresas  a fornecerem plano de saúde para seus funcionários (com acesso a anticoncepcionais, pílulas do dia seguinte e aborto em alguns casos) e sobre a mudança de posição pessoal de Obama a respeito do casamento de pessoas do mesmo sexo. Ele se tornou o primeiro presidente dos Estados Unidos a aprovar o “casamento gay”. Em ambos os casos, as decisões foram fortemente contrárias ao posicionamento oficial da Igreja, o que ajuda a explicar por que a relação está abalada.

A grande questão que precisa ser analisada e estudada por especialistas agora é o fato de que metade dos eleitores que se dizem católicos votou em Obama, ou seja, contra a recomendação dos bispos católicos de seu país. Está na cara que temos aí um conflito. Os bispos americanos vinham insistindo há meses principalmente na questão do direito à vida e à família, criticando qualquer iniciativa do governo Obama em favor do aborto e da contracepção. E, mesmo assim, deu Obama.

Candidato derrotado, Mitt Romney

Mais do que isso, em referendo realizado no mesmo dia da eleição presidencial, eleitores de Washington, Maine e Maryland aprovaram medidas que legalizam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em Maine, apenas três anos atrás os cidadãos haviam rejeitado a mesma emenda. Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, o “casamento gay” foi aprovado em todos os Estados em que foi colocado à prova. E, em Minnesota, uma proposta de proibição para essa união foi rejeitada pela população.

Em outras palavras, mesmo após uma intensa e agressiva campanha dos bispos, muita gente, inclusive católicos, votou em Obama. O que poderia ter causado isso? São várias possibilidades. Mas fato é que vem ocorrendo uma forte mudança nos padrões culturais e comportamentais de muitos países, não só nos Estados Unidos, que vai de encontro ao ensinamento da Igreja, cuja mensagem vem sendo rejeitada por grupos que antes a aceitavam sem questionar muito. São cada vez mais fortes e mais presentes os grupos feministas que defendem o aborto, os grupos de defesa dos direitos dos homossexuais e os ateus engajados, por exemplo. É a tal da “secularização” dando as caras novamente, e com força.

Cardeal Timothy Dolan, de Nova York

Outra forma de se encarar a questão é analisar a maneira como a Igreja vem transmitindo sua mensagem. Fazer a chamada “defesa da vida” com discursos agressivos pode não ser a forma mais eficiente. O sarcasmo, a ironia e as mensagens indiretas podem ser interpretados como arrogância e abuso de autoridade, lembrando a imagem da antiga Igreja que mais reprimia do que acolhia. “Chamar para a briga” num cenário de divisão pode não ser a forma mais inteligente de mobilizar a sociedade.

E é exatamente o que a Igreja tem feito – pedido uma firme mobilização em favor da liberdade religiosa, da defesa da vida e da família. Em editorial, o jornal L’Osservatore Romano afirmou que a Igreja não sai derrotada e que os católicos devem defender o ensinamento da Igreja diante de ideologias politicamente corretas que invadem todas as culturas do mundo e contrariam as bases de nossa sociedade.

O presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos (USCCB), Cardeal Timothy Dolan, grande porta-voz da campanha dos bispos contra Obama, disse que eles rezam pelo presidente, mas pediu que Obama busque o bem comum, especialmente cuidando dos mais vulneráveis, “o que inclui os não nascidos, os pobres e os imigrantes”. Segundo Dolan, os bispos católicos vão continuar defendendo “a vida, o casamento e nossa mais querida liberdade, a liberdade religiosa”. Para ele, obrigar católicos a obedecer leis que favorecem a contracepção, por exemplo, é um atentado à liberdade religiosa.

Há que se observar, ainda, que Obama não ganhou a eleição sozinho. Ele disputou contra Mitt Romney, que tem lá suas qualidades e defeitos, e cujo Partido Republicano tem nos assuntos bélicos tradição e gosto mais do que comprovados. Sendo assim, o que pode ser “defesa da vida” para alguns eleitores católicos pode não ser a mesma “defesa da vida” para outros. É uma questão de avaliar qual é a prioridade. E as prioridades mudam.

