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Papa adota tom conciliador em Sínodo dos Bispos sobre a família

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Análise publicada na página 23 de O São Paulo, em outubro de 2015

Procurando promover um espírito de comunhão entre os padres sinodais e evitar as especulações midiáticas, o Papa Francisco reafirmou a doutrina católica para o matrimônio e, ao mesmo tempo, insistiu na misericórdia como principal diretriz da Igreja em situações de grande sofrimento nas famílias.

Em diversas ocasiões nos últimos dias, no contexto do Sínodo dos Bispos, o Papa adotou um discurso conciliador. Defendeu a união entre homem e mulher como aliança de amor indissolúvel no matrimônio, mas também pediu uma Igreja misericordiosa e aberta a todos, que “constrói pontes, e não muros”, especialmente para quem vive no sofrimento.

O Sínodo dos Bispos volta a discutir o tema da família neste mês de outubro, entre os dias 4 e 25, após a assembleia extraordinária realizada um ano atrás, sob convocação do Papa. Agora os padres sinodais se reúnem em assembleia ordinária, ou seja, já prevista. Refletem sobre “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”.

Na missa de abertura do encontro, no domingo (4), o Papa chamou de “sonho de Deus para sua criatura” a “união de amor entre homem e mulher, feliz no caminho de comunhão e fecunda na doação recíproca”. Ele criticou as sociedades modernas, que, segundo ele, cada vez mais desestimulam relações “sólidas e fecundas de amor”. Disse que “o amor duradouro, fiel, consciente, estável, fértil é cada vez mais motivo de zombaria e visto como se fosse coisa da antiguidade”.

Embora tenha reafirmado a doutrina já conhecida, o pontífice também manifestou o desejo de ver uma Igreja mais compreensiva e acolhedora das famílias que vivem em situações difíceis, muitas vezes definidas como irregulares. “A Igreja é chamada a viver sua missão na caridade que não aponta o dedo para julgar os outros, mas, fiel à sua natureza de mãe, se sente no dever de buscar e curar as feridas com óleo da acolhida e da misericórdia.” Ele repetiu a metáfora de que a Igreja deve ser um “hospital de campanha, com as portas abertas para acolher a qualquer um que bata pedindo ajuda e sustento”.

Segundo o Papa Francisco, a Igreja deve “sair do próprio recinto em direção aos outros, com amor verdadeiro, para caminhar com a humanidade ferida, para incluí-la e conduzi-la à fonte de salvação”. Citando o Papa João Paulo II, acrescentou que “o erro e o mal devem ser sempre condenados e combatidos, mas o homem que cai ou que erra deve ser compreendido e amado. Nós devemos amar o nosso tempo e ajudar o homem do nosso tempo.”

O Sínodo não é um parlamento – Novamente estimulando um espírito de unidade e um melhor entendimento do Sínodo, o papa afirmou que tal assembleia não é um parlamento, onde os participantes negociam e tentam convencer os outros, mas um local de oração e “abertura ao Espírito Santo”. O pontífice acrescentou que os 270 membros votantes do Sínodo precisam de “coragem, zelo pastoral e doutrinal, sabedoria, franqueza”, tendo sempre em mente o bem da Igreja, das famílias, e a lei suprema da Igreja: “a salvação das almas”.

De fato, em coletiva de imprensa no Vaticano, na segunda-feira (5), o arcebispo italiano Bruno Forte, secretário especial da assembleia, procurou afastar a ideia de que a Igreja está dividida: “Posso dizer com grande sinceridade que não há divisão. Somos todos pastores tentando ouvir a voz de Deus. Sim, há diferenças, mas uma divisão seria outra coisa”, declarou.

O Sínodo tem pauta ampla – A imprensa internacional tem dado grande ênfase às questões mais polêmicas que envolvem as famílias, como sexualidade e divórcio, mas a Igreja tem tentado transmitir a ideia de que a diferença de ideias no Sínodo é algo normal.

De acordo com o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, tanto as discussões fechadas quanto as manifestações abertas dos participantes têm demonstrado que há “diferenças de opiniões entre quem está mais preocupado em recordar o ensinamento católico e quem destaca mais a necessidade de dialogar com o mundo”.

Pe. Lombardi informou que nos primeiros três dias de reuniões a portas fechadas foram abordados, entre outros, os temas da homossexualidade; de encontrar uma linguagem nova com a qual comunicar o Evangelho; e a possibilidade de se encontrar soluções locais, em vez de universais, para questões controversas, como a comunhão aos divorciados em segunda união.

