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‘Canonização de dois papas foi convite à unidade”, diz vaticanista John Allen Jr

john allenPublicamos agora aqui no blog um trecho e o link para nossa entrevista com o vaticanista John Allen Jr, que saiu no jornal O São Paulo no fim de abril, após a canonização dos papas João Paulo II e João XXIII. Segundo John Allen, do jornal Boston Globe, a decisão do papa Francisco juntar a canonização de João 23 e João Paulo 2o é um convite à unidade.

Por que o papa Francisco resolveu canonizar os dois papas juntos?

John Allen Jr. – Veja, uma coisa para nunca esquecer sobre o papa Francisco: sim, ele é um homem humilde, simples, é o papa dos pobres, mas sob tudo isso está a mente de um brilhante político jesuíta. Ele sabe que, no ambiente católico, por mais equivocado que isso seja, João 23 é visto como um herói da esquerda e João Paulo 2o é visto como um herói da direita. Então, se você canoniza um deles separadamente, corre o risco de parecer a ‘volta olímpica’ de um lado ou de outro na Igreja, em termos de debates. Mas se você coloca os dois juntos, é um claro convite à unidade. E acho que a unidade é muito importante para este Papa.

Você trabalhou como vaticanista no pontificado de João Pau- lo 2o, de 1998 a 2005. Como descreveria as mudanças pelas quais ele passou ao longo o pontificado?

John Allen Jr. – Uma das coisas que me surpreenderam foi o quão ativo ele permaneceu no seu período de declínio físico. Eu cobri viagens que ele fez em 2003 e 2004. No fim delas, eu estava exausto! Imagine esse homem! Infelizmente, nossas memórias de João Paulo 2o, neste momento, estão muito condicionadas pela forma como ele morreu. O que as pessoas lembram é aquele homem frágil, ancião, morrendo em público. Veja, as pessoas foram inspiradas por isso, se comoveram, mas isso tem um efeito distorcido porque nós esquecemos como ele começou. Se voltarmos a 1978, ele era tipo (o ator) John Wayne de batina! Era um “super-herói”, vigoroso, arrojado, atleta- -alpinista de Deus! Ele pegou omundo como uma tempestade.

Clique aqui para ler o restante da entrevista, que você encontra na página 12 da versão digital do jornal O São Paulo

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Portas abertas para João Paulo II

Imagem de João Paulo II exposta no dia da beatificação

Imagem de João Paulo II exposta no dia da beatificação, na Praça de São Pedro

A comissão de teólogos que analisa os processos de canonização da Congregação para as Causas dos Santos aprovou o segundo milagre atribuído à intercessão do Papa João Paulo II, informou hoje o site Vatican Insider E a Radio Vaticano confirmou.

De acordo com o site, o segundo milagre teria ocorrido depois da beatificação, realizada em 1º de maio de 2011 pelo Papa Bento XVI, e já havia sido aprovado por uma comissão de médicos da Congregação (relatou há algum tempo o vaticanista Andrea Tornielli).

Agora, as portas estão abertas para que os cardeais e bispos da Congregação se reúnam e decidam os próximos passos. Basicamente, é só apresentar os documentos para o Papa Francisco e sugerir uma data para a cerimônia. Em Roma, há alguns meses há rumores de que a canonização pode ocorrer em 20 de outubro, data de sua eleição ao papado.

Vatican Insider afirma que tudo vem sendo realizado com grande segredo no processo do Papa polonês, que morreu em abril de 2005. Não foram informados, portanto, detalhes sobre o novo milagre. O site se refere apenas à cura de uma mulher. O primeiro milagre foi a cura de uma freira francesa que tinha  Mal de Parkinson (mesma doença que debilitou muito João Paulo II em sua velhice). Segundo a Irmã, a doença teria desaparecido dois meses depois da morte do Papa, após uma sequência de orações para ele.

Se concretizada, a canonização ocorreria em tempo recorde: apenas oito anos depois da morte do “santo”. Desde sua morte, multidões de todo o mundo já gritavam “Santo Subito”, que em italiano quer dizer algo como “Imediatamente Santo”. João Paulo II era extremamente popular e foi Papa por 27 anos. Cerca de 1,5 milhão de pessoas compareceram à Praça de São Pedro, no Vaticano, para participar da missa de canonização.