De qualquer forma, o Papa Bento XVI saudou o presidente eleito, oferecendo suas orações para que Deus o ajude a conduzir suas sérias responsabilidades (o texto da mensagem não foi divulgado). No seu discurso de vitória, Obama disse que volta à Casa Branca mais inspirado e determinado. “O reconhecimento de que temos esperanças e sonhos comuns não acaba com todos os impasses, nem resolve nossos problemas ou substitui o cuidadoso trabalho de construir consensos e assumir compromissos difíceis e necessários para conduzir este país adiante”, declarou.

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Bispos dos EUA elogiam decisão do governo Obama sobre imigrantes

Dom José Gomez, Arcebispo de Los Angeles

Para não dizer que os bispos dos Estados Unidos só implicam com o governo do presidente Barack Obama – que vem desagradando boa parte dos católicos do país com algumas decisões que contrariam suas expectativas (entenda melhor lendo este post e também este) -, hoje saiu uma notícia que mostra sintonia entre as duas partes.

A Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB) elogiou a decisão do gabinete presidencial de proteger imigrantes ilegais com até 15 anos de idade, que serão acolhidos no país em vez de passarem por procedimentos de deportação. Autoridades executivas dos Estados Unidos passam a analisar caso a caso.

De acordo com os bispos dos EUA, em carta assinada pelo Arcebispo de Los Angeles, Dom José Gomez, presidente do Comitê de Migração da USCCB, cerca de 800 mil jovens que estão ilegalmente no país poderão receber o benefício e uma permissão de trabalho. Segundo os bispos, eles não podem ser condenados pela migração, pois na maioria das vezes entraram juntos com os pais.

“Essa ação importante vai oferecer proteção (…) para um grupo de imigrantes vulnerável, que merece permanecer no nosso país e contribuir com seus talentos às nossas comunidades”, afirmou Dom José, em nota. “Essa juventude é brilhante, energética e ansiosa por buscar sua educação e alcançar todo o seu potencial”, acrescentou. “Eles não entraram em nosso país por violação própria, mas vieram aos Estados Unidos com seus pais como filhos, algo que qualquer um de nós faria.”

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A nova posição de Obama sobre o casamento gay e a reação dos bispos

Nesta semana, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez uma declaração histórica na rede de televisão americana ABC dizendo ser favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Imediatamente, os bispos católicos do país e outros grupos da sociedade reagiram, bem ou mal.

Vamos ver aqui o que disse Obama, em que contexto, e o que disseram alguns bispos. Antes de mais nada, recordamos que o objetivo deste blog de jornalismo religioso não é se posicionar contra ou a favor disso ou daquilo, mas apenas relatar o que aconteceu. Então vamos lá.

A declaração de Obama foi histórica porque ele se tornou o primeiro presidente americano a se posicionar nesse sentido. Grupos de defesa dos direitos dos homossexuais fizeram as pazes com Barack Obama, que na campanha eleitoral de 2008 havia se mostrado veementemente contra o chamado “casamento gay”. Naquela ocasião, Barack Obama afirmou: “Acredito que o casamento é a união entre um homem e uma mulher e, para mim, como cristão, também é uma união sagrada.”

Agora, o presidente dos Estados Unidos mudou de ideia. Disse que, depois de conversar com amigos, parentes e vizinhos percebeu que há muitas pessoas “em relações monogâmicas homossexuais, que estão criando crianças juntos”. Declarou Obama: “Eu chego à conclusão de que, para mim, pessoalmente, é importante seguir e afirmar que casais do mesmo sexo devem poder se casar.” Entretanto, ele deixou claro que cada Estado americano deve avaliar essa questão e ter a sua própria lei.

