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Aprendendo a jogar: o novo estilo de Francisco e o Magistério da Igreja

Pe. Federico Lombardi

Quando o Vaticano volta atrás em alguma decisão, é sinal de que temos um bom motivo para refletir. Na última semana, a Santa Sé decidiu apagar de seu site (www.vatican.va) o texto da entrevista concedida pelo Papa Francisco ao jornalista italiano Eugenio Scalfari, publicada originalmente no diário La Repubblica, do qual Scalfari é fundador. Conforme explicou o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, embora a entrevista corresponda ao pensamento do Papa de modo geral, a forma como foi redigida em certos pontos não é totalmente precisa e fiel àquela pronunciada pelo pontífice.

“Retirando-a (do site do Vaticano) fez-se um ajuste a respeito da natureza daquele texto. Havia certos equívocos e debates sobre o seu valor. A decisão foi da Secretaria de Estado”, justificou o Pe. Lombardi à imprensa. De fato, o jornalista Scalfari, de 89 anos, admitiu que não usou gravador durante o bate-papo que teve com Papa Francisco. Antes que venham as críticas ao seu método de trabalho, ele pediu permissão para publicá-la, alertando o pontífice: “Tenha em mente que eu não incluí algumas das coisas que você me disse. E que algumas das coisas que eu atribuo a você, você não disse.” Por meio do secretário pessoal do Papa, Monsenhor Alfred Xuereb, a entrevista foi aprovada assim mesmo.

Sobre o método jornalístico – É verdade que atualmente entrevistar uma pessoa por horas sem gravá-la é algo praticamente impensável para a maioria dos jornalistas, especialmente quando se trata de uma autoridade como o Papa. A gravação garante a fidelidade do texto ao que foi dito pelo entrevistado e, além disso, dá grande segurança ao jornalista: muitas vezes o entrevistado pode questionar algo que foi publicado dizendo posteriormente “Eu não afirmei isso”. Com a fita da gravação, o jornalista pode comprovar a veracidade do relato.

O jornalista Eugenio Scalfari

Porém, é comum entre jornalistas da “velha guarda”, como Scalfari, não gravar, não anotar nada enquanto se entrevista. É um método antigo, que funcionou e ainda funciona para muitos jornalistas. Esses profissionais estão mais atentos ao pensamento geral do entrevistado, ao contexto, à troca de ideias, e quase sempre creem que a formalização da entrevista com um gravador e um bloco de notas leva a uma prejudicial perda de espontaneidade da pessoa entrevistada.

O que realmente importa – Por isso, mais do que questionar os métodos de Scalfari, queremos nos concentrar na mudança de comportamento por parte da Igreja diante da entrevista. O texto foi reproduzido pelo jornal oficial L’Osservatore Romano e no site da Santa Sé. Mas o que quis dizer o Pe. Lombardi quando afirmou que, ao deletá-lo, houve um “ajuste a respeito da natureza” daquele texto? Essa é a grande questão sobre a qual devemos refletir.

A rigor, tudo o que um Papa diz e faz publicamente durante o exercício de seu pontificado é admitido como parte do ensinamento da Igreja, isto é, parte do chamado “Magistério da Igreja”, que é a função específica das autoridades eclesiásticas de interpretar o Evangelho e ensiná-lo às outras pessoas. Uma homilia, um pronunciamento, uma carta, qualquer tipo de manifestação pública do Papa, a rigor, seria Magistério.

Porém, existe uma certa hierarquia de importância até mesmo para esses pronunciamentos (uma carta encíclica de um Papa tem um peso absolutamente maior do que uma homilia pronunciada informalmente, por exemplo). Simplificando uma coisa complexa: a Igreja entende que o Magistério “ordinário”, aquele exercido no dia-a-dia pelos bispos, não é imune a erros – exceto se os bispos se reúnem, inclusive com o bispo de Roma (o Papa), para discernir de forma colegial sobre algum tema de fé e moral. Já o Magistério “extraordinário”, exercido por todos bispos em um concílio para discernir sobre alguma questão profunda de fé e moral, sobre dogmas, é entendido pela Igreja como infalível – pois o resultado da reunião é uma inspiração divina.

Portanto, a rigor, uma entrevista do Papa também poderia ser entendida como Magistério (ordinário, no caso). A publicação no site oficial do Vaticano seria a oficialização desse raciocínio. Seria, então, uma nova forma de ensinar “inventada” pelo Papa Francisco? Um simples bate-papo com um jornalista seria igualmente considerado parte do Magistério da Igreja? Qual é o valor pastoral de uma conversa privada desse tipo que foi tornada pública, redigida por um terceiro que se diz ateu e publicada por um jornal não católico?

Esse é o ponto. Retirando do site do Vaticano a entrevista do Papa a Scalfari a Igreja estabelece um limite. Não há um consenso de que um pronunciamento em uma entrevista desse tipo, ainda que público, seja Magistério. Aliás, a Igreja parece sinalizar que não é. Teria Francisco falado como Papa, pontífice máximo e sucessor do apóstolo Pedro, ou simplesmente como Jorge Mario Bergoglio? Até que ponto podemos separar Bergoglio e Francisco? Poderiam seus pensamentos explicitados naquela entrevista ser questionados pelos outros católicos ou não?