O vaticanista norte-americano, John Allen Jr., do Boston Globe, informou que alguns participantes do Sínodo creem que a assembleia do ano passado tenha gastado muito tempo e energia debatendo “como encorajar famílias que estão tentando viver o ensinamento da Igreja”. Portanto, agora, querem aprofundar, por exemplo, “a necessidade de se ter formas mais compreensivas de preparação para o matrimônio, assim como acompanhamento e apoio para famílias depois da cerimônia de casamento”.

O Sínodo não é um Fla-Flu – Nesse sentido, o vaticanista Andrea Tornielli, do jornal italiano La Stampa, escreveu, em análise, que “quem olha o Sínodo como uma partida de futebol, encontrará posições já conhecidas, graças a entrevistas e livros publicados (pelos padres sinodais), de quem joga no time dos contrários à abertura e de quem, em vez disso, está na outra metade no campo”. Mas, observou Tornielli, “o Sínodo não é uma partida de futebol, e seu primeiro dia não foi um derby com torcidas rivais. E tem alguém que continua a repetir isso: o Papa Francisco, que, mais uma vez, procurou indicar um olhar, uma abordagem ao tema da família, a partir do Evangelho”.

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Um debate sobre as mulheres na Igreja

2013-12-18 18.33.37O grande passo para que as mulheres voltassem a ser lembradas pela Igreja Católica foi dado no Concílio Vaticano II e de lá para cá muita coisa mudou, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Foi mais ou menos esse o tom do debate sobre o tema “A força da mulher” realizado ontem na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, por ocasião do lançamento do documentário Maria di Magdala: Le donne nella Chiesa (“Maria Madalena: As mulheres na Igreja”), dirigido e produzido pela espanhola Maite Carpio, a ser exibido pela TV italiana Rai 3 em 28 de dezembro no programa La Grande Storia.

As mães do Concílio –  “O Vaticano II foi um germe para mudanças notáveis. Foi a primeira vez que mulheres participaram de um concílio”, recordou a teóloga Marinella Perroni, doutora em Teologia e Filosofia e professora de Novo Testamento no Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma. Convocado em 1962 pelo Papa João XXIII, o Concílio Vaticano II foi a última grande reforma da Igreja Católica, desde aspectos práticos e pastorais até a liturgia e o modo de pensar a própria Igreja.

Mulheres do Vaticano II

A professora Marinella, uma das entrevistadas do documentário, se refere às chamadas “mães do Concílio”, um grupo de 23 mulheres (13 leigas e 10 religiosas) que participaram como observadoras do grande encontro que reuniu 2.500 bispos do mundo inteiro para repensar a Igreja.  Elas chegaram muito tempo depois que o Concílio havia começado, apenas quando o então cardeal Arcebispo de Bruxelas, Dom Léon-Joseph Suenens, teria dito aos seus companheiros padres do concílio: “Caros irmãos, olhem para os lados… onde está a outra metade da Igreja?” Foi somente em setembro de 1964, sob o Papa Paulo VI, que a primeira mulher entrou numa sala conciliar.

Conforme o documentário, 60% dos fiéis que se dizem católicos atualmente são mulheres. Mas só depois do Vaticano II  as mulheres passaram a ser admitidas nas faculdades de Teologia, por exemplo. “Não nos faltou nos últimos 50 anos uma contribuição forte de teologia das mulheres, isto é, a participação da mulher na interpretação e no crescimento teológico”, afirmou Marinella. “Alegra-me recordar que estamos em um caminho de crescimento.” Numa fala bastante crítica, mas otimista, ela recordou a argentina Margarita Moyano Llerena, então presidente da Federação Mundial da Juventude Católica Feminina e uma das mulheres que participaram do Concílio, que teria dito: “As mulheres em Roma chegam só no fim, mas, no fim, chegam.”

Últimos dois Papas – O padre Federico Lombardi, atual porta-voz do Vaticano e que trabalhou como consultor na preparação do documentário Maria di Magdala observou que o aumento da participação das mulheres nas decisões da Igreja é algo que vem sendo preparado e defendido pelos últimos dois Papas, Bento XVI e Francisco, com os quais ele vem trabalhando nos últimos anos.