Analistas políticos dizem que, em 2008, quando Obama (Partido Democrata) era oposição e disputava contra o senador John McCain (Partido Republicano), precisava do apoio dos grupos chamados “mais conservadores” (já disse que não gosto dessas definições “progressista”, “conservador”, porque não explicam nada, mas lá eles falam assim, paciência). Muitos cristãos e especialmente os católicos, muitos deles latinos, votaram em Obama com gosto – não só por isso, claro, mas também por isso.

Pesquisas mostram que atualmente metade da população aprova leis que liberam o “casamento gay” e metade não aprova. Assim, ao se declarar a favor, Obama assumiu uma postura política arriscada. Embora possa se aproximar de grupos que cada vez mais ganham força política no país, como os homossexuais, pode acabar se afastando de outros grupos mais tradicionais – que debandariam para o lado da oposição, o Partido Republicano, “mais conservador”.

Mitt Romney, provável adversário de Obama

Os que apoiam Obama dizem que ele foi corajoso ao afirmar publicamente, em pleno ano eleitoral, o que realmente acha. Além disso, acreditam que a sociedade já não leva em consideração essas questões na hora de votar, separando-as da política partidária. Entendem que o país evoluiu e deve dar direitos iguais a todos.

Os que são contrários a Obama dizem que ele só está sendo político, querendo se aproximar mais da parcela da população que se afastou e que de qualquer forma não votaria em Mitt Romney (provável candidato Republicano). Também acusam Obama de querer desviar o debate dos verdadeiros problemas do país, como a economia, que vai bem mal. Vale lembrar que o voto não é obrigatório nos Estados Unidos.

Mas os bispos católicos dos Estados Unidos não querem saber se a nova posição de Obama é uma convicção real ou apenas uma manobra política. Para eles, Obama vem traindo a confiança daqueles que votaram nele lá atrás. E a relação entre os bispos e Obama já estava estremecida por causa das mudanças na política de saúde pública, conforme relatamos há um tempo, neste post aqui.

O presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB), Cardeal Timothy Dolan, de Nova York, disse que os comentários de Obama “apoiando a redefinição do casamento são profundamente entristecedores”.

Cardeal de Nova York, Timothy Dolan

Ele afirmou que os bispos católicos se unem ao presidente e ao governo sempre que adotam medidas que fortalecem o casamento e a família, mas, desta vez, as palavras de Obama “enfraquecem a instituição do casamento, a principal pedra angular de nossa sociedade”. Dolan acrescentou que reza por Obama todos os dias: “E continuarei rezando para que ele e sua administração ajam de forma justa para apoiar e proteger o casamento como uma união de um homem e uma mulher.”

Outro bispo que se manifestou sobre o tema foi Dom Salvatore Cordileone, da Diocese de Oakland (Califórnia), presidente do Subcomitê para Promoção e Defesa do Casamento da USCCB. Mas ele veio a público para falar sobre uma emenda na lei no Estado da Carolina do Norte, que proibiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Segundo Cordileone, a decisão reafirma “o sentido autêntico e perene do casamento”. Aderiram a ele os bispos Dom Michael Burbidge, de Raleigh, e Dom Peter Jugis, de Charlotte, todos do mesmo Estado.

Dom Cordileone, de Oakland

“Espero que o presidente Obama também reconheça o papel essencial (do casamento entre um homem e uma mulher para o bem comum). Esta não é uma questão partidária”, comentou o bispo de Oakland. Para ele, toda criança tem o direito básico de ser bem-vinda e criada por uma mãe e um pai.

Em resposta a Obama, o pré-candidato Mitt Romney reafirmou sua posição contrária ao “casamento gay”. Mas nem por isso já tem o apoio dos bispos. Ainda é preciso acompanhar mais a campanha.

Vale lembrar que, nos Estados Unidos, cada Estado tem autonomia para decidir sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em 31 deles, a prática é ilegal e em 7 é permitida pela Lei.

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A insatisfação dos bispos com a reforma da saúde no governo Obama

Bispos católicos dos Estados Unidos bateram de frente com o governo do presidente Barack Obama nas últimas semanas por causa de uma regra administrativa relacionada à reforma do sistema de saúde aprovada em 2010. Essa regra passou a exigir que todas as empresas que fornecem plano de saúde para seus funcionários ofereçam, inclusive, o acesso a métodos contraceptivos, inclusive anticoncepcionais e pílulas do dia seguinte para mulheres.

