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Com ajuda do Papa, cai o muro entre Estados Unidos e Cuba

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Texto publicado na página 23 do jornal “O São Paulo”, em janeiro de 2015

O Papa Francisco e a diplomacia da Santa Sé tiveram papel estratégico na histórica retomada das relações entre Estados Unidos e Cuba, anunciada em 17 de dezembro de 2014. “Hoje estamos contentes porque dois povos afastados por tantos anos deram um passo de aproximação”, declarou o pontífice em encontro com embaixadores, no Vaticano.

Os dois países eram inimigos desde os tempos da Guerra Fria. Há 53 anos, desde quando os Estados Unidos iniciaram o embargo comercial a Cuba por causa do regime comunista, Washington e Havana não mantinham nenhum tipo de relações diretas. O embargo americano provocou grande isolamento econômico da ilha, que passou a enfrentar intensa pobreza, especialmente depois da queda do seu maior aliado, a União Soviética. Mas depois de 18 meses de reuniões diplomáticas em segredo, Estados Unidos e Cuba derrubaram o muro invisível que os separava.

Reaproximação – Houve uma série de tentativas de reaproximação ao longo dos anos. Nos últimos meses, as tratativas foram sediadas pelo Canadá e estimuladas pessoalmente pelo Papa Francisco. Ele escreveu cartas privadas aos presidentes Barack Obama e Raúl Castro e, em março do ano passado, conversou pessoalmente com Obama. Oficiais americanos admitem que foi o Papa quem convenceu Raúl Castro a dialogar. O Vaticano sediou a última das reuniões, que preparou uma conversa telefônica entre os dois presidentes, em 16 de dezembro. A troca de prisioneiros americanos e cubanos marcou a reabertura entre os países.

Obama agradeceu “em especial” ao Papa Francisco – que celebrava seu aniversário de 78 anos no mesmo dia 17 – pelo papel essencial na mediação do conflito. O presidente elogiou o seu “exemplo moral, mostrando o mundo como deve ser, em vez de simplesmente aceitar o mundo como ele é”. Obama explicou que a estratégia do embargo para enfraquecer o regime cubano não funcionou. Raúl Castro, por sua vez, também agradeceu ao Papa e ao Canadá pelo apoio nas tratativas. “Os progressos obtidos nas trocas que tivemos mostram que é possível encontrar uma solução para muitos problemas”, declarou. O Vaticano informou que o Papa convidou os dois líderes a “resolver questões humanitárias de interesse comum, inclusive a situação de certos prisioneiros, para iniciar uma nova fase nas relações entre as duas partes”.

Histórico – Embora a atuação de Francisco tenha sido essencial, o vaticanista americano John Allen Jr., do jornal Boston Globe, ponderou que qualquer papa tentaria promover a normalização das relações entre Washington e Havana. Já João Paulo II, primeiro papa a visitar Cuba depois da revolução cubana, em 1998, procurou garantir maior liberdade aos cubanos. Pedia o papa: “Que Cuba se abra para o mundo e o mundo se abra para Cuba.” Bento XVI manteve a mesma política, explica Allen. Ele denunciou o embargo dos Estados Unidos a Cuba, quando visitou a ilha em 2012, chamando- de “injusto” para o povo cubano. Por outro lado, se recusou a encontrar um grupo de oposição a Fidel Castro. Segundo Allen, a diplomacia da Igreja foi muito criticada sob Bento XVI por não denunciar as injustiças na ilha, mas ao mesmo tempo garantia uma atuação mais firme nos bastidores, “especialmente porque o país se prepara para um futuro pós-Castro”.

Trabalho em equipe – De qualquer forma, o Papa Francisco não atuou sozinho. A Igreja possui a rede diplomática mais antiga do mundo: desde o quarto século, antes ainda que existisse o Estado Pontifício (hoje o Vaticano), a Sé Apostólica enviava missões diplomáticas. Atualmente, 176 países e as Nações Unidas possuem núncios, os embaixadores do papa. Segundo o vaticanista italiano Aldo Maria Valli, da televisão pública RAI 1, no caso entre Cuba e Estados Unidos, cinco nomes se destacam: o cardeal italiano Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano; o cardeal Beniamino Stella, que foi núncio em Cuba e hoje é conselheiro do papa no Vaticano; o arcebispo Angelo Becciu, que também foi núncio em Cuba e atualmente ocupa o cargo de Substituto para Assuntos Gerais no Vaticano; e o cardeal Ortega, amigo de longa data do Papa Bergoglio. Falando à Rádio Vaticano, Dom Parolin, que é diplomata de carreira, comentou que o papel da Santa Sé em casos de interesse internacional “é facilitar o diálogo entre as duas partes”.