Para ilustrar esse ponto de vista, o padre jesuíta recordou a entrevista de Bento XVI a uma TV alemã em 2006, quando disse: “As próprias mulheres, com a sua motivação e força, com a sua por assim dizer preponderância e o seu ‘poder espiritual’, saberão encontrar o próprio espaço. E nós (homens) deveríamos procurar colocar-nos à escuta de Deus, para não nos opormos a Ele; ao contrário, fazemos votos por que o elemento feminino obtenha na Igreja o lugar ativo que lhe é próprio, a começar pela Mãe de Deus e por Maria Madalena.”

Da parte do Papa Francisco, Lombardi admitiu que ainda “não entendeu perfeitamente” o que ele quis dizer na entrevista coletiva concedida aos jornalistas que estavam no avião durante a viagem de volta do Rio de Janeiro a Roma, em julho.  Na ocasião, declarou Francisco: “O papel da mulher na Igreja não deve circunscrever-se a ser mãe, trabalhadora… Limitá-la não! É outra coisa!”

O Papa lembrou as mulheres do Paraguai, que depois da guerra (1864-1870) tiveram de reconstruir o país mantendo a cultura local e acrescentou: “Na Igreja, temos de pensar a mulher sob essa perspectiva de escolhas arriscadas, mas como mulheres. Isso deve ser explicitado melhor. Eu acho que ainda não se fez uma profunda teologia da mulher na Igreja. Limitamo-nos a dizer que pode fazer isto, pode fazer aquilo, agora faz a coroinha, depois faz a Leitura, é a presidente da Caritas… Mas, há muito mais! É necessário fazer uma profunda teologia da mulher.” Segundo o  porta-voz do Vaticano, “os dois últimos papas têm uma perspectiva muito aberta sobre a realidade da mulher na Igreja. Muito foi feito, mas é necessário entender que ainda há muito a avançar”.

Apóstola dos apóstolos – De acordo com o presidente do Pontifício Conselho da Família, o arcebispo Dom Vincenzo Paglia, não é possível aprofundar uma “teologia da mulher” sem recordar o papel essencial das mulheres na História da Igreja. “Quando se lê a História com profundidade, encontramos algumas mulheres com um papel evidente, mas outras serão descobertas. As mulheres são parte determinante”, defendeu, destacando a história das ordens religiosas femininas. “Houve uma abadessa que tinha poder sobre os padres, mais do que o bispo. A história do monasticismo é exemplar.”

Dom Paglia, um dos entrevistados para o documentário, acredita que a força da mulher na Igreja precise ser redescoberta pelos homens, de modo que elas assumam funções mais decisivas, inclusive na administração eclesiástica. “Não há dúvidas de que seja necessária uma presença maior da mulher nas cúrias, não só na romana.” Porém, ele alerta: é indispensável não perder “a visão do mistério de Deus” ao afrontar o problema. “O poder na Igreja não é parlamentar, econômico, militar… é um poder diferente.” Referindo-se a Maria Madalena, primeira pessoa que encontrou Jesus após a ressurreição, segundo o relato bíblico, e que dá nome ao documentário, disse Dom Paglia: “Devemos redescobrir o significado de Maria Madalena; o que queremos dizer quando a chamamos ‘a apóstola dos apóstolos‘.”

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Papa Francisco é a pessoa do ano

Francisco foi eleito a pessoa do ano de 2013 pela revista Time. Não precisamos comentar o conteúdo: a reportagem é um resumão de tudo o que o Papa tem feito, sua história de vida e o que faz dele uma pessoa especial.

O porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, declarou hoje que a escolha da Time não foi uma surpresa, considerando a enorme repercussão dada à eleição de Jorge Mario Bergoglio para o papado.

“É um sinal positivo o fato de que um dos reconhecimentos mais prestigiosos da imprensa internacional tenha sido atribuído a quem anuncia no mundo valores espirituais, religiosos e morais, e fala eficazmente a favor da paz e de uma maior justiça”, disse Lombardi. “O Papa não procura fama e sucesso”, comentou o porta-voz, “mas isso demonstra que muitos entenderam a sua mensagem”.

De qualquer forma, a Time coloca o Papa e a Igreja Católica novamente no cenário internacional de forma muito positiva e fortalece a imagem de que o momento atual é de mudança favorável.

A reportagem é leitura obrigatória para quem se interessa pelos assuntos da Igreja Católica. Se você lê em inglês, recomendamos o texto original, que está aqui. Caso contrário, leia aqui a versão da Time em português (não é uma tradução do inglês, é outro texto).