Por enquanto, João Paulo II é considerado beato. A beatificação é um reconhecimento da Igreja de que a pessoa possui certas virtudes e pode ser oficialmente alvo de devoção e culto dos fiéis em âmbito local, ou seja, em uma determinada região do mundo. Quando a pessoa é considerada “apenas” beata (abençoada), a Igreja ainda não afirma total certeza de que essa pessoa está no céu e que pode intervir na Terra junto a Deus.

A canonização, por sua vez, é um reconhecimento quase que duplo de tais virtudes e, mais do que isso, uma declaração formal da Igreja de que certamente a pessoa canonizada é um santo. Ao canonizar alguém, a Igreja anuncia publicamente acreditar que essa pessoa está no céu, “perto de Deus”. Por isso somente o Papa pode autorizar uma canonização. Portanto, somente a canonização permite a devoção e o culto de toda a Igreja Católica diante do  santo, em todo o mundo.

A partir da canonização é permitido, por exemplo, ter imagens do novo santo em todas as igrejas do mundo que assim quiserem. Podem ser criadas capelas e paróquias dedicadas ao novo santo, conforme o desejo do povo e do bispo local, o que não é possível fazer para um beato.

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O que a morte do Cardeal Martini representa para a Igreja Católica

Cardeal Carlo Maria Martini

Cerca de 200 mil pessoas peregrinaram até Milão para o funeral do Cardeal Carlo Maria Martini, que morreu na última sexta-feira, 31 de agosto, aos 85 anos.

Muito popular, Martini foi Arcebispo de Milão e chegou a ser cotado para o papado em 2005. Era conhecido como uma figura que frequentemente fazia autocríticas à Igreja, pedindo grandes mudanças (muitos gostam de definir esse perfil como “progressista”, mas este blog procura evitar rótulos do tipo, pois acredita que eles escondem mais do que revelam).

Martini era muito amigo do Papa João Paulo II, por quem foi nomeado Arcebispo de Milão, maior e uma das mais importantes arquidioceses do mundo. Porém, frequentemente criticava o posicionamento da Igreja sobre questões morais, inclusive junto ao Papa. Na época do conclave, se Joseph Ratzinger estava de um lado da moeda, Carlo Martini estava do outro, de modo que a escolha de um representava a alternativa contrária ao que o outro simbolizava.

Ao longo de sua vida, o cardeal jesuíta e biblista quis discutir novamente o celibato dos sacerdotes, a ordenação de mulheres ao diaconato e o uso de preservativos, por exemplo.  Diz-se que o Cardeal Martini sonhava com um Concílio Vaticano III, considerando que o Concílio Vaticano II já estava ultrapassado. Ele queria um novo “aggiornamento” (atualização) da Igreja.

Com Bento XVI

De fato, nesta entrevista, concedida no início de agosto para ser publicada após sua morte, reiterou alguns posicionamentos. “A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes, as nossas casas religiosas estão vazias, e o aparato burocrático da Igreja aumenta, os nossos ritos e os nossos hábitos são pomposos. Essas coisas expressam o que nós somos hoje?”, questionou. Disse, ainda, que a Igreja retrocedeu 200 anos.

Mesmo fazendo suas críticas, Martini foi muito admirado, inclusive pelos que dele discordaram. Observadores do Vaticano costumam dizer que João Paulo II ficava balançado com suas declarações, mas nunca se arrependeu de tê-lo nomeado para um cargo tão importante.

Bento XVI, por sua vez, após a morte de Martini disse que o cardeal era “um homem de Deus”, cujos atos e pensamentos foram “nutridos por um intenso amor à Palavra de Deus”. Afirmou, ainda, que Martini era um homem de coração aberto e que nunca se recusou a se encontrar e a dialogar com alguém.

Então o que representa a morte do Cardeal Martini? Para os católicos mais tradicionalistas, provavelmente um alívio, pois poucas pessoas na Igreja têm a mesma coragem de Martini para fazer autocríticas. Para os seus admiradores, uma perda sem tamanho, pois será difícil encontrar outro sacerdote dessa linha de pensamento que chegue a um cargo tão alto e possa ser ouvido com tanta atenção quanto Martini foi ouvido. Para a Igreja, de um modo geral, o que fica evidente é que, com a morte de Martini, o diálogo entre as diferentes vertentes dentro da Igreja se enfraquece e perde um de seus ícones.