O presidente Raúl Castro e o cardeal cubano, Dom Jaime Lucas Ortega y Alamino

A atuação do Papa Francisco neste caso está ligada ao fato de que ele é o primeiro papa latino-americano, de modo que conhece muito bem a realidade cubana. Mas, segundo o articulista de religião David Gibson, da agência Religion News Service, também pela forma como ele entende a diplomacia católica. “Desde que foi eleito, em março de 2013, Francisco tem buscado de forma persistente elevar o Vaticano ao nível global, algo que não vimos desde a década de 1980, quando o Papa João Paulo II peregrinou entre o Leste e o Oeste para ajudar a acabar com a Guerra Fria”, observa, em artigo.

Bispos cubanos e americanos elogiaram a atuação do papa e da Santa Sé no caso. O arcebispo de Santiago de Cuba e presidente da conferência episcopal da ilha, Dom Dionisio Garcia Ibanez, enviou uma carta aberta ao Papa Francisco: “Nós, bispos de Cuba, queremos manifestar nossa mais viva gratidão por sua obra, que renovou a esperança do início de uma etapa no caminho do povo cubano que leve benefício para toda a nação.” O arcebispo Thomas Wenski, da Diocese de Miami, aquela com maior número de cubanos nos Estados Unidos, afirmou em comunicado: “O Papa Francisco fez o que os papas devem fazer: construir pontes e promover a paz.”

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Bispos dos EUA elogiam decisão do governo Obama sobre imigrantes

Dom José Gomez, Arcebispo de Los Angeles

Para não dizer que os bispos dos Estados Unidos só implicam com o governo do presidente Barack Obama – que vem desagradando boa parte dos católicos do país com algumas decisões que contrariam suas expectativas (entenda melhor lendo este post e também este) -, hoje saiu uma notícia que mostra sintonia entre as duas partes.

A Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB) elogiou a decisão do gabinete presidencial de proteger imigrantes ilegais com até 15 anos de idade, que serão acolhidos no país em vez de passarem por procedimentos de deportação. Autoridades executivas dos Estados Unidos passam a analisar caso a caso.

De acordo com os bispos dos EUA, em carta assinada pelo Arcebispo de Los Angeles, Dom José Gomez, presidente do Comitê de Migração da USCCB, cerca de 800 mil jovens que estão ilegalmente no país poderão receber o benefício e uma permissão de trabalho. Segundo os bispos, eles não podem ser condenados pela migração, pois na maioria das vezes entraram juntos com os pais.

“Essa ação importante vai oferecer proteção (…) para um grupo de imigrantes vulnerável, que merece permanecer no nosso país e contribuir com seus talentos às nossas comunidades”, afirmou Dom José, em nota. “Essa juventude é brilhante, energética e ansiosa por buscar sua educação e alcançar todo o seu potencial”, acrescentou. “Eles não entraram em nosso país por violação própria, mas vieram aos Estados Unidos com seus pais como filhos, algo que qualquer um de nós faria.”

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A nova posição de Obama sobre o casamento gay e a reação dos bispos

Nesta semana, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez uma declaração histórica na rede de televisão americana ABC dizendo ser favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Imediatamente, os bispos católicos do país e outros grupos da sociedade reagiram, bem ou mal.

Vamos ver aqui o que disse Obama, em que contexto, e o que disseram alguns bispos. Antes de mais nada, recordamos que o objetivo deste blog de jornalismo religioso não é se posicionar contra ou a favor disso ou daquilo, mas apenas relatar o que aconteceu. Então vamos lá.

A declaração de Obama foi histórica porque ele se tornou o primeiro presidente americano a se posicionar nesse sentido. Grupos de defesa dos direitos dos homossexuais fizeram as pazes com Barack Obama, que na campanha eleitoral de 2008 havia se mostrado veementemente contra o chamado “casamento gay”. Naquela ocasião, Barack Obama afirmou: “Acredito que o casamento é a união entre um homem e uma mulher e, para mim, como cristão, também é uma união sagrada.”

