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Jesus e o Twitter: o que disse o cardeal Ravasi e o que virou notícia no mundo

Cardeal Ravasi

Este poderia ser apenas mais um texto factual sobre um evento do qual participei em Roma, mas sua inesperada repercussão me convenceu de que, na verdade, seria mais interessante fazer uma breve reflexão do que um relato formal.

Hoje, no Cortile dei Gentili (“Pátio dos Gentios”), um espaço de diálogo entre católicos e pessoas “não crentes”, nesta edição dedicado aos jornalistas, o Cardeal Gianfranco Ravasi afirmou que Jesus Cristo usou twits para se comunicar – uma referência à rede social Twitter, na qual as mensagens são curtas (140 caracteres é o limite máximo para cada twit). Disse o cardeal: “A primeira pregação de Jesus, segundo Mateus, no original grego, tem 45 caracteres com espaços: ‘O reino de Deus está próximo. Convertei-vos.'”

Essa declaração aparentemente banal ganhou manchetes nos sites de notícias e, obviamente, nas redes sociais. A notícia que uma grande agência de notícias francesa publicou para o mundo foi “Vaticano diz que Jesus foi o primeiro a tuitar”. Outros veículos internacionais, de várias línguas, anunciaram “Jesus foi o primeiro ‘tweeter’ da história, diz Ravasi”.

A partir dessa notícia, um evento que durou 5 horas, com três conferências e profundas reflexões sobre a fé, sobre a comunicação, sobre o que é a Verdade e a objetividade do jornalismo, sobre a busca pelo bem comum seja por ateus seja por católicos, com a presença dos diretores de todos os principais jornais da Itália, se resumiu a uma discussão pouco inteligente sobre o que passa na cabeça da Igreja Católica para dizer que Jesus foi o inventor do Twitter. Seria uma estratégia de marketing? É o Vaticano querendo se apossar do ambiente virtual, onde a liberdade total é a suprema lei?

Debate entre Gianfranco Ravasi e Eugeno Scalfari, no 'Cortile dei Gentili'

Debate entre Eugenio Scalfari e Gianfranco Ravasi, no ‘Cortile dei Gentili’

Uma série de críticas à Igreja se seguiu, especialmente por parte dos ateus e agnósticos, justo aqueles com quem a Igreja busca dialogar por meio do “Cortile”. Como ocorre frequentemente com as informações de temas religiosos (e aqui não me refiro somente à Igreja Católica), a declaração de Ravasi foi apresentada sem o contexto. Queremos rapidamente tentar mostrar que contexto é esse e por que a declaração é muito menos bombástica do que tentou-se mostrar por aí.

Durante o evento, o Cardeal Gianfranco Ravasi foi convidado a debater com o fundador do jornal La Reppublica, Eugenio Scalfari, que se autointitula “um não crente, que não procura Deus, mas é apaixonado pela figura de Jesus Cristo” – o mesmo a quem o Papa Francisco escreveu recentemente a carta intitulada “Diálogo aberto com os não crentes”. Logo no início do diálogo, o jornalista moderador Emilio Carelli lançou uma questão a Ravasi: “Vivemos num contexto de mudanças grandíssimas e no qual o modelo da comunicação foi totalmente alterado. Qual é a sua mensagem, a da Igreja, sobre a comunicação religiosa?” Pronto, temos aí um pequeno contexto. A pergunta remete à comunicação religiosa, ao novo momento das comunicações no mundo.

Respondeu o cardeal italiano: “Jesus adotou como instrumento de comunicação três percursos que são aqueles que atualmente dominam e que tornam particularmente incisiva a mensagem do Papa Francisco.” O primeiro deles, para Ravasi, seria exatamente o uso do twit. “Cristo adotou o uso do twit de maneira sistemática. Aquilo que os estudiosos chamam com um termo extremamente sofisticado, arcaico, os logia, mas que na verdade são verdadeiros caracteres essenciais.” Ele citou outros momentos em que Jesus afronta a questão moral religiosa em 145 caracteres (“Ame o Senhor teu Deus com todo o teu coração, a tua mente e a tua alma. Ame o seu próximo como a ti mesmo”) e questões de fé e política, fé e economia em 39 caracteres (“Dai a César o que é de César e dai a Deus o que é de Deus”).

