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Um debate sobre as mulheres na Igreja

2013-12-18 18.33.37O grande passo para que as mulheres voltassem a ser lembradas pela Igreja Católica foi dado no Concílio Vaticano II e de lá para cá muita coisa mudou, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Foi mais ou menos esse o tom do debate sobre o tema “A força da mulher” realizado ontem na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, por ocasião do lançamento do documentário Maria di Magdala: Le donne nella Chiesa (“Maria Madalena: As mulheres na Igreja”), dirigido e produzido pela espanhola Maite Carpio, a ser exibido pela TV italiana Rai 3 em 28 de dezembro no programa La Grande Storia.

As mães do Concílio –  “O Vaticano II foi um germe para mudanças notáveis. Foi a primeira vez que mulheres participaram de um concílio”, recordou a teóloga Marinella Perroni, doutora em Teologia e Filosofia e professora de Novo Testamento no Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma. Convocado em 1962 pelo Papa João XXIII, o Concílio Vaticano II foi a última grande reforma da Igreja Católica, desde aspectos práticos e pastorais até a liturgia e o modo de pensar a própria Igreja.

Mulheres do Vaticano II

A professora Marinella, uma das entrevistadas do documentário, se refere às chamadas “mães do Concílio”, um grupo de 23 mulheres (13 leigas e 10 religiosas) que participaram como observadoras do grande encontro que reuniu 2.500 bispos do mundo inteiro para repensar a Igreja.  Elas chegaram muito tempo depois que o Concílio havia começado, apenas quando o então cardeal Arcebispo de Bruxelas, Dom Léon-Joseph Suenens, teria dito aos seus companheiros padres do concílio: “Caros irmãos, olhem para os lados… onde está a outra metade da Igreja?” Foi somente em setembro de 1964, sob o Papa Paulo VI, que a primeira mulher entrou numa sala conciliar.

Conforme o documentário, 60% dos fiéis que se dizem católicos atualmente são mulheres. Mas só depois do Vaticano II  as mulheres passaram a ser admitidas nas faculdades de Teologia, por exemplo. “Não nos faltou nos últimos 50 anos uma contribuição forte de teologia das mulheres, isto é, a participação da mulher na interpretação e no crescimento teológico”, afirmou Marinella. “Alegra-me recordar que estamos em um caminho de crescimento.” Numa fala bastante crítica, mas otimista, ela recordou a argentina Margarita Moyano Llerena, então presidente da Federação Mundial da Juventude Católica Feminina e uma das mulheres que participaram do Concílio, que teria dito: “As mulheres em Roma chegam só no fim, mas, no fim, chegam.”

Últimos dois Papas – O padre Federico Lombardi, atual porta-voz do Vaticano e que trabalhou como consultor na preparação do documentário Maria di Magdala observou que o aumento da participação das mulheres nas decisões da Igreja é algo que vem sendo preparado e defendido pelos últimos dois Papas, Bento XVI e Francisco, com os quais ele vem trabalhando nos últimos anos.

Para ilustrar esse ponto de vista, o padre jesuíta recordou a entrevista de Bento XVI a uma TV alemã em 2006, quando disse: “As próprias mulheres, com a sua motivação e força, com a sua por assim dizer preponderância e o seu ‘poder espiritual’, saberão encontrar o próprio espaço. E nós (homens) deveríamos procurar colocar-nos à escuta de Deus, para não nos opormos a Ele; ao contrário, fazemos votos por que o elemento feminino obtenha na Igreja o lugar ativo que lhe é próprio, a começar pela Mãe de Deus e por Maria Madalena.”

Da parte do Papa Francisco, Lombardi admitiu que ainda “não entendeu perfeitamente” o que ele quis dizer na entrevista coletiva concedida aos jornalistas que estavam no avião durante a viagem de volta do Rio de Janeiro a Roma, em julho.  Na ocasião, declarou Francisco: “O papel da mulher na Igreja não deve circunscrever-se a ser mãe, trabalhadora… Limitá-la não! É outra coisa!”

O Papa lembrou as mulheres do Paraguai, que depois da guerra (1864-1870) tiveram de reconstruir o país mantendo a cultura local e acrescentou: “Na Igreja, temos de pensar a mulher sob essa perspectiva de escolhas arriscadas, mas como mulheres. Isso deve ser explicitado melhor. Eu acho que ainda não se fez uma profunda teologia da mulher na Igreja. Limitamo-nos a dizer que pode fazer isto, pode fazer aquilo, agora faz a coroinha, depois faz a Leitura, é a presidente da Caritas… Mas, há muito mais! É necessário fazer uma profunda teologia da mulher.” Segundo o  porta-voz do Vaticano, “os dois últimos papas têm uma perspectiva muito aberta sobre a realidade da mulher na Igreja. Muito foi feito, mas é necessário entender que ainda há muito a avançar”.