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Um sinal de alerta dos bispos da Amazônia para todo o Brasil

É um desafio lidar com a riqueza da Amazônia. Cultural, ambiental e social. Não se sabe direito como preservá-la sem colocá-la à margem do desenvolvimento. Entre os importantes agentes presentes na Amazônia, refletindo sobre essa questão e participando lá dentro, está a Igreja Católica.

Na semana passada, um grupo de bispos da região da Amazônia se reuniu para discutir justamente essa atuação, que se dá por meio de missões, projetos pastorais e sociais. Liderados pelo Cardeal Dom Cláudio Hummes, arcebispo brasileiro de maior destaque em âmbitos nacional e internacional (que já trabalhou no Vaticano e hoje se encarrega dos pobres da Amazônia), refletiram sobre conclusões tomadas pela própria Igreja 40 anos atrás – na cidade de Santarém, entre 24 a 30 de maio de 1972, foram estabelecidas as diretrizes para a Igreja na Amazônia. E daí saiu o “Documento de Santarém”, um marco para a religião católica no país.

Dom Cláudio Hummes é presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia

Neste novo encontro, que terminou em 7 de julho de 2012, publicaram uma carta assinada pelos bispos novamente em Santarém. O conteúdo da Carta dos Bispos ao Povo de Deus na Amazônia é, na verdade, de interesse de todos os brasileiros. Vejamos a seguir alguns elementos apresentados por ela, que passou batida na imprensa.

No texto, os bispos constatam novamente o grande sofrimento dos povos da Amazônia. E aí está a maior crítica da carta.

Eles atribuem isso principalmente ao fato de que, apesar de alguns avanços, a região ainda está à margem do restante do país. A Amazônia, dizem eles, ainda é vista como uma colônia: como há 40 anos, “é apenas ‘província’, primeiro província madeireira e mineradora, depois a última fronteira agrícola no intuito de expandir o agronegócio até os confins deste delicado e complexo ecossistema, único em todo o planeta.”

Mais do que isso, analisam os bispos, as decisões sobre a Amazônia são sempre tomadas de fora para dentro, sem a participação dos povos locais (ribeirinhos, seringueiros, quilombolas, indígenas).

Rio Xingu, onde se constrói a controversa Usina de Belo Monte

A Amazônia é vista por governos e empresas como uma província também “energética”, dado seu enorme potencial hidrelétrico, que, na avaliação dos bispos, coloca em risco os povos da região.

“Sob a alegação de gerar energia limpa se esconde a verdade de que mais florestas sucumbirão, mais áreas, inclusive urbanas, serão inundadas, milhares de famílias serão expulsas de suas terras ancestrais, mais aldeias indígenas diretamente afetadas”, afirmam. Nesta declaração, está implícita uma crítica à Usina de Belo Monte, que vem sendo construída no Rio Xingu, no Pará, à revelia de grande parte da população local.

Citando o Papa João Paulo II, os bispos da Amazônia observam que o agravamento da devastação e da miséria gera “ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres”. Segundo eles, quem se opõe às decisões tomadas pelos governos e empresas costuma ser visto como “inimigo”. “Somado a estes desafios nos deparamos com a emergência do fenômeno urbano, com o inchaço nas periferias das grandes cidade, exploração sexual, tráfico de pessoas e de drogas, violência”, acrescentam.

Sobre a ação pastoral da própria Igreja na Amazônia, os bispos destacam três pontos principais (sempre à luz do Documento de Santarém).

O primeiro é a falta de padres, maior problema da Igreja Católica na região. E, mesmo para os poucos que existem, a formação é considerada precária. Também os leigos carecem de formação.

O segundo, por outro lado, destaca o valor das chamadas “Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)“, vistas como uma grande riqueza – elas visam, por exemplo, a reunir uma determinada comunidade em torno da leitura da Bíblia e da avaliação da realidade local.