E Ravasi arrematou: “Então, temos o uso sistemático da frase essencial e incisiva. E até aqui temos uma aula, também no que diz respeito aos pregadores.” Alguma dúvida de que ele se referia ao twit como uma analogia e, obviamente, não de modo explícito? Ravasi quer dizer que o modo como Jesus se comunicava é válido até hoje, especialmente para os pregadores.

E continua, com os outros dois modelos mencionados no início da fala. O segundo é a articulação do pensamento por meio de parábolas, também muito usado pelo Papa Francisco, “que é substancialmente o uso da televisão, porque é um cenário” (outra analogia ao mundo das comunicações, e nem por isso vamos colocar nos jornais que “Jesus foi o primeiro apresentador de televisão, diz Vaticano”). De acordo com o cardeal, a parábola do bom samaritano, por exemplo, apresenta diversas perspectivas de filmagem: “Nesse caso vemos ainda a capacidade incisiva, de fazer com que a complexidade do reino de Deus, quer dizer, do projeto de Deus, a visão global do ser e do existir, através de uma narração, através do símbolo, que é fundamental na nossa civilização, sobretudo na imagem.”

A terceira via é a da corporalidade, explica o presidente do Pontifício Conselho para a Cultura. “Se pegamos o Evangelho de Marcos, 43%  do ministério de Cristo é constituído da cura. Isto é, ele toca ininterruptamente os corpos. Fala com o contato dos corpos”, afirma. “Com o seu corpo, usa a saliva algumas vezes, usa as suas mãos, violando as normas hebraicas também para os leprosos. É importante para nós que queremos fazer uma comunicação religiosa de valores, etc, esse discurso sobre o método.”

Qualquer pessoa com boa vontade para entender o que o cardeal Ravasi disse não teve dificuldades. Não é preciso concordar com sua análise teórica, mas entendê-la. Ele conclui esse pensamento afirmando que “Se um pastor não se interessa por comunicação, está fora do seu próprio ministério. Não esqueçamos que Cristo, a primeira coisa que diz é ‘andai e anunciai'”.

Sobre o jornalismo – Para piorar a situação da falsa notícia, parece que não é a primeira vez que Ravasi expõe essas metáforas entre Jesus e o mundo da Comunicação. O fez em outras ocasiões, no mesmo “Cortile dei Gentili” e ninguém deu bola – porque os jornalistas não estavam lá. E é assim que uma declaração fora de contexto vira fofoca.

Mais grave ainda é o fato de que usou-se o termo “Vaticano” para se referir a um único indivíduo, o cardeal Ravasi, que embora seja presidente de uma instituição da Cúria Romana não fala em nome do Vaticano e nem de toda a Igreja. Na verdade, a rigor o “Vaticano” sequer existe. É um termo que usamos pra simplificar as coisas. O que existe são uma série de instituições da Igreja (a Cúria, a Santa Sé, a Cidade-Estado do Vaticano…) e nenhum indivíduo sozinho a representa completamente, nem mesmo o Papa.

Infelizmente o que vemos muito frequentemente é um jornalismo preguiçoso e catastrófico. Uma declaração simples, uma alegoria, um recurso retórico para explicar um determinado pensamento vira uma manchete bombástica.

Resumindo a ópera: o mundo das Comunicações vive uma crise dura e profunda. A perda de público por causa das mídias digitais provoca perda de qualidade de conteúdo porque, com receita menor, as empresas precisam reduzir custos e investir menos. Os jornalistas, cada vez mais desqualificados, são obrigados a trabalhar sem parar e a escrever sobre tudo e sobre todos, em poucos minutos. A notícia é produto. Quanto mais melhor. Mais rápido, melhor. Essa perda de qualidade agrava a perda de público da mídia tradicional. O resultado é um apelo às manchetes bombásticas na internet, que deem cliques e, portanto, anúncios publicitários por alguns minutos, gerando um pouco de receita pelo menos até a próxima “bomba” explodir.

Na segunda conferência do “Cortile”, os diretores dos maiores jornais italianos discutiram o complexo tema “As liberdades e as responsabilidades na comunicação. Objetividade e verdade – vícios e virtudes”, e o jornalista Mario Calabresi, diretor de La Stampa declarou que o maior compromisso do jornalista na atualidade deve ser com o contexto.

