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Dois anos de reformas

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Análise publicada na página 24 de “O São Paulo”, em março de 2015

Quem caminha nas ruas próximas ao Vaticano, em Roma, encontra uma enxurrada de livros sobre o Papa Francisco. Biografias, análises e teorias da conspiração. A maioria das obras tem títulos impactantes. “O Evangelho do Sorriso”, “Mente aberta, coração fiel”, “Um papa do fim do mundo”, “Vida e revolução”, “O papa do povo”, “O milagre de Francisco”, “Porque ele comanda como comanda”, “O grande reformador”, “Até onde vai Francisco?”. Todos esses textos foram escritos nos últimos dois anos, desde a eleição de Jorge Mario Bergoglio ao trono de Pedro, e têm uma coisa em comum: as reformas do pontificado do Papa Francisco.

Dois anos atrás – Bergoglio foi eleito para renovar a Igreja. A histórica decisão de Bento XVI de renunciar em 11 de fevereiro de 2013, dizendo lhe faltar “vigor no corpo e na alma”, permitiu aos cardeais que elegeriam o novo pontífice a antecipar o debate sobre os problemas que a Igreja vivia. Normalmente, com a morte de um papa, os cardeais são logo isolados em um conclave, do qual só saem depois da eleição do sucessor. No caso da renúncia de Bento XVI, que governou até o fim de fevereiro, o conclave só começou um mês depois. Por mais de 30 dias, os cardeais puderam se articular livremente fora do conclave e debater o futuro da Igreja. Não é à toa que Francisco tenha sido eleito após somente dois dias de votação, em 13 de março.

Não é à toa que o então arcebispo de Buenos Aires tenha aceitado ser o novo bispo de Roma “em espírito de penitência”. Ele conhecia os obstáculos que encontraria.

Algumas das reformas já haviam sido iniciadas por Bento XVI, como a reestruturação do banco do Vaticano, até então um terreno fértil para a crimes financeiros. Também foi Bento XVI que iniciou a política de “tolerância zero” à pedofilia, substituindo bispos que não agiram com firmeza e a instituindo organismos para estudar e resolver o problema. O Papa Francisco abraçou a causa e ampliou o combate, criando também uma comissão dentro do Vaticano. “O medo do escândalo não pode frear a limpeza”, disse o papa argentino, em fevereiro.

Dentro e fora da Igreja – “A reforma da Cúria Romana não é um fim em si mesma, mas um meio para reforçar o testemunho cristão”, afirmou Francisco, também em fevereiro. Para criar uma nova estrutura para a Cúria, a administração geral da Igreja, ele nomeou uma comissão de nove cardeais. O mesmo grupo articula uma reformulação das finanças do Vaticano, sob o comando do cardeal australiano Dom George Pell, colocando a Santa Sé dentro dos padrões internacionais de transparência.

Seria possível listar várias das reformas da popularmente chamada “revolução Francisco”. Ele está mudando a configuração do colégio de cardeais ao nomear bispos de países pouco representados e de periferias. Está estimulando a colaboração dos bispos do mundo inteiro nas questões cruciais, aumentando a chamada colegialidade. Convocou um histórico Sínodo dos Bispos para discutir os problemas das famílias. Também está retomando o empenho diplomático da Santa Sé em questões de grande relevância internacional, como o conflito Israel-Palestina e o embargo dos Estados Unidos sobre Cuba. Está fortalecendo os laços com a Igreja Ortodoxa e outros cristãos, além dos judeus e muçulmanos.

O professor de Filosofia Política da Pontifícia Universidade Gregoriana, Pe. Rocco D’Ambrosio

Reformador ou renovador – Alguns estudiosos em Roma acreditam o projeto de reforma de Francisco é um processo histórico que só poderá ser compreendido no futuro. O padre italiano Rocco D’Ambrosio, professor de Filosofia Política na Pontifícia Universidade Gregoriana, costuma dizer que os atos do Papa Francisco estão “em total continuação com as resoluções do Concílio Vaticano II”. Assim, o aggiornamento (atualização) já vinha acontecendo gradualmente. Agora, é reforçado pelo primeiro papa que não participou do Concílio.