Para entender o questionamento dos bispos, é preciso saber que nos Estados Unidos não existe  um sistema de saúde pública em si. Cada indivíduo tem de ter o seu plano e existem planos de saúde do governo. A reforma da saúde proposta por Obama possibilitou o acesso de milhões de pessoas desamparadas a um plano de saúde. Os bispos apoiaram a reforma de um modo geral, com a ressalva de que o dinheiro público não deveria ser destinado ao aborto ou aos métodos contraceptivos.

Vale lembrar também que a Igreja Católica é oficialmente contra qualquer tipo de método contraceptivo, pois entende que o sexo deve ser praticado dentro do casamento e  que o casamento visa ao bem dos cônjuges e de seus descendentes – e para que haja descendentes,  é preciso que o casal esteja aberto a tê-los. Entende que os filhos são um dom de Deus e não podem ser rejeitados. Esta é a posição oficial da Igreja desde que o Papa Paulo VI assim a determinou na encíclica Humanae Vitae – que reflete sobre a vida humana como um todo, e não só sobre esse tema. Digo que é a posição oficial porque alguns grupos da Igreja defendem uma flexibilização nessa ideia. Mas não é bem disso que estamos falando agora.

Nesse contexto, o bispos dos Estados Unidos ficaram furiosos quando a nova regra do “Obamacare”, apelido dado ao programa de saúde, passou a exigir que todos os planos de empresas fornecessem contraceptivos. Isso porque há milhares de empresas ligadas à Igreja no país, como escolas, hospitais, escritórios e até mesmo paróquias, além de milhões de empresários católicos ou protestantes que não querem financiar a contracepção e o aborto.

Liderado pelo arcebispo de Nova York, cardeal Dom Timothy Dolan, o episcopado questionou duramente o governo Obama a respeito da saúde pública. E pediu mudanças na regra, pois entende que ela é um desrespeito à liberdade religiosa, garantida na Constituição do país. A reação de Obama foi quase que imediata: o presidente desistiu da exigência de que  organizações religiosas fossem obrigadas a fornecer métodos de controle de natalidade. Em vez disso, os próprios planos de saúde deveriam se responsabilizar. O problema aí é que, em muitos casos, os planos de saúde são das próprias instituições religiosas, o que torna a questão ainda mais complicada. Não está claro como vai ficar isso.

O cardeal Dolan

Por esse e por outros motivos, os bispos não estão satisfeitos. Pedem uma “isenção de consciência” para os grupos religiosos que se opuserem à regra. Além disso, ainda são contrários ao fato de que o governo manteve a cobertura à esterilização, à contracepção e a métodos abortivos nos planos de saúde em geral. Também questionam o funcionamento adminstrativo da regra. Pedem uma “cuidadosa análise moral” e criticam a “intromissão” do governo em questões de governança religiosa.

Para complicar ainda mais o embate, algumas religiosas católicas dos Estados Unidos, especialmente de congregações que atuam na área da saúde, se manifestaram diversas vezes a favor da reforma, que consideram essencial para a população mais carente. Ao fazer isso, elas contrariam os bispos em parte, pois defendem o acesso de todos à saúde pública sem questionar pontualmente as políticas públicas de contracepção. Mas concordam com a “isenção de consciência” para instituições religiosas e acham que essa solução já basta.

Vamos acompanhar os próximos capítulos dessa novela. Além da questão religiosa, o caso desgastou significativamente a imagem do presidente Barack Obama – candidato à reeleição neste ano – também junto a outros grupos religiosos que seguem a mesma linha de pensamento dos bispos católicos.