O terceiro, por fim, é a questão indígena. Diz o texto que, não fosse a intervenção da Igreja, muitos povos indígenas teriam desaparecido. “A presença solidária e o apoio incondicional à luta por seus direitos foi fundamental para que hoje a maioria dos povos indígenas da região tenha suas terras demarcadas.”

Alguém pode perguntar: “Mas o que têm esses bispos a ver com tudo isso?”. Eles mesmos, na carta, adiantam que “como 40 anos atrás, também hoje os bispos se entendem como mensageiros dos povos da Amazônia”. Sua mensagem é relevante, portanto, porque “nestes nossos tempos, as feridas se tornaram chagas abertas que perpassam e sangram a Amazônia de fora a fora, causando cada dia mais vítimas fatais”, afirmam.

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A queda do número de católicos no Brasil e a tal ‘nova evangelização’

O noticiário destacou hoje a queda do número de brasileiros que se declaram católicos, de acordo com dados do Censo de 2010, realizado pelo Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em dez anos, a proporção de católicos no Brasil caiu de 73,6% da população para 64,6%. Enquanto isso, cresce o número de evangélicos, que cada vez mais se espalham por diferentes e novas igrejas.

Não há como negar que a queda é expressiva. E a primeira questão que se levanta é, por que isso acontece? Alguns atribuem  o fato à lentidão da Igreja Católica em aceitar as mudanças do mundo, especialmente no que diz respeito às questões sexuais, reprodutivas e familiares.

Outros dizem que não é isso o que afasta as pessoas da Igreja e de Deus, mas sim uma questão social e cultural, pois a religião como um todo está perdendo espaço na vida das pessoas para outras atividades com as quais passaram a ocupar mais tempo e a dar mais importância, como o trabalho, o estudo, o lazer, etc. Sendo assim, não só o catolicismo seria afetado, mas também outras religiões. Em outras palavras, no mundo atual, muitas vezes as pessoas sentem menos necessidade da religião.

A resposta oficial da Igreja no Brasil aos dados do IBGE foi dada hoje pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Declarou que, embora o número de pessoas que se dizem católicas tenha caído, cresce o número de padres e paróquias, o que, em sua visão, mostra que a Igreja está “viva” no país – que é o mais católico do mundo e cuja população é predominantemente católica.

Vale recordar os dados globais, que foram divulgados no Anuário Pontifício de 2012 – sobre o qual fizemos uma breve análise neste blog. Naquela ocasião, percebemos que, globalmente, o número de católicos cresce proporcionalmente ao aumento da população global. Ou seja, numericamente, estão elas por elas.

Porém, a Igreja está no mínimo atenta a essas mudanças. Quando esteve no Brasil, em 2007, o Papa Bento XVI afirmou na sessão inaugural da V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe (Celam): “Observa-se uma certa debilitação da vida cristã no conjunto da sociedade e da própria pertença à Igreja Católica devido ao secularismo, hedonismo, indiferentismo e proselitismo de numerosas seitas, de religiões animistas e de novas expressões pseudo-religiosas.”

Bento XVI com bispos em Aparecida (SP)

Não é à toa a iniciativa de Bento XVI de promover um processo de “nova evangelização“, defendido já por João Paulo II. Segundo Bento XVI, é preciso mudar a forma de transmitir a mensagem deixada por Jesus Cristo, levando-a a novos lugares e retomando-a firmemente em regiões onde ela está se perdendo. Nos países desenvolvidos, avalia o Papa, “o bem-estar econômico e o consumismo, embora misturado com tremendas situações de pobreza e de miséria, inspiram e permitem viver ‘como se Deus não existisse'”.

O documento preparatório para o Sínodo dos Bispos, quando se discutirá a “nova evangelização”, em outubro de 2012, reconhece a necessidade de que a Igreja “recomece sempre por se evangelizar a si mesma”. Diz ainda: “Nova evangelização significa dar resposta adequada aos sinais dos tempos, às necessidades dos homens e dos povos de hoje, aos novos cenários que mostram a cultura por meio da qual exprimimos a nossa identidade e procuramos o sentido da nossa existência“.

Os números divulgados hoje pelo Censo não são, portanto, nenhuma surpresa para a Igreja Católica. Mas chamam a atenção porque colocam a olhos vistos o que já era sabido: que, se o objetivo é disseminar uma determinada mensagem, os métodos usados atualmente não estão sendo suficientes.