Apóstola dos apóstolos – De acordo com o presidente do Pontifício Conselho da Família, o arcebispo Dom Vincenzo Paglia, não é possível aprofundar uma “teologia da mulher” sem recordar o papel essencial das mulheres na História da Igreja. “Quando se lê a História com profundidade, encontramos algumas mulheres com um papel evidente, mas outras serão descobertas. As mulheres são parte determinante”, defendeu, destacando a história das ordens religiosas femininas. “Houve uma abadessa que tinha poder sobre os padres, mais do que o bispo. A história do monasticismo é exemplar.”

Dom Paglia, um dos entrevistados para o documentário, acredita que a força da mulher na Igreja precise ser redescoberta pelos homens, de modo que elas assumam funções mais decisivas, inclusive na administração eclesiástica. “Não há dúvidas de que seja necessária uma presença maior da mulher nas cúrias, não só na romana.” Porém, ele alerta: é indispensável não perder “a visão do mistério de Deus” ao afrontar o problema. “O poder na Igreja não é parlamentar, econômico, militar… é um poder diferente.” Referindo-se a Maria Madalena, primeira pessoa que encontrou Jesus após a ressurreição, segundo o relato bíblico, e que dá nome ao documentário, disse Dom Paglia: “Devemos redescobrir o significado de Maria Madalena; o que queremos dizer quando a chamamos ‘a apóstola dos apóstolos‘.”

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Rio+20: o que têm a Igreja e os direitos reprodutivos da mulher a ver com isso

Já havíamos adiantado neste post um pouco do que seria a atuação da Santa Sé na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. Mas o noticiário chamou a atenção para o fato de que o Vaticano pressionou o Brasil, que preside a Conferência, contra a inclusão no texto final de que os países se comprometeriam com a garantia dos “direitos de sexualidade e reprodução” da mulher. No lugar, entrou “serviços de saúde” da mulher.

A primeira coisa a se entender aí é o que tem a saúde da mulher a ver com o meio ambiente. Pois bem, muitos ambientalistas afirmam que as mulheres são as pessoas mais prejudicadas nos ambientes de extrema pobreza. Em muitos lugares onde a degradação ambiental é resultado da pobreza, como numa favela, por exemplo, as mulheres são as principais responsáveis por manter e cuidar das famílias. Às vezes têm muitos filhos e uma vida sexual descontrolada. Se a degradação ambiental agrava a pobreza, portanto, as mulheres são uma parcela da população mundial significativamente prejudicada.

O Brasil, que hoje é presidido por uma mulher, Dilma Rousseff, simpatizante da causa feminista, havia colocado no rascunho o termo “direitos de sexualidade e reprodução”, que no meio diplomático é conhecido como outra forma de dizer “métodos contraceptivos e aborto”. E como todo mundo sabe, a Igreja é contra o aborto em qualquer circunstância.

Mary Robinson criticou o documento final

Nesse contexto, alguns grupos políticos e de ambientalistas criticaram o Vaticano por ter defendido essa posição. Uma delas foi a ex-presidente da Irlanda e ex-comissária de Direitos Humanos das Nações Unidas, Mary Robinson, que em entrevista ao jornal O Globo disse que “as mulheres são essenciais para o desenvolvimento sustentável”. Ela lamentou muito o resultado e afirmou que a questão não avança “por uma guerra política” da qual a Igreja faz parte.

No discurso proferido na Rio+20, o Arcebispo de São Paulo e presidente da delegação da Santa Sé, Cardeal Dom Odilo Scherer, falou diretamente sobre as delegações que tentam promover “questões como ‘dinâmica populacional’ ou ‘direitos reprodutivos’, como uma forma de desenvolvimento sustentável”. Segundo ele, “estas propostas são baseadas em uma noção errada de que o desenvolvimento sustentável e a proteção ambiental só podem ser alcançados através da garantia de que haja menos pessoas em nosso planeta”.

Dom Odilo Scherer

Não aprofundaremos a discussão sobre qual posição é a mais correta ou melhor para o desenvolvimento sustentável. Mas há que se ponderar que a Santa Sé não foi a única contrária à inclusão do termo “direitos de sexualidade e reprodução”. Também o fizeram Chile, Nicarágua, Costa Rica, República Dominicana, Egito, Síria e Rússia. Defenderam o termo Noruega, Islândia, Austrália, Canadá, Suíça, União Europeia e Estados Unidos.