O escritor e padre americano Dwight Longenecker, colunista do site católico Aleteia, escreveu em artigo que a palavra “reformador” não é precisa para definir o Papa Francisco. Ele sugere, em vez disso, “renovador”. “O Papa Francisco quer uma renovação na Igreja”, comenta. “A verdadeira ambição de Francisco é de voltar nossos corações e mentes de novo à simplicidade da mensagem do Evangelho.”

De fato, na exortação apostólica Evangelii gaudium (A alegria do Evangelho), Francisco diz: “O bem tende sempre a se comunicar. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade diante das necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem se enraíza e se desenvolve. Por isso, quem deseja viver com dignidade e em plenitude, não tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem.”

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O rosto da Igreja na Ásia (e talvez no mundo) segundo o cardeal Tagle

O Cardeal Luis Antonio Tagle (esq), Arcebispo de Manilla, e o Pe. Antonio Spadaro, diretor de 'La Civiltà Cattolica'

O Cardeal Luis Antonio Tagle (esq), Arcebispo de Manila, e o Pe. Antonio Spadaro (dir), diretor de La Civiltà Cattolica

A Igreja Católica presente na Ásia deve ter a coragem de descobrir novos modos de contar a história de Jesus. Segundo o cardeal filipino Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, esse é um dos grandes desafios dos cristãos na Ásia, um dos continentes onde a Igreja Católica cresce mais expressivamente.

“Como dizia o Papa João Paulo II, devemos encontrar uma pedagogia que fale à sensibilidade asiática. A mesma história (de Jesus) pode ser contada a partir de novos pontos de vista”, declarou o popular cardeal em conferência organizada pela revista dos padres jesuítas La Civiltà Cattolica – realizada em Roma e, por sinal, um dia após a publicação de uma longa entrevista do Pe. Antonio Spadaro com o Papa Francisco, que ganhou repercussão mundial.

Spadaro, que também presidiu a conferência com Tagle, apresentou o cardeal filipino como muito alinhado ao pensamento do Papa Francisco, que destaca a importância de se ter uma Igreja alegre e sorridente. “A Ásia representa um estilo de igreja: jovem”, e, como disse o Papa na entrevista aos jesuítas, o futuro das igrejas jovens deve ser construído juntamente com a tradição das igrejas antigas (como a da Europa). “Qual é o rosto da Igreja na Ásia?”, questionou Spadaro a Tagle, referindo-se a uma igreja “cheia de energia”, enquanto a da Europa é tida como “uma Igreja cansada”.

Método narrativo – Em vez de responder objetivamente à pergunta de Spadaro, o arcebispo de Manila preferiu apresentar um amplo cenário sobre os desafios da Igreja na Ásia (e que até certo ponto vale para toda a Igreja Católica). Durante toda a sua fala, o Cardeal Tagle destacou que o “método narrativo” é o principal para “proclamar a vida de Jesus na Ásia”. Segundo ele, a própria vida tem uma estrutura narrativa e contar histórias faz parte das tradições dos povos asiáticos.

“As boas histórias se baseiam nas experiências. As nossas histórias pessoais são as melhores, porque falam das nossas experiências”, explicou, acrescentando que quando uma pessoa narra sua história, torna mais compreensível também o mundo em que vive. “Da mesma forma, a Igreja na Ásia precisa partir da experiência de Jesus. Os primeiros apóstolos, que eram asiáticos, falavam de sua própria experiência.”

O cardeal filipino alertou que essa “narrativa” deve ser construída de diversas formas, seja por meio da liturgia ou da oração, seja a partir da interação com as pessoas, “especialmente os mais pobres”. Ele acredita que deva ser fortalecida não só a missão ad gentes (para as nações), mas também aplicá-la a uma realidade inter gentes (entre as nações) e “com os povos”.

Identidade – Outro grande desafio, conforme Tagle, é fortificar a identidade da igreja presente na Ásia. “Em uma grande parte da Ásia, a fé cristã é considerada uma coisa estrangeira”, alertou. “Esquece-se da história dos símbolos da fé. Devemos recordar a história da fundação da Igreja por Jesus.” Exemplificou usando três símbolos bastante conhecidos do cristianismo: a fração do pão, por exemplo, é uma mensagem de partilha; o anel de um bispo é um símbolo de serviço; o sacerdote “como presença de Jesus Cristo” é um sinal de disponibilidade para o povo.