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O segundo Papa a visitar Cuba busca as mesmas coisas que o primeiro

Bento XVI é recebido pelo presidente Raúl Castro na chegada a Cuba

Quando o Papa João Paulo II visitou Cuba, em janeiro de 1998, pediu que a ilha se abrisse para o mundo e que o mundo se aproximasse da ilha.

Condenou o embargo comercial dos Estados Unidos contra Cuba e seus efeitos adversos sobre os mais pobres. Em âmbito religioso, ajudou os cubanos católicos a fortalecerem sua fé. Agora, mais de 14 anos depois, um Papa volta a Cuba e o que busca? Nada mais do que maior liberdade para o povo cubano, abertura comercial e reafirmação da fé no país, que oficialmente permanece ateu.

Naturalmente, a visita de João Paulo II teve um impacto muito maior do que a de Bento XVI (que chegou hoje a Cuba, onde ficará por três dias). O Papa Wojtyła foi o primeiro a pisar em solo cubano, país que se fechou para as religiões desde a revolução socialista de 1959. Convidando o Papa, Fidel Castro, então presidente cubano, procurou sinalizar uma abertura um pouco maior para as coisas que vinham de fora. E, no âmbito religioso, foi um passo sem igual para as liberdades individuais. Hoje, em Cuba, é permitido ter uma religião (a santería, de origem africana, também é muito forte).

Fidel Castro e João Paulo II, em 1998

Mas Bento XVI chega em momento igualmente delicado. Fidel Castro já não é mais o presidente e passou o bastão para o irmão, Raúl Castro, que desde sua posse, em 2008, vem realizando reformas graduais, permitindo uma lenta e controlada – mas importante – abertura da empobrecida ilha em termos econômicos e políticos. Para Raúl Castro, a Igreja pode ser um bom meio de trazer investimentos estrangeiros para o país. E, para a Igreja Católica, uma boa relação com Cuba permitirá a abertura de mais escolas, centros culturais católicos, igrejas e seminários.

Quando entrou no avião rumo ao México (por onde passou antes), Bento XVI afirmou estar “convencido de que, neste momento de particular importância para a História, Cuba já está olhando para o futuro”. Chegando à ilha, o Papa Ratzinger disse que aquela visita de João Paulo II foi um sopro de “ar fresco”, que deu novas forças à Igreja em Cuba, criando uma nova relação entre Igreja e Estado, um “novo espírito de cooperação e confiança”.

O cardeal cubano Jaime Ortega

Embora essa relação seja bastante diplomática e aparentemente amigável, o Papa faz duras críticas ao modelo cubano. Bento XVI declarou que “não podemos mais continuar na mesma direção cultural e moral que causou a dolorosa situação com que muitos sofrem. O progresso verdadeiro tem necessidade de uma ética que coloque no centro o ser humano e leve em conta suas exigências mais autênticas”. E, durante a viagem ao México, já havia adiantado: “Está evidente que a ideologia marxista como foi concebida já não corresponde à realidade.” A ideia, portanto, é continuar pressionando o governo.

Assim como no México, Bento XVI quer reconstituir as bases da Igreja em Cuba. Estima-se que, dos 11,2 milhões de cubanos, 60% sejam batizados. Mas menos de 500 mil vivenciam o catolicismo frequentando missas, por exemplo. Por outro lado, a Igreja Católica se fortaleceu nos últimos anos, liderada regionalmente pelo Cardeal Jaime Ortega, no governo de Raúl Castro. Ortega tem sido um dos principais mediadores entre a oposição ao regime e o governo. Foi por meio dele que 130 prisioneiros dissidentes foram libertados, dois anos atrás.

Há uma expectativa muito grande para a visita de Bento XVI, justamente porque a de João Paulo II foi um marco relevante para o povo cubano. Os críticos da Igreja no país dizem que a atuação política dos católicos em Cuba ainda é fraca demais e pouco incisiva.

Mas, aparentemente, a Igreja teme elevar demais o tom e perder o que já foi conquistado. Lembremos o que disse Bento XVI, quando criticava o marxismo: “Temos de encontrar novos modelos, com paciência e de forma construtiva.”

Atualizado em 27/03/2012, às 7h41

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