Arquivo da tag: mundo

PUC do Peru busca acordo de última hora para manter título de “Pontifícia”

Provável vitória do cardeal Juan Cipriani, Arcebispo de Lima

Há pouco mais de um mês, falamos neste post sobre a situação da Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP), que recentemente passou por um processo de reavaliação pelo Vaticano.  Nos últimos dias saíram novidades importantes: a PUCP tem manifestado o interesse de manter o título de “Pontifícia”.

Para lembrar: depois de perceber que muitos professores e alunos estavam se desviando ideologicamente do pensamento da Igreja, o cardeal peruano Dom  Juan Luis Cipriani Thorne, Arcebispo de Lima, pediu para exercer o direito de escolher o reitor da PUCP entre três nomes definidos em assembleia universitária. Para que isso ocorresse, seria necessário modificar os estatutos da universidade, que atualmente conferem à assembleia a eleição do reitor. O reitor  Marcial Rubio e muitos alunos acusaram perda de autonomia.

Após avaliar o caso, em fevereiro a Santa Sé pediu mudanças nos estatutos, para que ficassem em conformidade com a constituição apostólica Ex Corde Ecclesiae, que rege as universidades católicas Esse documento foi promulgado em 1990 pelo Papa João Paulo II, com objetivo de esclarecer o que é esperado de uma universidade pontifícia.

A Igreja Católica estabeleceu a Páscoa como prazo final para um acordo. E, hoje, a quatro dias da Páscoa, a PUCP anunciou que ainda há alguns impasses, mas se chegou ontem “a um acordo que permitiu a elaboração de uma proposta comum de reforma do Estatuto da Universidade e um documento que põe fim a todos os processos judiciais sobre a herança do Sr. José de la Riva-Agüero”, doador do terreno onde está a PUCP. Ele vinculou a herança à sua utilização obrigatória por uma universidade pontifícia.

Campus da PUCP

Com isso, a universidade provavelmente deve manter o caráter pontifício. As autoridades da Igreja ainda não confirmaram um acordo definitivo, mas Cipriani havia dito dias atrás que estava “otimista” com essa questão.

Segundo o site da PUCP, a proposta leva em conta que “a reitoria recebeu da Assembleia a indicação de dialogar com as autoridades da Igreja para manter o caráter católico e pontifício da Universidade, preservando sua autonomia”.

Segundo o site Catholic Culture, a perda do título de “Pontifícia” teria sérias implicações para a PUCP. Se a universidade quisesse declarar “independência” teria de abrir mão de suas propriedades, que poderiam ser repassados para a Arquidiocese de Lima, por causa da vinculação da herança do benfeitor.

De qualquer forma, trata-se de uma solução provisória para o caso. Digo provisória porque se a PUCP continuar fugindo das diretrizes ideológicas que Cipriani e a Igreja consideram mais adequadas, muito provavelmente haverá outros tipos de intervenção, o que deixará alguns professores e alunos novamente insatisfeitos, retomando o ciclo de conflitos.

Mas, se tudo se confirmar, por enquanto o cardeal Cipriani terá conseguido alinhar a universidade à Ex Corde Ecclesiae, diretriz que precisa ser seguida por qualquer universidade da Igreja.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Igreja, Igreja no Mundo, Vaticano

Pergunta: Por que a Igreja Católica não vende todos os seus bens e doa o dinheiro para os pobres?

Tenho adiado tentar responder à pergunta que dá título a este post, pois se trata de uma questão muito delicada, que não pode ser respondida de forma apaixonada e tampouco de forma cega. Essa questão já me foi feita várias vezes e ao menos duas pessoas pediram para o blog falar sobre isso.

Não queremos aqui defender a Igreja de qualquer acusação (aliás este não é o objetivo deste blog), mas outra vez tentar mostrar que o mundo é bem mais complexo do que pensamos. Tentar fazer o leitor pensar um pouco mais para entender por que as coisas são como são.

Para começo de conversa, temos de lembrar que quando falamos de “Igreja Católica” estamos falando de uma instituição que está no mundo inteiro – a palavra “católica” significa “universal” – o que já ajuda a explicar o fato de se ter muitos bens. Existem 1,2 bilhão de católicos no mundo, mais de 5 mil bispos, mais de 400 mil padres, mais de 720 mil religiosas. Toda essa gente precisa ter onde morar, comer, rezar, estudar… Para isso são necessários templos, colégios, residências, e como não dizer dinheiro, renda.