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Igreja se une a Obama contra as armas

Em liquidação?

Uma das discussões mais intensas e acaloradas nos Estados Unidos tem sido o controle sobre a compra e o porte de armas proposto pelo presidente Barack Obama. E a Igreja Católica tem se mostrado firmemente a favor da adoção de novas restrições, posição que contraria boa parte da sociedade americana (praticamente a metade), mas que não é nova e, aparentemente, ainda não foi amplamente divulgada pela imprensa internacional.

Neste post, primeiro vamos ver como está a situação do problema nos Estados Unidos e, segundo, apresentar o que diz a Igreja Católica sobre esse assunto.

CONTEXTO – Basicamente, o ambiente esquentou quando o recém-reeleito presidente Obama disse no fim do ano passado que apresentaria medidas urgentes para mudar as políticas de compra e controle de armas de fogo no país, após mais um entre tantos tristes massacres em escolas americanas – quando um atirador matou 20 crianças e 6 adultos. Porém, a rica e potente indústria bélica dos Estados Unidos, com seus influentes grupos de lobby no Congresso e apoio de boa parte da população, quer impedir qualquer mudança nesse sentido e procura desvincular as frequentes tragédias ao fácil acesso às armas de fogo.

Obama e o Partido Democrata apresentaram mais de 20 medidas, entre elas a proibição da venda de armas pesadas e militares, como metralhadoras, e a necessidade de comprovação de ausência de antecedentes criminais para que se possa comprar armas de fogo. Mas é grande a resistência a esse projeto, que precisa ser aprovado também por legisladores do Partido Republicano. Os Republicanos geralmente têm maior número de representantes nas regiões onde o comércio de armas está mais consolidado e faz parte da cultura local. É muito comum em áreas rurais praticar caça, por exemplo, ou tiro ao alvo.

Obama assumiu praticar tiro ao alvo, mas está firme na guerra contra as armas

Mas, de acordo com Obama, que hoje afirmou ser ele próprio um praticante de tiro ao alvo, as regras são importantes para as áreas urbanas do país. Segundo o presidente americano, é preciso “entender que a realidade das armas em áreas urbanas é muito diferente das realidades em áreas rurais”. A Associação Nacional de Rifles, uma das mais fortes instituições contrárias ao controle de armas nos Estados Unidos, reclama que as ideias de Obama vão de encontro aos direitos individuais de todo cidadão, que pode comprar quantas armas quiser para proteger a si mesmo, à sua família e a seus bens pessoais.

Na tentativa de explicar o motivo da forte resistência popular ao controle de armas, Obama declarou: “Se você cresceu e seu pai te deu um rifle de caça quando você fez 10 anos, e você saiu e passou o dia com ele e com seus tios, e isso se tornou parte das tradições de sua família, dá para ver por que você resistiria a isso (o controle de armas).” De qualquer forma, o presidente tem reclamado que os Republicanos não querem se comprometer com essa essencial mudança na sociedade.

IGREJA DEFENDE RESTRIÇÕES – Embora a Igreja Católica e o governo Obama tenham se enfrentado no que diz respeito à defesa da vida e o sistema de saúde americano (entenda melhor aqui), desta vez os dois estão do mesmo lado da briga. Em janeiro deste ano, a Santa Sé afirmou que recebeu positivamente a iniciativa de Barack Obama.

Dessa vez juntos

Dessa vez, juntos

O porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, publicou um editorial no jornal L’Osservatore Romano dizendo que “as iniciativas anunciadas pela administração americana para a limitação e o controle da difusão e do uso das armas são certamente um passo na justa direção”. O sacerdote recordou que “47 líderes religiosos de várias confissões e religiões enviaram um apelo aos deputados americanos para limitar as armas de fogo que ‘estão fazendo a sociedade pagar um preço inaceitável em tragédias e mortes insensatas’, e acrescentou: “Estou com eles.”

E essa posição, como dissemos no início do post, não é recente e vem sendo há tempos reiterada. Em 2006, na Mensagem para o Dia Mundial para a Paz, o Papa Bento XVI lamentou “o aumento preocupante das despesas militares” e o comércio de armas “cada vez mais próspero” no mundo.