A “desoficialização” da entrevista mostra que, além das imprecisões no texto, naquele momento Francisco era mais Bergoglio que Papa. Isso não invalida o valor do que foi dito, mas, enfim, esclarece qual é a “natureza” daquele texto.

Para ficar ainda mais claro esse ponto: vale lembrar que quando Bento XVI publicou a série de livros sobre a vida de Jesus Cristo deixou claro que não eram documentos do Magistério, mas sim uma visão pessoal, um entre tantos modos de interpretar a vida e o valor da mensagem de Jesus para a humanidade. Ali quem fala é o teólogo Joseph Ratzinger, e não o Papa Bento XVI.

Com um Papa tão midiático quanto Francisco, cujas mensagens estão chegando aos confins da Terra – ele é a pessoa de quem mais se fala na internet -, as regras do jogo mudaram. Francisco é um Papa que dá entrevistas com certa frequência, faz homilias diárias de forma espontânea e telefona pessoalmente para as pessoas.

Assim, a Igreja está buscando entender quais são as regras do novo jogo. Está aprendendo a usar positivamente a mídia para transmitir as mensagens de amor apresentadas pelo Papa, mas sem esfarelar o conceito de “Magistério da Igreja”. Para isso, a Igreja está aprendendo a voltar atrás, quando necessário. Aprendendo a jogar.

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O drama da PUC do Peru

O reitor Rubio e o cardeal Cipriani

Em Lima, há um duro impasse sobre a  Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP) que muito deveria interessar às PUCs do Brasil, ou a quem estuda ou trabalha nelas. Explico: Em muitos países do mundo existem as “Pontifícias Universidades Católicas”, as chamadas PUCs, que são universidades vinculadas à Igreja. A PUC de São Paulo, por exemplo, tem como mantenedora a Fundação São Paulo, que existe desde 1945 e, por sua vez, é presidida pelo Arcebispo Metropolitano de São Paulo, atualmente o cardeal Dom Odilo Scherer.

Porém, as PUCs costumam ser instituições independentes. É a tão defendida autonomia universitária. Quem estuda numa PUC certamente quase nunca (ou nunca) vê o bispo responsável por ela. As universidades têm um reitor para administrá-las, têm assembleias, conselhos, burocracias, eleições, tudo conforme as normas dos estatutos, que variam de caso a caso e conforme as leis de cada país. Não dá para saber exatamente em que medida a Igreja interfere nas decisões das PUCs, nas linhas de pesquisas, na conduta dos professores. Tudo isso varia.

Voltando a Lima, a PUC do Peru tem como “Grão-Chanceler” o cardeal Arcebispo Dom  Juan Luis Cipriani Thorne. O reitor é Marcial Rubio. Acontece que, de uns tempos para cá, Cipriani percebeu que muitos professores e alunos começaram a se desviar ideologicamente das posições defendidas pela Igreja. Não gosto de usar expressões como “progressista” e “conservador” porque elas simplificam demais a realidade, então digamos que Cipriani defende posições mais tradicionais, enquanto que grande parte dos alunos e funcionários da PUCP não liga para o “Pontifícia” nem para o “Católica” que a universidade leva em seu nome.

Cipriani quer o direito de escolher o reitor da PUCP entre três nomes definidos em assembleia universitária, conforme lhe garante o Direito Canônico (conjunto de leis que regem o funcionamento da Igreja Católica Apostólica Romana). Mas, atualmente, a assembleia da PUCP é quem elege o reitor, conforme lhe garante a lei peruana. Para que ocorra a mudança, é preciso alterar os estatutos da PUCP – o que o reitor e os alunos não querem, pois dizem que perderiam a autonomia universitária.

Moral da história: o caso foi parar no Vaticano. O reitor Rubio disse ao jornal El Comercio que Cipriani “quer se apoderar dos bens da universidade”. Cipriani diz que “é preciso estender pontes, buscar o bem“, e acredita que a mudança nos estatutos seria melhor para todos. A universidade foi inspecionada e Rubio foi convocado ao Vaticano para dar explicações.

A Santa Sé pediu as mudanças nos estatutos o quanto antes. Como se trata de uma universidade católica privada, Cipriani teria o direito de escolher o reitor e quem está do seu lado argumenta que os tratados do Peru com o Vaticano sustentam isso. Mas os que se opõem a Cipriani dizem que os tratados incluem “o respeito às leis peruanas”, de modo que os estatutos têm de ficar como estão. Esse pessoal afirma que a PUCP pode até se declarar independente e se isolar da Igreja. Porém, a Igreja tem também o direito sobre os bens da PUCP, fundada por ela.

Ainda não há uma solução para o caso. Continuaremos acompanhando. A complexidade dessa questão está no fato de que a autonomia universitária é necessária, mas ao mesmo tempo está claro que muitas PUCs se desviaram daquela função que lhes foi atribuída no começo, pois são católicas só no nome.

Se as PUCs não forem analisadas com calma ao longo do tempo, um conflito mais árduo pode ser travado de forma brusca, a qualquer momento.

Leia também: PUC do Peru busca acordo de última hora para manter título de “Pontifícia”

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