Tagle autografa exemplares do seu livro "Gente de Páscoa”

Tagle autografa exemplares do seu livro “Gente de Páscoa”

“É necessário rastrear a origem dos símbolos da fé, que reconduz à história de Jesus.”, recordou, avisando que, sem a retomada dos significados originais, “os símbolos da Igreja podem terminar contando uma outra história, diferente daquela de Jesus”. O anel do bispo se torna uma mera joia, um símbolo de poder e riqueza, por exemplo.

Insistindo sobre a propagação da história da vida de Jesus, Tagle disse que é dessa história que vem toda a tradição da Igreja. “É a mesma história que toda a comunidade deve compartilhar. É a sua verdadeira identidade.” Essa história, declarou o cardeal, não pode ser imposta. “A Igreja na Ásia deve ser humilde e deixar que o Espírito Santo a toque. Uma Igreja narradora deve ser uma Igreja que escuta as pessoas e o Espírito Santo.”

Sobre a perseguição e a opressão que sofrem alguns povos asiáticos – como na China, onde nasceu a mãe do mesmo cardeal – Tagle evitou citar casos concretos e afirmou que, em resposta às ditaduras, “a Igreja é a voz das histórias suprimidas”. Respondendo a uma pergunta do Pe. Spadaro sobre a pequena porcentagem de cristãos na Ásia, o arcebispo filipino disse que as pequenas comunidades devem ser valorizadas. “Nestas comunidades de cinco, quatro pessoas, a Igreja é viva! Não basta o número. É claro que queremos mais pessoas. Mas a coisa mais importante é a qualidade e a adesão ao Evangelho.”

O cansaço da Europa – O Pe. Spadaro provocou o cardeal Tagle com uma última questão sobre como enxerga a Igreja na Europa. Tagle respondeu: “Escutei tantas vezes a expressão ‘o cansaço da Igreja’ na Europa. Está cansada de quê?”, brincou, tirando risos da plateia. “Parece-me que esse cansaço é motivado pela falta de capacidade de dizer que o Espírito Santo nos convida a uma nova ideia de ser Igreja”, disse firmemente. “Uma nova forma de ser Igreja termina e outra começa. A Igreja não tem tempo de estar cansada. A cada dia busca a mão do Espírito que a guia.”

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Papa convoca vigília de oração pela Síria

ImagePapa Francisco hoje: “Decidi convocar toda a Igreja, no dia 7 de setembro, vigília da Natividade de Maria, Rainha da Paz, para um dia de oração e jejum pela paz na Síria, no Oriente Médio e no mundo inteiro. Convido a unir-se a esta iniciativa, do modo que considerarem mais oportuno, os irmãos cristãos não-católicos, os fiéis de outras religiões e todos os homens de boa vontade”.

No Vaticano, serão cinco horas de oração na Praça de São Pedro, das 19h às 24h. Desde o pontificado de Bento XVI a Igreja vem pedindo ao mundo uma solução pacífica para o problema dos conflitos na Síria.

Com o  recente ataque com armas químicas no país e um agravamento do tom na comunidade internacional – especialmente depois que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou que haverá uma operação militar na Síria – o Papa Francisco também resolveu intensificar as orações pela Paz. De modo velado, hoje ele criticou a posição norte-americana, de realizar uma intervenção militar na Síria. Já há algumas semanas vem pedindo uma solução por meio do diálogo.

“O uso da violência nunca conduz à paz. Guerra chama mais guerra, violência chama mais violência”, declarou o Papa neste domingo.

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Três pontos importantes sobre a viagem do Papa Francisco ao Brasil

O pontificado do Papa Francisco pode ser dividido entre antes e depois da viagem ao Brasil. A viagem para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), entre 22 e 28 de julho, já é considerada o fato mais importante de seu pontificado até agora. Poderíamos analisar muitos aspectos dessa viagem: cada mensagem e cada discurso carregam um profundo conhecimento sobre o que é a Igreja e sobre os problemas da atualidade.