No caso específico dos Estados Unidos, os bispos americanos divulgaram em novembro 2000 um documento chamado “Responsabilidade, Reabilitação e Restauração: Uma Perspectiva Católica sobre o Crime e a Justiça Criminal“, no qual dizem claramente que são contra o livre comércio de armas no país e que, no longo prazo, seu uso deveria ser “eliminado de nossa sociedade”, exceto para policiais e militares. Diz o episcopado americano:

“Como bispos, apoiamos as medidas que controlam a venda e o uso de armas de fogo e as tornam mais seguras – especialmente esforços para evitar seu uso não supervisionado por crianças ou qualquer outra pessoa que não o proprietário – e reiteramos nosso pedido por uma regulação sensata das armas de fogo.”

Enfim, muitas outras vezes a Igreja Católica vem defendendo a restrição e até mesmo o fim do comércio de armas. Também outras instituições e associações – muitas delas formadas por parentes de vítimas de massacres – tentam caminhar no mesmo sentido. Aparentemente, o governo Obama está fazendo um esforço real para mudar a situação, mas a dificuldade está no Congresso.

Como nos Estados Unidos os dois principais partidos se enfrentam muito duramente na política e os grupos de lobby são muito ricos e influentes, pode ser que ainda por um bom tempo as coisas fiquem como estão. Enquanto isso, até em supermercados é possível comprar revólveres e munições e, com sorte, quem sabe se encontra uma boa liquidação.

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VatiLeaks: O mordomo do Papa sorri

Ciente de que não tenho conseguido postar tanto quanto gostaria nas últimas semanas, resolvi escrever um breve post ao menos atualizando no blog como ficou o caso dos “Vatileaks”, série de vazamentos de documentos sigilosos da Santa Sé (entenda), que revelaram detalhes de correspondências do Papa, discussões entre autoridades da Igreja e suspeitas de fraude no Vaticano.

Vínhamos acompanhando passo a passo o problema, mas sequer falamos aqui sobre a prisão e o perdão de Paolo Gabriele, mordomo pessoal do Papa Bento XVI acusado de roubar documentos e facilitar sua divulgação na imprensa. 

Recapitulando: como foi amplamente noticiado pela imprensa internacional, Paolo Gabriele havia sido condenado pela Justiça do Vaticano a um ano e meio de prisão por “furto agravado”, a ser cumprida no sistema carcerário italiano. Entretanto, de acordo com as leis do Vaticano, o Papa tem total autonomia para perdoá-lo e liberá-lo de ter que cumprir a pena. E foi o que aconteceu.

Gabriele não só foi perdoado (antes do Natal) como recebeu um novo emprego, no hospital pediátrico “Bambino Gesù”, que pertence à Santa Sé. Na ocasião, o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, explicou o motivo do perdão concedido por Bento XVI: “Leva-se em consideração a situação de sua família e da benevolência com a qual o Papa quis intervir na situação, e portanto será oferecida uma possibilidade de alojamento e ocupação, mas não na sede da Cidade-Estado do Vaticano.”

Bento XVI perdoa mordomo

Fato é que, desde então, Paolo Gabriele voltou a sorrir. Apareceu publicamente em foto com o Papa, ambos felizes com a reconciliação. Isso levou muita gente a questionar a tal justiça vaticana: Como é que o sujeito rouba documentos, causa uma algazarra internacional e não só é perdoado, como também ganha um novo emprego?

Esse texto do vaticanista Andrea Tornielli, bastante esclarecedor no ponto de vista religioso, levanta justamente essa questão (“O sorriso de Paolo Gabriele”). Tornielli recorda que o Papa não é como um outro chefe de Estado qualquer. Acredita-se que seja o “vigário de Cristo”, isto é, um representante vivo de Jesus e, sendo assim, deve seguir seus ensinamentos. Segundo o jornalista, Bento XVI não se move sobre a base do senso comum, mas de “uma outra coisa”. Conforme a tradição cristã, “Jesus perdoou a traição de Pedro e perdoa nossos pecados, mesmo os mais graves, se reconhecemos a necessidade da sua misericórdia”, explica Tornielli. “O Papa mostra sua compaixão pela família” de Gabriele.

Um gesto caridoso, é verdade. Mas é claro que também buscou ser uma espécie de desfecho público para o complicadíssimo caso “Vatileaks”.

No entanto, algumas perguntas permanecem em aberto e as investigações continuamNo fim do ano passado, o jornal Corriere della Sera e outros observadores da Santa Sé questionaram, por exemplo, por que Gabriele estaria reunindo documentos desde 2006 e só resolveu divulgá-los no ano passado? Quem são as outras pessoas envolvidas? Sabe-se que o programador Claudio Sciarpelletti é um deles.