Outra coisa: há milhares de “Mitras (Arqui)Diocesanas”, paróquias, congregações religiosas, universidades, associações de leigos, hospitais, museus, obras sociais, escolas, fundações, embaixadas, e o próprio Vaticano – que é um país soberano – entre tantas outras organizações que constituem a Igreja.

Em outras palavras, todos esses bens estão divididos entre diversos grupos. Cada instituição católica na prática tem certa independência financeira. Aliás, muitas delas passam necessidades. O Vaticano há alguns anos gasta mais do que arrecada. Nos Estados Unidos, algumas dioceses estão falidas após pagarem indenizações altíssimas resultantes do problema da pedofilia. Tendo isso em mente, o mais importante, então, é analisarmos a forma como esses bens são utilizados. E, justiça seja feita, a maioria das instituições que se dizem católicas tem entre suas finalidades fazer o bem.

Mas alguém pode perguntar: “E toda a riqueza do Vaticano? Aquilo é desnecessário.” Talvez até seja, mas não dá para esquecer a História. Em mais de 2000 anos, muita coisa aconteceu para formar a Igreja que vemos hoje. A História da Igreja, que todo seminarista precisa estudar bem, mostra isso.

Um exemplo: aquele que é considerado o primeiro Papa e chefe da Igreja, São Pedro, foi um simples pescador, apóstolo de Jesus. Hoje, os Papas são, além de chefes da Igreja, chefes de Estado, monarcas, pontífices, bispos de Roma, que um dia foram cardeais, eleitos por um conclave, tudo ao mesmo tempo.

Não há como renunciar a isso e voltar a ser um pescador. E a mudança prática não aconteceu de uma hora para outra. Os bens da Igreja são resultado do seu processo de institucionalização, hierarquização, que aconteceu ao longo dos séculos,e que não podemos ignorar. O Vaticano de hoje é resultado de um tratado com a Itália, por exemplo, e por aí vai…

Isto é, mesmo que ter bens fosse errado, não daria para se desfazer do passado num piscar de olhos. Pode soar estranho, mas, de modo geral, a maioria dos bens da Igreja foi obtida de forma legítima em seu tempo histórico: as doações, as heranças de pessoas que entraram para a vida religiosa, a arrecadação de impostos, e até mesmo as Cruzadas, os saques, as conquistas de territórios, o jogo político junto aos reis e aos poderosos.

Alguns desses instrumentos são muito desumanos e hoje os vemos como altamente condenáveis e contraditórios com a mensagem de Cristo. Não é à toa que Lutero se rebelou contra a Igreja de seu tempo. Mas, em seus respectivos momentos, os meios usados eram legítimos – embora nem sempre moralmente lícitos. Não se tinha, por exemplo, a noção de direitos humanos que temos atualmente. A escravidão era algo comum e para muitas pessoas os índios não tinham alma.

Mas também não é por isso que se deve simplesmente vender tudo. Se fosse assim, teríamos de derrubar e vender, por exemplo, museus que um dia foram senzalas de escravos negros. Ou lugares que foram campos de concentração de judeus na Alemanha. Ou as pirâmides do Egito, talvez construídas sob muitas chicotadas. Tudo o que resulta de um passado sombrio deveria ser desfeito, destruído ou simplesmente vendido?

E mais: vender para quem? Por quanto? De que forma distribuir o dinheiro? Algumas coisas têm valor inestimável. E, ainda assim, por certo não seria suficiente para acabar com a fome no mundo. Muitas obras de arte que estão no Vaticano, por exemplo, são mantidas pela Igreja e estão acessíveis a todos que quiserem visitá-las. São bens que pertencem à humanidade, como os recursos naturais. O mesmo para as construções. Muitas delas ainda são funcionais, são igrejas, escritórios, hotéis, residências…

É claro que isso não isenta a Igreja de seus erros, da forma como acumulou seus bens. Por esse motivo se diz que “a Igreja é santa, mas seus membros são pecadores” ou que “a Igreja é de Deus, mas também é dos Homens”. Por esse motivo, muitas vezes a Igreja pediu desculpas pelos erros do passado. Isso não justifica os erros. Mas significa que ela não pretende repeti-los.