Porém, queremos destacar neste post apenas três pontos que consideramos essenciais nessa discussão. São três aspectos dessa viagem que, a nosso ver, não podem ser ignorados por ninguém que queira entender algo sobre a importância da visita do Papa ao Brasil. Dividimos em tópicos para facilitar sua leitura.

1) Um marco para o pontificado – Em sua primeira “viagem apostólica”, o primeiro Papa latino-americano viajou para o maior país da América Latina. Coincidência ou Providência Divina, a viagem já havia sido marcada pelo seu predecessor, o agora Papa Emérito Bento XVI. Enquanto esteve no Brasil Francisco teve a oportunidade de falar para diversos grupos sociais: os jovens, as autoridades políticas, os padres e bispos, os pobres, as famílias, os idosos, os artistas, os dependentes químicos…

Mais do que isso, Francisco tratou de praticamente todos os temas que a Igreja pretende apresentar à sociedade, inclusive os polêmicos. Diversas vezes pediu uma “Igreja que caminha” com as pessoas; uma Igreja que é mãe e que “abrace” os seus filhos, especialmente os que sofrem mais, numa “cultura do encontro”; pediu que a Igreja vá às periferias do mundo e aos jovens, que deixem “Cristo e sua Palavra entrarem” em suas vidas, sendo verdadeiros discípulos em missão. Disse que jovens e idosos estão condenados ao mesmo destino: a exclusão. “Não se deixem descartar”, alertou.

Não deixou de responder a perguntas de jornalistas sobre os escândalos na Cúria Romana e no banco do Vaticano (IOR), disse que a ordenação de mulheres para o sacerdócio é um “assunto encerrado” e reiterou que seu posicionamento nas questões do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo é o mesmo da Igreja. “Sou filho da Igreja”, lembrou. Ganhou as manchetes dos jornais, porém, quando disse que “Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, pra julgá-la?”. Como disse o vaticanista John Allen Jr, Francisco é provavelmente “O Papa da Misericórdia“, pois essa é a mensagem principal que deseja transmitir.

Talvez um dos discursos mais contundentes, porém, tenha sido aquele que fez aos bispos representantes da América Latina e do Caribe, quando praticamente traçou uma espécie de “plano de governo”. Disse que na América Latina “estamos muito atrasados” e apontou todos os problemas da Igreja na região – mas ao mesmo tempo falando para o mundo inteiro. Criticou os padres e bispos “de sacristia” e pediu que a Igreja vá para as ruas. “Serve uma Igreja que, na sua noite, não tenha medo de sair.”

643952_660864050607629_996257171_nFoi no Brasil que Francisco disse ao mundo com todas as palavras a que veio. Desde sua eleição, embora ele já estivesse muito ativo e muito presente na mídia internacional, havia ainda muitas dúvidas sobre seu posicionamento, sobre seu entendimento a respeito dos problemas da Igreja, sobre o que planejava fazer em seu pontificado. As revelações vinham a conta-gotas em suas homilias diárias na Casa Santa Marta, onde mora, nas audiências públicas, nas orações do Angelus… Mas quando veio ao Brasil, Francisco falou claramente e não deixou mais dúvidas a respeito do que pensa sobre os mais diversos assuntos.

2) Uma mudança de tom e de estilo, mas não de conteúdo – Também foi no Brasil que Francisco esclareceu: veio para reformar muitas coisas, principalmente as estruturas e os comportamentos que estão errados. Mas também veio para manter e fortalecer outras coisas, como os ensinamentos da Igreja e (como bom jesuíta) seu espírito missionário. Embora ele seja nitidamente diferente de seu antecessor em vários aspectos, as mensagens dos dois estão em completa sintonia.

É verdade que Francisco é mais carismático, mais próximo do povo, mais sorridente, mais simples, talvez até mais objetivo que Bento XVI. Porém, suas mensagens se baseiam na mesma compreensão de mundo, aquela da Igreja. Por exemplo, na questão sobre os homossexuais, quando declarou que eles devem ser acolhidos pela Igreja e inseridos na sociedade, está praticamente repetindo o que diz o Catecismo da Igreja Católica. Não é uma coisa nova. Mas há sim um coisa nova quando diz “Quem sou eu para julgá-los?”. Aí temos uma mudança de tom e de estilo. Temos um Papa que não se vê na posição de julgar os outros e que, em Roma, já havia dito: “também sou pecador” e “sou igual a todos vocês”.