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Advogado retira processo contra Bento XVI relacionado à pedofilia nos EUA

Jeffrey Anderson

O advogado norte-americano Jeffrey Anderson, conhecido por defender vítimas de abusos sexuais por membros da Igreja nos Estados Unidos, retirou o processo que mantinha na Justiça estadual acusando o Papa Bento XVI de acobertar casos de pedofilia ocorridos na Arquidiocese de Milwaukee. Vale explicar o caso (que é bem complexo).

Segundo Anderson, que havia feito grande alarde no começo do processo, em março de 2010, convocando coletivas de imprensa que resultaram inclusive nesta polêmica reportagem no jornal The New York Times, o motivo de ter dado o passo atrás é o fato de ter obtido decisão favorável a ele em um outro processo na Justiça federal – mas este contra a Arquidiocese (que pediu falência). Ele também admitiu que os impedimentos legais eram enormes para levar adiante a ação – fico tentando adivinhar que tipo de “pena” poderia surgir no Estado de Milwaukee contra um Papa, mas enfim…

O advogado que defendeu o Vaticano, Jeffrey Lena, disse que Anderson percebeu que não conseguiria responder à altura o pedido de arquivamento do processo apresentado pela Igreja. Anderson havia solicitado ao juiz permissão para justificar as acusações em duas partes, uma envolvendo questões de jurisdição (isto é, relacionar as normas do Direito Civil com as do Direito Canônico, que são as leis que regem o funcionamento da Igreja) e outra com as acusações em si. Mas o juiz rejeitou isso e pediu uma única resposta com as duas coisas juntas, o que Anderson não foi capaz de fazer por falta de argumentos, de acordo com Lena.

Fato é que o processo foi retirado. Mas o importante aqui é notar como as coisas são mais complicadas do que pensamos.

Esse processo se referia ao falecido padre Lawrence Murphy, que teria abusado sexualmente de 200 meninos, entre 1950 e 1974, em Milwaukee. O Vaticano reconhece que Murphy cometeu os crimes. O advogado das vítimas acusava o cardeal Joseph Ratzinger (hoje o Papa Bento XVI) de ter conhecimento dos delitos e os acobertar enquanto liderou a Congregação para a Doutrina da Fé – órgão responsável por avaliar eventuais punições administrativas para esse tipo de caso entre tantas outras coisas. Anderson alegava que isso teria ocorrido por meio documento secreto Crimen sollicitationis, de 1922, reeditado em 1962, que contém orientações para bispos sobre como proceder quando houver assédio durante o sacramento da confissão (que é altamente sigiloso). Murphy teria cometido esse grave delito. Anderson dizia, entre outros argumentos, que o Crimen impediu os bispos de informarem as autoridades civis sobre os crimes.

Já Lena afirma que o Crimen se refere a obrigações canônicas, e não civis, de modo que nunca impediu os bispos de informarem a polícia, por exemplo. Além disso, o Crimen já articulava sobre esses procedimentos muito antes de existirem leis civis específicas para tais crimes. O advogado pondera que o Vaticano não é o responsável imediato por cada um dos 400 mil padres do mundo, mas sim seus bispos e arcebispos diretos. Aliás, hoje a recomendação da Igreja aos bispos é justamente que as autoridades civis sejam informadas.

O Vaticano argumenta, ainda, que  só ficou sabendo do problema 20 anos depois, já que as autoridades civis arquivaram denúncias contra Murphy naquela ocasião. O porta-voz Pe. Federico Lombardi sustenta que não existem punições automáticas para esses crimes nas leis da Igreja e que, no caso do Pe. Murphy, não houve uma penalidade eclesial porque o padre já era idoso, bastante doente e vivia isolado. Murphy morreu quatro meses depois da notificação ao Vaticano.

Vale lembrar que alguns membros da Igreja realmente erraram feio no que diz respeito aos casos de pedofilia, ao fechar os olhos para eles – e a Igreja não nega isso. Um grande problema aí parece ser o fato de que, durante muitos anos, faltou uma diretriz clara sobre como os bispos devem agir em todos os casos de abuso sexual. Mas isso mudou. Não é à toa que, recentemente, ocorreu o primeiro Simpósio em Roma sobre o combate à pedofilia.

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