“Mas e todo aquele ouro nas igrejas e nos Papas?”, pode insistir alguém. Aqui devemos notar que “nem tudo o que reluz é ouro”. Existem outros metais sem grande valor aí (latão, cromo). Mas, OK, tem muito ouro também. Porém, esse ouro é usado como forma de ostentação ou como forma de elevação espiritual? Explica-se: se o ouro for apenas um sinal de riqueza material, devemos sim estranhar. Isso não é compatível com a fé cristã.

Mas muitas vezes o ouro e outras preciosidades são a forma que o Homem encontra para preparar algo considerado sagrado. São uma forma de preparar o ambiente para receber aquilo que é tido como divino. Exemplo: para quem acredita que na missa o vinho vira o sangue de Cristo, isto é, Deus verdadeiramente presente, nada mais natural do que preparar o cálice com o que se tem de melhor, isto é, o ouro. Afinal, vai se receber ali o próprio Deus.  E a arte é uma forma de se tentar chegar a Deus.

Lembremo-nos, ainda, que um dos presentes dos reis magos para Jesus foi justamente o ouro. É claro que isso não pode ficar só no ouro. É preciso lembrar também do incenso e da mirra.

É verdade que muitos membros da Igreja se esquecem dos mais pobres. Por esse motivo, por reiteradas vezes e em muito documentos, a Igreja reafirma seu compromisso com os mais pobres. Bento XVI abordou isso no Brasil, em 2007, dizendo que “Deus se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza”.

A Igreja entende que sua principal missão é “evangelizar” e seus bens e propriedades devem servir a esse objetivo. Do mesmo modo, para cada um de nós, nossos bens nos ajudam a conseguir aquilo que buscamos em nossas vidas. Não podemos ser ingênuos e achar que tudo se resolve num passe de mágica.

Envie você também sua dúvida sobre a Igreja nos espaços para comentários e veja aqui as outras perguntas já respondidas.

38 Comentários

Arquivado em Cristianismo, Igreja no Brasil, Igreja no Mundo, Outras crenças, Perguntas, Vaticano

Abraços Grátis no Vaticano

Juan Mann abraçando alguém totalmente de graça

Que tal fazer uma campanha de “Abraços Grátis” na Praça de São Pedro, no meio do Vaticano? Acho que ninguém teve essa ideia ainda, mas, se tiver, é possível que ela seja bem recebida por lá.

Isso porque, em uma iniciativa curiosa, o jornalista Cristian Martini Grimaldi, do L’Osservatore Romano (o jornal do Vaticano), elogiou a campanha dos “Abraços Grátis” (Free Hugs) criada pelo australiano Juan Mann, em 2004. Nela, pessoas seguram espontaneamente cartazes nas ruas de grandes cidades com os dizeres “Abraços Grátis” e abraçam qualquer estranho que estiver passando por ali e resolver aceitar o sinal de afeto gratuito (se não conhece, veja o vídeo abaixo).

Na verdade, o texto de Grimaldi, chamado “A esperança num abraço”, se dedica principalmente a explicar o que é a campanha e dar uma noção de seu sucesso na internet. A campanha dos “Abraços Grátis” começou na Austrália e se espalhou rapidamente nos Estados Unidos, na Europa, no Japão e também no Brasil. O vídeo oficial dos Free Hugs já tem mais de 72 milhões de visualiações.

Mas o jornalista também compara os abraços grátis à parábola do bom samaritano, por representarem um “‘ato de benevolência’ de modo totalmente casual e gratuito”. Segundo o texto do L’Osservatore Romano, os abraçadores costumam despertar uma certa “desconfiança inicial e depois um entusiasmo envolvedor”. E acrescenta: “parece que em cada um se desencadeia um impulso incondicionado de solidariedade para com o próximo.”

Este trecho do texto é especialmente interessante:

“E eis que é suficiente uma insólita e imprevisível circunstância e os mesmos espaços públicos tão pessimistas e precipitadamente julgados humanamente estéreis – Marc Augé definiu-os com o neologismo não-lugares, ou seja, territórios assinalados pelo consumo de massa, pela satisfação frenética do desejo, lugares de trânsito no quais as pessoas se cruzam sem nunca iniciar qualquer tipo de relação – ao contrário, voltam a pulsar de humanidade e fraternidade.”