Nesse mesmo sentido, Francisco deixou claro desde o início que pretende ser mais “colegial”, ou seja, quer dividir suas responsabilidades com os outros bispos, que trata como seus colegas – esse é um dos motivos pelos quais destaca o Papa como “bispo de Roma”. Diz-se que o Papa é o primeiro entre iguais e ao assumir isso ele está mais acessível aos outros bispos. Uma mudança no estilo de governo.

O conteúdo de seus ensinamentos, porém, está em continuidade com os antecessores. Uma forte evidência disso é o fato de que Francisco praticamente só assinou a última encíclica de Bento XVI, Lumen Fidei (Luz da Fé), dando alguns retoques. Ele quis mostrar nesse gesto que os dois estão em total sintonia. Igualmente, Bento XVI também já afirmou que teologicamente está de acordo com tudo o que diz e faz o Papa Francisco.

3) A mídia e o Papa – É curioso notar a nova relação que se estabeleceu entre o Papa e a mídia internacional. Nossos colegas jornalistas (falando de modo geral) costumam ter uma abordagem predominantemente negativa a respeito da Igreja, tratando-a como uma instituição atrasada e conservadora, retrógrada, parada na Idade Média ou algo do tipo. Porém, Francisco desde o início foi capaz de, se não mudar, pelo menos amenizar isso e a cobertura da imprensa (de novo, falando de modo geral) foi muito positiva para a Igreja.

Francisco foi quase sempre descrito como um homem inteligente, carismático, simpático, carinhoso, próximo ao povo e, acima de tudo, humilde. Francisco não é bobo, e sabe a importância de tornar públicos os gestos que fortaleçam essa imagem (lembre-se de quando ele, após sua eleição ao papado, voltou para pagar a conta no hotel onde havia ficado quando cardeal, “para dar o exemplo”). Mas ao mesmo tempo, não está fingindo e não faz isso só para agradar. Esse é o verdadeiro Francisco. Aliás, esse é o verdadeiro Jorge Mario Bergoglio, basta conversar com qualquer um que o conhecesse pessoalmente em Buenos Aires.

“Esses leões não são assim tão ferozes”, disse o Papa na viagem de ida ao Brasil, respondendo a uma jornalista que havia dito algo como “o senhor foi colocado na jaula dos leões”, referindo-se ao grupo de jornalistas que viaja junto com o Papa no avião. Naquela viagem, Francisco pediu que os jornalistas o ajudassem a levar uma mensagem de esperança ao mundo e, na volta, elogiou o trabalho deles. Os jornalistas, por sua vez, pareciam encantados com um Papa que não só deu entrevistas, como o fez por mais de uma hora e respondeu a todas as perguntas, sem fugir do tema. Além disso, o Vaticano já está bem mais treinado no relacionamento com a mídia, principalmente por meio do porta-voz, Pe. Federico Lombardi.

A viagem de Francisco ao Brasil mostrou, mais uma vez, como é cada vez mais importante que os Papas saiam do Vaticano e viajem pelo mundo. Muitas das coisas que o Papa falou no Brasil ele já havia falado em Roma – como quando disse que sem sair às ruas a Igreja vira uma ONG, por exemplo. Mas o fato de ele estar fisicamente no Brasil fez com que quase toda a mídia brasileira parasse para ouvi-lo e, consequentemente, todo o povo, até os não católicos.

A imagem do Papa Francisco ficou escancarada na imprensa por uma semana. Assim, muitas de suas mensagens que não haviam chegado ainda àquele público, por fim chegaram. É de se esperar que daqui para a frente, mesmo de volta ao Vaticano, Francisco continue chegando às casas das famílias brasileiras pelos meios de comunicação. Afinal, parece mesmo que “esses leões não são assim tão ferozes”.