Na verdade, o grande problema dessas conferências não é o fato de um país ou outro defender essa ou aquela posição, sobre qualquer temática que seja. Afinal, cada país é soberano em suas decisões, tem suas próprias leis, legisladores, governantes e eleitores (no caso das democracias, claro).

O problema é a lógica ingênua de exigir  que o documento final da Rio+20 seja fruto de um consenso entre todos os países representantes. Desse modo, qualquer membro tem direito de discordar de uma vírgula e pressionar para mudar o texto nesse ou naquele sentido – o que é totalmente legítimo nesse cenário. É por isso que essas reuniões raramente chegam a resultados concretos, como foi  o caso da Rio+20.

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A diplomacia da Santa Sé e a difícil situação da mulher no campo

Plenário das Nações Unidas

A diplomacia da Santa Sé é uma das áreas mais interessantes de atuação da Igreja no mundo e uma das que menos se fala por aí.

Hoje, uma representante da Missão Observadora Permanente da Santa Sé junto às Nações Unidas (ONU) tocou num tema social delicadíssimo – a difícil situação da mulher na zona rural – e demonstrou um olhar pelo menos apurado diante dos problemas do mundo. Vamos explicar rapidamente o que é essa “Missão Observadora” e depois citar o que a representante Dianne Willman falou, em Nova York, nas atividades da 56ª sessão da Comissão de Status da Mulher.

De acordo com o site oficial da Missão Observadora, a Santa Sé já realiza missões diplomáticas desde o século IV, ou seja, bem antes da criação do Estado do Vaticano. Quando a Santa Sé e a Itália assinaram o Tratado de Latrão, em 1929, reconhecendo a soberania da Cidade do Vaticano, entre outras coisas, estabeleceu-se que as relações diplomáticas da Santa Sé seguiriam as regras do Direito Internacional. A Cidade do Vaticano é, portanto, “a base territorial da Santa Sé”, que é uma autoridade independente e soberana, e também a autoridade suprema da Igreja.

Estabeleceram-se relações formais entre a Santa Sé e as Nações Unidas em 1957. Por opção própria, a Santa Sé adotou a posição de “Observadora Permanente”, e não a de um Estado membro como todos os outros, que têm direito a voto (e alguns, de veto). O objetivo ao fazer isso foi “manter a neutralidade em problemas políticos específicos”. Assim, sempre há um núncio apostólico Observador Permanente, que representa a Santa Sé na ONU – atualmente o arcebispo Dom Francis Chullikatt. Ele fala pela Santa Sé nas discussões diplomáticas das Nações Unidas. E, esporadicamente, o próprio Papa vai à ONU para fazer algum discurso, assim como outros chefes de Estado. Bento XVI esteve lá em 2008.

Pois bem, voltando ao pronunciamento de hoje, que pode ser lido na íntegra aqui (em inglês): a representante Dianne Willman chamou a atenção para o fato de que “as mulheres da zona rural muitas vezes trabalham em situações deploráveis contrárias a todas as possibilidades que desafiam a imaginação”.

“Longas horas de trabalho sem pagamento, situações anti-higiênicas, má nutrição, falta de acesso à água, acesso limitado à saúde, discriminação e exposição à violência, inclusive contra mães grávidas, são apenas alguns dos desafios que muitas delas enfrentam”, observou a diplomata. Segundo ela, “todos esses desafios impactam sua capacidade de cuidar de si mesmas, de seus filhos e de suas famílias”. Muitas vezes, essas mulheres são líderes de famílias e de comunidades. A pobreza e a fome se acentuam em regimes políticos em que “as mulheres não têm direitos legais ou uma voz nas decisões que as afetam”.

Como proposta para superar esse problema, a delegação da Santa Sé sugere políticas de cooperação e envolvimento do homem, especialmente iniciativas  para superar o preconceito centradas no ser humano, “respeitando a dignidade da pessoa humana” (aqui fala-se “pessoa humana” porque existe também “pessoa divina”). Chama a atenção para “a segurança alimentar, a erradicação da pobreza e o papel central da família para o desenvolvimento integral”.

E acrescenta que a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que ocorre em junho no Rio de Janeiro, será uma boa oportunidade para fortalecer a atenção para as pessoas rurais, inclusive mulheres e meninas, “aumentando seu comprometimento com os processos de elaboração de políticas”.

Algumas pessoas podem dizer que esse pronunciamento foi apenas burocrático, que falou de um problema que todos nós já conhecemos. Pode ser. Mas alguém precisa lembrar constantemente as autoridades do mundo, os diplomatas e os chefes de Estado e de governo, que alguns problemas aparentemente corriqueiros são na verdade uma aberração produzida pela humanidade.

Esses problemas, como o das mulheres que sofrem na zona rural, não deveriam ser a regra, mas a exceção.

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