Pois é, os abraços grátis estão em alta com o Vaticano e são considerados pelo jornal um “gesto gratuito de esperança simbólica”.


Deixe um comentário

Arquivado em Cristianismo, Igreja no Mundo, Outras crenças, Uncategorized

Advogado retira processo contra Bento XVI relacionado à pedofilia nos EUA

Jeffrey Anderson

O advogado norte-americano Jeffrey Anderson, conhecido por defender vítimas de abusos sexuais por membros da Igreja nos Estados Unidos, retirou o processo que mantinha na Justiça estadual acusando o Papa Bento XVI de acobertar casos de pedofilia ocorridos na Arquidiocese de Milwaukee. Vale explicar o caso (que é bem complexo).

Segundo Anderson, que havia feito grande alarde no começo do processo, em março de 2010, convocando coletivas de imprensa que resultaram inclusive nesta polêmica reportagem no jornal The New York Times, o motivo de ter dado o passo atrás é o fato de ter obtido decisão favorável a ele em um outro processo na Justiça federal – mas este contra a Arquidiocese (que pediu falência). Ele também admitiu que os impedimentos legais eram enormes para levar adiante a ação – fico tentando adivinhar que tipo de “pena” poderia surgir no Estado de Milwaukee contra um Papa, mas enfim…

O advogado que defendeu o Vaticano, Jeffrey Lena, disse que Anderson percebeu que não conseguiria responder à altura o pedido de arquivamento do processo apresentado pela Igreja. Anderson havia solicitado ao juiz permissão para justificar as acusações em duas partes, uma envolvendo questões de jurisdição (isto é, relacionar as normas do Direito Civil com as do Direito Canônico, que são as leis que regem o funcionamento da Igreja) e outra com as acusações em si. Mas o juiz rejeitou isso e pediu uma única resposta com as duas coisas juntas, o que Anderson não foi capaz de fazer por falta de argumentos, de acordo com Lena.

Fato é que o processo foi retirado. Mas o importante aqui é notar como as coisas são mais complicadas do que pensamos.

Esse processo se referia ao falecido padre Lawrence Murphy, que teria abusado sexualmente de 200 meninos, entre 1950 e 1974, em Milwaukee. O Vaticano reconhece que Murphy cometeu os crimes. O advogado das vítimas acusava o cardeal Joseph Ratzinger (hoje o Papa Bento XVI) de ter conhecimento dos delitos e os acobertar enquanto liderou a Congregação para a Doutrina da Fé – órgão responsável por avaliar eventuais punições administrativas para esse tipo de caso entre tantas outras coisas. Anderson alegava que isso teria ocorrido por meio documento secreto Crimen sollicitationis, de 1922, reeditado em 1962, que contém orientações para bispos sobre como proceder quando houver assédio durante o sacramento da confissão (que é altamente sigiloso). Murphy teria cometido esse grave delito. Anderson dizia, entre outros argumentos, que o Crimen impediu os bispos de informarem as autoridades civis sobre os crimes.

Já Lena afirma que o Crimen se refere a obrigações canônicas, e não civis, de modo que nunca impediu os bispos de informarem a polícia, por exemplo. Além disso, o Crimen já articulava sobre esses procedimentos muito antes de existirem leis civis específicas para tais crimes. O advogado pondera que o Vaticano não é o responsável imediato por cada um dos 400 mil padres do mundo, mas sim seus bispos e arcebispos diretos. Aliás, hoje a recomendação da Igreja aos bispos é justamente que as autoridades civis sejam informadas.

O Vaticano argumenta, ainda, que  só ficou sabendo do problema 20 anos depois, já que as autoridades civis arquivaram denúncias contra Murphy naquela ocasião. O porta-voz Pe. Federico Lombardi sustenta que não existem punições automáticas para esses crimes nas leis da Igreja e que, no caso do Pe. Murphy, não houve uma penalidade eclesial porque o padre já era idoso, bastante doente e vivia isolado. Murphy morreu quatro meses depois da notificação ao Vaticano.