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Portas abertas para João Paulo II

Imagem de João Paulo II exposta no dia da beatificação

Imagem de João Paulo II exposta no dia da beatificação, na Praça de São Pedro

A comissão de teólogos que analisa os processos de canonização da Congregação para as Causas dos Santos aprovou o segundo milagre atribuído à intercessão do Papa João Paulo II, informou hoje o site Vatican Insider E a Radio Vaticano confirmou.

De acordo com o site, o segundo milagre teria ocorrido depois da beatificação, realizada em 1º de maio de 2011 pelo Papa Bento XVI, e já havia sido aprovado por uma comissão de médicos da Congregação (relatou há algum tempo o vaticanista Andrea Tornielli).

Agora, as portas estão abertas para que os cardeais e bispos da Congregação se reúnam e decidam os próximos passos. Basicamente, é só apresentar os documentos para o Papa Francisco e sugerir uma data para a cerimônia. Em Roma, há alguns meses há rumores de que a canonização pode ocorrer em 20 de outubro, data de sua eleição ao papado.

Vatican Insider afirma que tudo vem sendo realizado com grande segredo no processo do Papa polonês, que morreu em abril de 2005. Não foram informados, portanto, detalhes sobre o novo milagre. O site se refere apenas à cura de uma mulher. O primeiro milagre foi a cura de uma freira francesa que tinha  Mal de Parkinson (mesma doença que debilitou muito João Paulo II em sua velhice). Segundo a Irmã, a doença teria desaparecido dois meses depois da morte do Papa, após uma sequência de orações para ele.

Se concretizada, a canonização ocorreria em tempo recorde: apenas oito anos depois da morte do “santo”. Desde sua morte, multidões de todo o mundo já gritavam “Santo Subito”, que em italiano quer dizer algo como “Imediatamente Santo”. João Paulo II era extremamente popular e foi Papa por 27 anos. Cerca de 1,5 milhão de pessoas compareceram à Praça de São Pedro, no Vaticano, para participar da missa de canonização.

Por enquanto, João Paulo II é considerado beato. A beatificação é um reconhecimento da Igreja de que a pessoa possui certas virtudes e pode ser oficialmente alvo de devoção e culto dos fiéis em âmbito local, ou seja, em uma determinada região do mundo. Quando a pessoa é considerada “apenas” beata (abençoada), a Igreja ainda não afirma total certeza de que essa pessoa está no céu e que pode intervir na Terra junto a Deus.

A canonização, por sua vez, é um reconhecimento quase que duplo de tais virtudes e, mais do que isso, uma declaração formal da Igreja de que certamente a pessoa canonizada é um santo. Ao canonizar alguém, a Igreja anuncia publicamente acreditar que essa pessoa está no céu, “perto de Deus”. Por isso somente o Papa pode autorizar uma canonização. Portanto, somente a canonização permite a devoção e o culto de toda a Igreja Católica diante do  santo, em todo o mundo.

A partir da canonização é permitido, por exemplo, ter imagens do novo santo em todas as igrejas do mundo que assim quiserem. Podem ser criadas capelas e paróquias dedicadas ao novo santo, conforme o desejo do povo e do bispo local, o que não é possível fazer para um beato.

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Papa Franciso

Primeira aparição pública do Papa Francisco, argentino. À direita na foto, o cardeal brasileiro Dom Cláudio Hummes, da mesma geração.

Há pouco foi eleito o primeiro Papa das Américas, Francisco, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio. Tanto a escolha do nome quanto o fato de ser o primeiro Papa jesuíta da História sinalizam que os cardeais querem mudar (ao menos em parte) os rumos da Igreja no mundo. Os jesuítas são tradicionalmente missionários, intelectuais, e próximos “do mundo”. São ativos não só na Igreja, mas também fora dela. Geralmente, os jesuítas têm uma segunda formação, além de serem sacerdotes, e são uma das congregações em que o tempo de estudos é mais longo – geralmente mais de dez anos. Segundo o perfil da Wikipedia, Bergoglio também é químico.

O nome Francisco pode se referir tanto a São Francisco de Assis, o santo da pobreza, da humildade, e também que protagonizou grandes reformas na História da Igreja, quanto a São Francisco Xavier, missionário jesuíta e muito próximo a Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus.