Gabriele em julgamento

Gabriele havia dito, em entrevista, que ao menos 20 pessoas faziam parte do esquema, que, segundo o próprio mordomo, buscava acabar com “o mal e a corrupção” no coração da Igreja. Mas não se sabe até hoje quem era de fato o alvo desse plano. Seria o secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone? Seria o próprio Papa? Seriam outros? Seria somente um plano mal feito articulado por um bem intencionado mordomo?

O vaticanista John Allen Jr observa que Gabriele, em determinado momento, afirmou ter ligação com pessoas do alto escalão na Santa Sé, mas em nenhum instante ficou claro se alguém teria autorizado ou participado da divulgação de documentos sigilosos.

O mundo continua acompanhando. A consequência positiva para todos dessa história é que cada vez mais o Vaticano começa a perceber que não vive em um mundo paralelo. O Papa e seus colaboradores vêm claramente tentando promover a transparência e a segurança no funcionamento das coisas da Igreja, justamente para evitar novas especulações, conspirações e surtos midiáticos. Seria esse o verdadeiro motivo do sorriso do mordomo?

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Veja por que é tão delicada e perigosa a viagem de Bento XVI ao Líbano

Bento XVI na Jordânia

Está prevista para 14 a 16 de setembro uma viagem apostólica do Papa Bento XVI ao Líbano.

A Santa Sé já confirmou mais de uma vez que a visita vai acontecer, mas são cada vez maiores os rumores de que a viagem pode ser cancelada a qualquer momento. É uma das visitas mais delicadas do pontificado de Bento XVI e vamos tentar explicar de forma simplificada o porquê.

O motivo dessa incerteza é a intensa violência naquela região do mundo, especialmente na Síria, onde rebeldes enfrentam o governo do presidente Bashar al-Assad. O ditador, que sucedeu seu pai e está no poder desde o ano 2000, é a cabeça da mais sangrenta repressão política da atualidade.

O Líbano e a Jordânia têm sido os principais destinos dos refugiados sírios. E, mais do que o problema da Síria, o que vem preocupando a comunidade internacional é a “exportação” dos conflitos para o Líbano.

A tensão na região da fronteira entre os dois países aumenta dia a dia e uma série de confrontos e mortes tem ocorrido já em território libanês. Além disso, as diferenças entre as etnias islâmicas xiita e sunita não respeitam fronteiras. E mais: os partidos políticos estão envolvidos nessa história toda, divididos entre interesses, regiões, influências do exterior, etc. O negócio é complexo.

O objetivo “oficial” da viagem de Bento XVI ao Líbano é apresentar as conclusões de um encontro dos bispos do Oriente Médio, ocorrido em 2010. Mas a esperança é de que o Papa possa levar novamente uma mensagem de paz à região, um apelo à convivência entre diferentes religiões, um pedido à procura do bem comum. E também um alento aos cristãos, minoria perseguida em algumas localidades. De acordo com o site Vatican Insider, fontes da Santa Sé afirmaram que “é importante que os cristãos desempenhem um papel ativo: são um fator de estabilidade e devem continuar a desenvolvê-lo, em um momento de grandes mudanças e de incógnitas para o futuro de toda a região”.

Porém, esta seria a primeira visita do Papa à região após a chamada “Primavera Árabe“, uma onda de protestos que começou em 2010 no Oriente Médio e no Norte da África. Só isso já aumenta o peso dessa visita em relação às anteriores – Bento XVI já esteve na Turquia, na Terra Santa, na Jordânia e no Chipre. Qualquer palavra ou passo fora do programado pode resultar num grande mal-entendido.

Maioria dos cristãos no Líbano pratica o rito oriental Maronita

Outro detalhe importante: o vaticanista americano John Allen Jr alerta para o fato de que a viagem de Bento XVI ao Líbano será um grande desafio à diplomacia papal. Isso porque, embora o Papa tenha pedido diversas vezes o fim da violência na região, o Vaticano até hoje não adotou um posicionamento sobre a ideia da intervenção militar internacional na Síria. Muitos grupos defendem que exércitos de outros países entrem na Síria para derrubar Assad e acabar com o conflito. Mas o Vaticano não tem uma posição clara e ainda considera essa proposta “preocupante”.