Agora, o presidente dos Estados Unidos mudou de ideia. Disse que, depois de conversar com amigos, parentes e vizinhos percebeu que há muitas pessoas “em relações monogâmicas homossexuais, que estão criando crianças juntos”. Declarou Obama: “Eu chego à conclusão de que, para mim, pessoalmente, é importante seguir e afirmar que casais do mesmo sexo devem poder se casar.” Entretanto, ele deixou claro que cada Estado americano deve avaliar essa questão e ter a sua própria lei.

Analistas políticos dizem que, em 2008, quando Obama (Partido Democrata) era oposição e disputava contra o senador John McCain (Partido Republicano), precisava do apoio dos grupos chamados “mais conservadores” (já disse que não gosto dessas definições “progressista”, “conservador”, porque não explicam nada, mas lá eles falam assim, paciência). Muitos cristãos e especialmente os católicos, muitos deles latinos, votaram em Obama com gosto – não só por isso, claro, mas também por isso.

Pesquisas mostram que atualmente metade da população aprova leis que liberam o “casamento gay” e metade não aprova. Assim, ao se declarar a favor, Obama assumiu uma postura política arriscada. Embora possa se aproximar de grupos que cada vez mais ganham força política no país, como os homossexuais, pode acabar se afastando de outros grupos mais tradicionais – que debandariam para o lado da oposição, o Partido Republicano, “mais conservador”.

Mitt Romney, provável adversário de Obama

Os que apoiam Obama dizem que ele foi corajoso ao afirmar publicamente, em pleno ano eleitoral, o que realmente acha. Além disso, acreditam que a sociedade já não leva em consideração essas questões na hora de votar, separando-as da política partidária. Entendem que o país evoluiu e deve dar direitos iguais a todos.

Os que são contrários a Obama dizem que ele só está sendo político, querendo se aproximar mais da parcela da população que se afastou e que de qualquer forma não votaria em Mitt Romney (provável candidato Republicano). Também acusam Obama de querer desviar o debate dos verdadeiros problemas do país, como a economia, que vai bem mal. Vale lembrar que o voto não é obrigatório nos Estados Unidos.

Mas os bispos católicos dos Estados Unidos não querem saber se a nova posição de Obama é uma convicção real ou apenas uma manobra política. Para eles, Obama vem traindo a confiança daqueles que votaram nele lá atrás. E a relação entre os bispos e Obama já estava estremecida por causa das mudanças na política de saúde pública, conforme relatamos há um tempo, neste post aqui.

O presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB), Cardeal Timothy Dolan, de Nova York, disse que os comentários de Obama “apoiando a redefinição do casamento são profundamente entristecedores”.

Cardeal de Nova York, Timothy Dolan

Ele afirmou que os bispos católicos se unem ao presidente e ao governo sempre que adotam medidas que fortalecem o casamento e a família, mas, desta vez, as palavras de Obama “enfraquecem a instituição do casamento, a principal pedra angular de nossa sociedade”. Dolan acrescentou que reza por Obama todos os dias: “E continuarei rezando para que ele e sua administração ajam de forma justa para apoiar e proteger o casamento como uma união de um homem e uma mulher.”

Outro bispo que se manifestou sobre o tema foi Dom Salvatore Cordileone, da Diocese de Oakland (Califórnia), presidente do Subcomitê para Promoção e Defesa do Casamento da USCCB. Mas ele veio a público para falar sobre uma emenda na lei no Estado da Carolina do Norte, que proibiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Segundo Cordileone, a decisão reafirma “o sentido autêntico e perene do casamento”. Aderiram a ele os bispos Dom Michael Burbidge, de Raleigh, e Dom Peter Jugis, de Charlotte, todos do mesmo Estado.

Dom Cordileone, de Oakland

“Espero que o presidente Obama também reconheça o papel essencial (do casamento entre um homem e uma mulher para o bem comum). Esta não é uma questão partidária”, comentou o bispo de Oakland. Para ele, toda criança tem o direito básico de ser bem-vinda e criada por uma mãe e um pai.

Em resposta a Obama, o pré-candidato Mitt Romney reafirmou sua posição contrária ao “casamento gay”. Mas nem por isso já tem o apoio dos bispos. Ainda é preciso acompanhar mais a campanha.

Vale lembrar que, nos Estados Unidos, cada Estado tem autonomia para decidir sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em 31 deles, a prática é ilegal e em 7 é permitida pela Lei.

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