A grande surpresa na Praça de São Pedro quando o nome do novo Papa foi anunciado foi justamente o fato de que Bergoglio não estava entre os grandes “papáveis”. Ele esteve em 2005, quando Bento XVI (então cardeal Joseph Ratzinger) foi eleito. Mas dessa vez era praticamente ignorado pelas grandes listas divulgadas na imprensa. Também por não ser tão jovem – tem 76 anos -, leva a crer que seu papado não será dos mais longos. Esperava-se que, depois da renúncia de Bento XVI, um cardeal mais jovem fosse escolhido.

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Ainda há muito a se descobrir sobre o novo Papa. Mas alguns gestos já foram muito notáveis, como o fato de sair na sacada apenas com a veste branca, e não a vermelha, mais solene, e também o pedido de que os fiéis rezassem por ele em um momento de silêncio antes de receberem a bênção. Talvez tenha sido a primeira vez em que um Papa se curvou para as multidões (ou ao menos a primeira de que se tem notícia). E iniciou rezando com a multidão pelo Papa emérito, Bento XVI, que renunciou há cerca de um mês.

Mas aparentemente os cardeais olharam diversos outros atributos. Apenas o fato de Bergoglio ser latino-americano já é enorme. Também parece ser um homem humilde e realmente envolvido nas coisas da Igreja. E, de fato, bastante alinhado aos valores e princípios de fé da Igreja Católica.

Certamente, os cardeais foram inspirados por algo diferente da simples política eclesiástica, da qual nós, jornalistas, tanto falamos nos últimos dias. Para as pessoas que não têm fé, a eleição de Bergoglio foi o resultado de uma disputa política aparentemente sem vencedor. Para quem tem fé, pura ação desse tal de Espírito Santo.

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‘Papas não renunciaram por temerem tendência perigosa’, diz vaticanista

Filipe Domingues, especial para O Estado de S. Paulo

Andrea Tornielli, vaticanista italiano do jornal La Stampa e autor de vários livros sobre personagens do catolicismo

Andrea Tornielli, vaticanista italiano do jornal La Stampa e autor de vários livros sobre personagens do catolicismo

Bento XVI não é o primeiro papa das últimas décadas a considerar a possibilidade de renunciar, mas nenhum deles deixou o papado porque temia abrir um “perigoso precedente”, avalia o vaticanista Andrea Tornielli, que trabalha para o jornal italiano La Stampa.

Em entrevista exclusiva ao Estado, Tornielli afirma que os maiores desafios do sucessor de Bento XVI serão “falar com o mundo” e “reformar a Cúria Romana”. Leia a seguir os principais trechos da conversa, realizada no saguão da sala de imprensa do Vaticano.

Após a surpresa diante do anúncio da renúncia de Bento XVI, a grande pergunta que as pessoas passaram a fazer é: Quais motivos levaram o papa a tomar essa decisão? Ele disse mais de uma vez que foi uma conclusão pessoal. Mas, em sua opinião, a decisão foi mais política ou por motivos de saúde?

Acredito que é necessário se ater àquilo que o papa diz a respeito da sua condição física. Porém, certamente, como papa, ele precisa não somente do vigor físico, mas também do ânimo. Creio que os fatos que ocorreram nos últimos anos no Vaticano tenham um peso. Porém, acredito que é necessário olhar a coisa com um ponto de vista global. Portanto, existe essa questão do cansaço físico e existe também, creio eu, um reconhecimento de que a situação é tal que ele não se sente mais em condições de poder responder.

Bento XVI foi o primeiro Papa a renunciar em quase 600 anos

Bento XVI foi o primeiro Papa a renunciar em quase 600 anos

As mensagens do papa nos últimos dias foram muito fortes, pedindo unidade na Igreja e o fim da “hipocrisia religiosa”. Elas se referem ao contexto e aos problemas atuais da Igreja?

Eu acredito que sim. Na mensagem que transmitiu na homilia da Quaresma, ele disse que existem também os riscos, essas divisões dentro da Igreja. Portanto, isso é um tema importante para o futuro da Igreja.

Essas mensagens são destinadas a algum grupo específico, como a Cúria Romana?