Parece que ele tem razão. Nossas liberdades de jornalista aumentam nossas responsabilidades. O contexto é essencial. Mas, como acabo de constatar novamente, muitas vezes nossa suposta objetividade é manipulada pelos nossos vícios, e não por nossas virtudes. E é assim que o contexto fica para trás.

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Bento XVI conclui terceiro livro ‘Jesus de Nazaré’ e pode lançar nova encíclica

O Vaticano informou na última semana que o Papa Bento XVI concluiu o terceiro volume da série Jesus de Nazaré, um sucesso de vendas em vários países. A obra é uma visão pessoal do Papa sobre a vida e os ensinamentos de Jesus.

Enquanto o primeiro volume, lançado em 2007, trata do período que vai do batismo de Jesus até o momento da chamada Transfiguração, o segundo aborda a etapa que vai da entrada de Jesus em Jerusalém até a Ressurreição, publicado no início de 2011. O terceiro, de acordo com o Vaticano, fala dos relatos sobre a infância de Jesus no Evangelho.

Aparentemente, o Papa usou o período de “férias” durante o verão europeu, quando fica morando em Castel Gandolfo e tem uma agenda menos agitada do que no Vaticano. O terceiro livro foi escrito em alemão e está sendo traduzido para outros diversos idiomas.

Agora, há muitos rumores de que Bento XVI esteja rascunhando sua quarta encíclica – as três escritas até então são Deus Caritas Est (2005), Spe salvi (2007) e Caritas in Veritate (2009). As encíclicas são cartas do Papa para toda a Igreja sobre fé e doutrina. Geralmente, apresentam determinados desafios da atualidade e o que diz o ensinamento da Igreja sobre eles.

Ainda não é certeza, mas autoridades do Vaticano já começam a falar em uma nova encíclica como hipótese bastante possível. Acredita-se que o tema a ser tratado seja algo ligado ao “Ano da Fé”, que começa em outubro de 2012 e termina em novembro de 2013 e cujo objetivo é reforçar os fundamentos da fé católica.

Não há nenhum anúncio oficial nesse sentido, mas o Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone, afirmou à imprensa que o Papa pode estar rascunhando uma nova carta encíclica.

Porém, de acordo com o site Catholic Culture, o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, havia dito em março que isso é apenas uma hipótese e que o Papa ainda não havia manifestado a ele essa ideia.

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Bispos dos EUA elogiam decisão do governo Obama sobre imigrantes

Dom José Gomez, Arcebispo de Los Angeles

Para não dizer que os bispos dos Estados Unidos só implicam com o governo do presidente Barack Obama – que vem desagradando boa parte dos católicos do país com algumas decisões que contrariam suas expectativas (entenda melhor lendo este post e também este) -, hoje saiu uma notícia que mostra sintonia entre as duas partes.

A Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB) elogiou a decisão do gabinete presidencial de proteger imigrantes ilegais com até 15 anos de idade, que serão acolhidos no país em vez de passarem por procedimentos de deportação. Autoridades executivas dos Estados Unidos passam a analisar caso a caso.

De acordo com os bispos dos EUA, em carta assinada pelo Arcebispo de Los Angeles, Dom José Gomez, presidente do Comitê de Migração da USCCB, cerca de 800 mil jovens que estão ilegalmente no país poderão receber o benefício e uma permissão de trabalho. Segundo os bispos, eles não podem ser condenados pela migração, pois na maioria das vezes entraram juntos com os pais.

“Essa ação importante vai oferecer proteção (…) para um grupo de imigrantes vulnerável, que merece permanecer no nosso país e contribuir com seus talentos às nossas comunidades”, afirmou Dom José, em nota. “Essa juventude é brilhante, energética e ansiosa por buscar sua educação e alcançar todo o seu potencial”, acrescentou. “Eles não entraram em nosso país por violação própria, mas vieram aos Estados Unidos com seus pais como filhos, algo que qualquer um de nós faria.”

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O impasse sobre ensino religioso em escolas públicas da Argentina

O bispo argentino Marcelo Colombo

Na Argentina, há um exemplo claro de como as coisas são bem mais complicadas de se resolver do que muita gente pensa. Li no site Vatican Insider, que há uma discussão envolvendo o ensino religioso em escolas públicas, um tema polêmico não só na Argentina.