Neste contexto, até diferentes grupos de cristãos no Líbano têm posições divergentes sobre a intervenção militar na Síria.

Alguns políticos cristãos são aliados de Assad e outros querem vê-lo bem longe dali, por exemplo. “Quem estiver esperando uma linha clara de Bento XVI sobre a situação da Síria deve ficar decepcionado”, avalia o jornalista John Allen Jr, explicando que o Papa deve se concentrar na questão humanitária e na boa relação entre as religiões.

O problema geopolítico se soma ao problema da segurança do Papa. Mesmo assim, na semana passada o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, afirmou que o papamóvel já está em Beirute. “A preparação para a viagem do Papa ao Líbano prossegue sem incertezas por parte do Vaticano”, declarou.

De qualquer forma, analistas do Vaticano dizem que, se a situação no Líbano piorar, nada impede de que a delicada e perigosa viagem seja repensada.

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VatiLeaks: mordomo do Papa vai a julgamento, mas a novidade não é essa

Paolo Gabriele, ex-mordomo do Papa

A imprensa internacional noticiou nesta semana que Paolo Gabriele, ex-mordomo do Papa preso com documentos sigilosos, vai ser acusado formalmente de furto com certos agravantes por ter favorecido o vazamento de informações sobre o Vaticano e o Papa Bento XVI.

Mas a novidade principal no caso dos VatiLeaks não é bem essa (entenda melhor os capítulos anteriores, clicando aqui). Estava na cara que ele seria acusado. Na verdade, as maiores novidades são duas.

A primeira delas é o fato de que um outro homem está envolvido no processo que investiga o vazamento de documentos secretos e também será acusado por isso.  Trata-se do analista de sistemas Claudio Sciarpelleti, funcionário da Secretaria de Estado, acusado de auxiliar e ser cúmplice de Gabriele.

Novidade porque até então o nome de Sciarpelleti não havia sido mencionado em nenhum momento. Aliás, até então Gabriele era o único acusado pelos VatiLeaks, e vem sendo chamado de “o corvo”.

Segundo a Rádio Vaticano, o especialista em computadores foi preso com dois envelopes de Gabriele em 25 de maio, dois dias depois da detenção do mordomo. Sciarpelleti foi liberado depois de prestar depoimento, pois aparentemente seu envolvimento foi bastante indireto. Mas ele está suspenso de suas funções no trabalho. De qualquer forma, as suspeitas de que Gabriele não agia sozinho parecem se confirmar.

Pe. Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano

Gabriele, que inicialmente havia negado o envolvimento no vazamento de documentos, reconheceu a natureza ilegal de seus atos e disse que foi motivado pela lealdade ao Papa. De acordo com o acusado, ele foi inspirado pelo Espírito Santo a combater a corrupção na Igreja e acreditava que um “choque midiático” seria “saudável” para recolocá-la no caminho correto. Aparentemente, Gabriele roubou, copiou e passou adiante uma série de documentos sigilosos.

A segunda novidade foi a fala do porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, sobre as acusações. Ele destacou o desejo do Vaticano e, indiretamente, do Papa Bento XVI, de que as acusações e o julgamento sejam tratados com total transparência.

Embora isso pareça ser uma declaração padrão, a diferença está no fato de que o Pe. Lombardi comparou o tratamento a ser dado para o caso dos VatiLeaks aos esforços de reforma e transparência financeira que vêm sendo promovidos no pontificado de Bento XVI. Recentemente, o Vaticano se submeteu a uma análise independente da Moneyval (fato muito importante, que detalhamos neste post).

Nesse sentido, o Pe. Lombardi afirmou que o Papa Bento XVI apoia o papel do Judiciário no processo e respeita sua competência e autonomia.

O porta-voz esclareceu que a comissão de cardeais criada pelo Papa para investigar o caso ainda não se pronunciou justamente para não interferir nas decisões dos juízes. Lombardi explicou que, a rigor, o Papa tem autoridade para intervir em qualquer etapa do processo, se quiser. Mas o fato de que até agora não o fez leva a crer que é desejo do pontífice que o julgamento ocorra de forma independente.

O Supremo Tribunal da Santa Sé volta do recesso de verão em 20 de setembro. Se condenado, Gabriele cumprirá até seis anos de prisão na Itália, conforme um acordo internacional com o Vaticano.

Porém, resta saber, ainda, se ele agia por conta própria e com que objetivos concretos. Ou se há outros envolvidos. A transparência envolve essas respostas.

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