Vale lembrar que alguns membros da Igreja realmente erraram feio no que diz respeito aos casos de pedofilia, ao fechar os olhos para eles – e a Igreja não nega isso. Um grande problema aí parece ser o fato de que, durante muitos anos, faltou uma diretriz clara sobre como os bispos devem agir em todos os casos de abuso sexual. Mas isso mudou. Não é à toa que, recentemente, ocorreu o primeiro Simpósio em Roma sobre o combate à pedofilia.

1 comentário

Arquivado em Igreja no Mundo, Vaticano

O drama da PUC do Peru

O reitor Rubio e o cardeal Cipriani

Em Lima, há um duro impasse sobre a  Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP) que muito deveria interessar às PUCs do Brasil, ou a quem estuda ou trabalha nelas. Explico: Em muitos países do mundo existem as “Pontifícias Universidades Católicas”, as chamadas PUCs, que são universidades vinculadas à Igreja. A PUC de São Paulo, por exemplo, tem como mantenedora a Fundação São Paulo, que existe desde 1945 e, por sua vez, é presidida pelo Arcebispo Metropolitano de São Paulo, atualmente o cardeal Dom Odilo Scherer.

Porém, as PUCs costumam ser instituições independentes. É a tão defendida autonomia universitária. Quem estuda numa PUC certamente quase nunca (ou nunca) vê o bispo responsável por ela. As universidades têm um reitor para administrá-las, têm assembleias, conselhos, burocracias, eleições, tudo conforme as normas dos estatutos, que variam de caso a caso e conforme as leis de cada país. Não dá para saber exatamente em que medida a Igreja interfere nas decisões das PUCs, nas linhas de pesquisas, na conduta dos professores. Tudo isso varia.

Voltando a Lima, a PUC do Peru tem como “Grão-Chanceler” o cardeal Arcebispo Dom  Juan Luis Cipriani Thorne. O reitor é Marcial Rubio. Acontece que, de uns tempos para cá, Cipriani percebeu que muitos professores e alunos começaram a se desviar ideologicamente das posições defendidas pela Igreja. Não gosto de usar expressões como “progressista” e “conservador” porque elas simplificam demais a realidade, então digamos que Cipriani defende posições mais tradicionais, enquanto que grande parte dos alunos e funcionários da PUCP não liga para o “Pontifícia” nem para o “Católica” que a universidade leva em seu nome.

Cipriani quer o direito de escolher o reitor da PUCP entre três nomes definidos em assembleia universitária, conforme lhe garante o Direito Canônico (conjunto de leis que regem o funcionamento da Igreja Católica Apostólica Romana). Mas, atualmente, a assembleia da PUCP é quem elege o reitor, conforme lhe garante a lei peruana. Para que ocorra a mudança, é preciso alterar os estatutos da PUCP – o que o reitor e os alunos não querem, pois dizem que perderiam a autonomia universitária.

Moral da história: o caso foi parar no Vaticano. O reitor Rubio disse ao jornal El Comercio que Cipriani “quer se apoderar dos bens da universidade”. Cipriani diz que “é preciso estender pontes, buscar o bem“, e acredita que a mudança nos estatutos seria melhor para todos. A universidade foi inspecionada e Rubio foi convocado ao Vaticano para dar explicações.

A Santa Sé pediu as mudanças nos estatutos o quanto antes. Como se trata de uma universidade católica privada, Cipriani teria o direito de escolher o reitor e quem está do seu lado argumenta que os tratados do Peru com o Vaticano sustentam isso. Mas os que se opõem a Cipriani dizem que os tratados incluem “o respeito às leis peruanas”, de modo que os estatutos têm de ficar como estão. Esse pessoal afirma que a PUCP pode até se declarar independente e se isolar da Igreja. Porém, a Igreja tem também o direito sobre os bens da PUCP, fundada por ela.

Ainda não há uma solução para o caso. Continuaremos acompanhando. A complexidade dessa questão está no fato de que a autonomia universitária é necessária, mas ao mesmo tempo está claro que muitas PUCs se desviaram daquela função que lhes foi atribuída no começo, pois são católicas só no nome.

Se as PUCs não forem analisadas com calma ao longo do tempo, um conflito mais árduo pode ser travado de forma brusca, a qualquer momento.

Leia também: PUC do Peru busca acordo de última hora para manter título de “Pontifícia”

2 Comentários

Arquivado em Cristianismo, Igreja no Mundo, Vaticano