Um juiz da província de Salta determinou que sejam extintas todas as práticas religiosas católicas em escolas estatais, o que despertou um intenso debate sobre o ensino religioso nessas instituições. Diante disso, bispos católicos se manifestaram sobre o problema. Mas veja a seguir como essas coisas não são só uma questão de dizer “sou a favor, vamos manter” ou “sou contra, vamos acabar”.

O juiz Marcelo Domínguez determinou que sejam eliminadas todas as práticas católicas em instituições educativas estatais, informa a agência argentina AICA, o que inclui “rezar antes de começar as aulas, agradecer pela comida, destacar os ensinamentos de Jesus, ler a Bíblia e refletir sobre as passagens lidas ou celebrar as festividades religiosas”.

Essa decisão foi uma resposta parcial a um pedido de pais de alunos, apresentado em 2010, para que se declarasse a inconstitucionalidade do ensino religioso em escolas públicas. Aí alguém pode dizer “Está certo, o Estado é laico!”. Pois é, mas a Constituição Provincial de Salta determina como obrigatório o ensino religioso nas escolas públicas (começou aí a complicação, tá vendo). Ou seja, o juiz não atendeu à ação dos pais, pois o ensino religioso é constitucional em Salta. Mas proibiu as práticas religiosas nas escolas, provavelmente com base no argumento (válido) da liberdade religiosa.

Assim, em meio a questionamentos também sobre o ensino religioso, os bispos da província se uniram para dizer que “o ensino da religião é um direito dos pais dos meninos e meninas e um dever dos estabelecimentos em função do desenvolvimento integral dos alunos”. Segundo eles, “as convicções religiosas são um fator positivo na vida pessoal e social”.

Aí alguém pode dizer “Esses bispos querem é catequizar as criancinhas com dinheiro público!”. Mas na nota eles afirmam exatamente o contrário (e complicou ainda mais): “Não pretendemos que se ensine a todas as crianças os conteúdos da religião católica, e sim que todas as crianças possam receber o ensino religioso, ou isentar-se dele, segundo a decisão de seus pais”. Em entrevista ao jornal El Tribuno, o bispo de Orano, Dom Marcelo Colombo, disse que: “Não deveríamos pensar na educação religiosa como um entrave do passado ou como uma forma de superstição ou limitação de uma pessoa, ao contrário. Toda expressão religiosa está verdadeiramente a favor de um crescimento da pessoa.”

Interessante esse posicionamento dos bispos. Mas mais interessante ainda é o fato de que, para eles, a religião é como um fator cultural que precisa ser preservado. A ideia deles é a de que “é dever da escola pública o respeito e a transmissão criativa da cultura e da identidade de um povo”.

E, vejam só, de fato a província de Salta é uma das mais católicas da Argentina – não é à toa que o ensino religioso está na Constituição. Neste texto, o colunista Fernando Galván, do Diario de la Sierra, explica a origem da cidade de Salta e sua intrínseca relação com a fé católica. Para resumir, na ata de fundação da cidade menciona-se o “reconhecimento à Palavra do Santo Evangelho e coisas de nossa santa fé católica”.

Outro exemplo dessa relação histórica é o fato de que nada menos que 162 escolas primárias públicas da província levam nomes ligados ao Catolicismo, como “Nossa Senhora da Assunção” ou “Sagrada Família”, segundo o próprio ministro da educação provincial, Roberto Dib Ashur. Tanto é que o governo apresentou um pedido ao juiz para que especifique que atividades devem ser proibidas, porque ficou meio difícil de separar as coisas.

Provavelmente, a solução neste caso será ampliar mais os temas abordados em aula, segundo o ministro, e não focar em uma só religião. “Temos que avançar numa formação de valores que não sejam catequese”, afirmou ao El Tribuno.

Deu para ver que cultura cristã-católica já faz parte da tradição desse povo, ou pelo menos da origem dele, de modo que não basta dizer que ensinar religião “está errado” e “vamos acabar logo com isso”. Parece que seria no mínimo um rompimento histórico com tradições locais. Ao mesmo tempo, as pessoas não católicas têm o direito de receber igual formação religiosa nas escolas públicas, já que a Constituição assim permite e exige. O ensino público deve atender a todos. E aí, deu para entender o que quis dizer no começo?

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