Creio que não. Creio que seja para toda a Igreja. É claro que existem aqueles que fomentam as divisões, isto é, aquelas pessoas que fazem as divisões aumentarem, mas há também quem, em vez disso, procure reunir. No entanto, não há necessariamente um objetivo preciso nas mensagens. Na minha opinião, o papa fala também à Cúria Romana, que nos últimos anos não deu uma bela demonstração de unidade.

A última renúncia papal ocorreu há quase 600 anos e nos últimos pontificados outros papas quiseram renunciar, mas não o fizeram. Qual é a diferença entre aqueles momentos e a situação atual da Igreja?

Já haviam pensado sobre a renúncia Pio XII, João XXIII… Tantos pensaram sobre a renúncia por causa de questões de saúde, doenças. Paulo VI também chegou a pensar na aposentaria, por causa da idade. A única diferença agora é justamente que esses papas do passado haviam pensado sobre a renúncia, mas nunca renunciaram. Temiam abrir um perigoso precedente. Bento XVI, ao contrário, renunciou. Essa é a grande novidade histórica. A diferença é que Bento XVI renunciou. Ele teve coragem e fez tudo de forma bastante histórica.

Então Bento XVI pode ter aberto um precedente para os próximos papas?

Certamente é um grande precedente.

Qual é exatamente a relação entre o papa Bento XVI e o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano? Bertone é apontado por alguns no Vaticano como um detentor de poder paralelo, mas o papa sempre o manteve no cargo.

Mesmo com seus limites, Cardeal Bertone é homem de confiança de Bento XVI

Mesmo com seus limites, Cardeal Bertone é homem de confiança de Bento XVI

Bertone é atacado e está no centro de tantas polêmicas. Seguramente, a Cúria e a Secretaria de Estado do Vaticano sob o cardeal Bertone cometeram muitos erros. Isso tudo é verdade. Porém, o papa, no fim das contas, sempre confiou em Bertone. O cardeal sempre foi uma figura de confiança para o papa. E por isso o papa vem sempre renovando sinais de confiança, apesar dos limites de Bertone.

Quais são os desafios do próximo papa?

O maior desafio é falar com o mundo. A Igreja precisa de um papa que fale para o mundo, também para fora da Igreja, e anuncie o Evangelho como uma mensagem positiva. É a nova resposta, a nova evangelização. E, depois, uma reforma da Cúria Romana. Uma reforma séria que transforme a Cúria Romana em algo mais simples.

E sobre a questão da liturgia?

Para promover unidade na Igreja e acolher fiéis tradicionalistas, que preferem a missa antiga, em latim, Bento XVI planejava reformar aspectos da liturgia católica. A liturgia é uma das coisas que Ratzinger queria fazer. Seria a reforma da reforma. Porém, essa era uma coisa de Ratzinger. Não sei se o novo papa vai querer fazer.

Outras reformas são discutidas na Igreja, como o celibato dos padres e o sacerdócio feminino. Existirá espaço para pensar sobre isso no novo pontificado?

Eu creio que é preciso fazer uma distinção sobre os temas do celibato dos padres e o sacerdócio feminino, pois ambas as coisas são questões muito clericais, que não se referem verdadeiramente à realidade da Igreja. E, mesmo mudando as normas da Igreja – sobre o celibato dos padres é possível fazer, já sobre o sacerdócio feminino é um pouco mais difícil -, não significa que as pessoas vão voltar à missa. Não significa que as pessoas vão frequentar a missa porque o padre é casado e tem filhos. As pessoas não voltam para a Igreja porque atrás do altar tem uma mulher. As confissões cristãs que fizeram isso não mudaram em nada o problema da secularização. A Igreja Anglicana perdeu e continua perdendo fiéis. Porque isso é uma prioridade clerical, ou seja, para o clero. Hoje, é necessária uma virada não clerical. Um outro discurso, por outro lado, é o tema do cisma silencioso dos divorciados e novamente casados. Evidentemente, como já disse o papa, é preciso procurar um modo de fazer com que eles não se sintam excluídos da Igreja. É preciso pensar em como anunciar o cristianismo de maneira positiva e propositiva.

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