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Padres da Espanha doam 10% da renda a famílias prejudicadas pela crise

Dom Castro, bispo de Segovia

Uma notícia curiosa acabo de ler no blog do vaticanista italiano Andrea Tornielli: a pedido do bispo Ángel Rubio Castro, os padres da diocese espanhola de Segovia aceitaram doar 10% de seu salário (côngrua) durante um ano para o fundo de solidariedade da instituição Caritas.

O objetivo é ajudar famílias prejudicadas pela crise econômica no país. Sabe-se que a Espanha é uma das nações mais afetadas pela atual crise europeia, onde a taxa de desemprego é de 23,6% da força de trabalho, segundo a Eurostat. Entre os jovens, o desemprego chega a 40%. A iniciativa do bispo, portanto, é uma reação da Igreja local ao aumento dos pedidos de doação de alimentos à Caritas.

Dom Castro já havia proposto o ato de solidariedade dos padres por ocasião da Semana Santa no passado, conforme explica o blog de Tornielli. Mas desta vez sugeriu que a doação fosse repetida mensalmente. E todos os padres acolheram o pedido, de modo que foram arrecadados cerca de 10 mil euros (o que hoje corresponde a aproximadamente R$ 25 mil).

Cerca de 500 famílias foram ajudadas com o dinheiro dos padres ao longo do primeiro trimestre deste ano. “Devemos ser austeros e generosos para poder partilhar mais”, disse o bispo. “Estamos presos à mesma corda da solidariedade, da fraternidade, da unidade ou da caridade. A vida de um repercute na dos outros“, acrescentou, conforme o site da Caritas espanhola. A Igreja “não é insensível aos padecimentos e à dor dos demais”.

Vale lembrar que o Código de Direito Canônico – conjunto de leis que regem o funcionamento da Igreja Católica – prevê o pagamento de “côngruas” ou “espórtulas” como forma de remuneração aos sacerdotes pelos serviços prestados, para que possam se manter dignamente e como forma de se estimular as obras da Igreja.

Catedral de Segovia, na Espanha

Diz o cânon 281 §1: “Os clérigos, quando se dedicam ao ministério eclesiástico, merecem uma remuneração condigna com a sua condição, tendo em conta tanto a natureza do seu múnus, como as circunstâncias dos lugares e dos tempos, com a qual possam prover às necessidades da sua vida e à justa retribuição daqueles de cujo serviço necessitam.”

Também determina que os clérigos tenham uma vida de simplicidade e que: “Os bens recebidos por ocasião do exercício do ofício eclesiástico, que lhes sobejarem depois de providenciarem à sua honesta sustentação e ao cumprimento dos deveres do próprio estado, procurem empregá-los para o bem da Igreja e em obras de caridade” (cânon 282 §2).

Neste contexto, o experiente jornalista Tornielli avalia que “em um momento dramático como o que estamos vivendo, a notícia que chega de Segovia é duplamente significativa: chega de uma diocese pequena e pobre, e é um outro sinal de partilha que indica a vontade de parte do clero de estar ainda mais próxima àquela parte da população que mais sofre com as consequências da difícil conjuntura econômica”.

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O aumento no número de católicos e o que isso quer dizer na prática

Entre os anos de 2009 e 2010 aumentou em 1,3% o número de pessoas católicas no mundo, de acordo com o Anuário Pontifício de 2012, estudo que detalha as estatísticas da Igreja Católica no mundo, divulgado hoje.

Podemos tirar algumas conclusões fáceis dos números divulgados. A primeira é a de que o número de fiéis católicos não diminuiu globalmente, como muitos querem crer. Mas esse aumento tampouco significa que o Catolicismo está se expandindo: a proporção dos católicos na população mundial permaneceu em 17,5%, pois ela também cresceu.

A proporção de católicos praticamente se manteve em todas as regiões do mundo: teve queda modesta na América do Sul (de 28,54% para 28,34%)  e na Europa (de 24,05% para 23,83%); e ganhos marginais na África (de 15,15% para 15,55%) e no sudeste asiático (10,47% para 10,87%). É importante notar aí que o número de católicos não reflete necessariamente a influência da Igreja Católica no mundo. Isso pode variar de região para região, de cultura para cultura. Além disso, muitas pessoas se dizem católicas e na verdade sequer vão à igreja nem rezam o “Pai Nosso”.

Por esse motivo vale destacar um outro número que dá uma visão melhor da coisa, que é o de sacerdotes. Desde o início da pesquisa, em 2000, houve um aumento quase que constante nesse número, apesar da suposta “crise das vocações”. Em 2010, eram 412,24 mil padres no mundo ante 410,59 mil em 2009. Essa elevação se deu principalmente entre os padres diocesanos, isto é, aqueles que são ligados diretamente às dioceses, e não a congregações religiosas (beneditinos, agostinianos, franciscanos, jesuítas, etc).

Está claro que há menos vocações do que uns 20 ou 30 anos atrás, embora não tenhamos o dado comparativo, mas a redução das vocações tem ocorrido principalmente no clero religioso, e não tanto no clero diocesano. A explicação aí pode ser a de que geralmente os padres diocesanos têm um pouco mais de independência e liberdade em relação aos padres religiosos, pois não fazem votos de pobreza, castidade e obediência – um estilo de vida talvez menos atrativo no mundo atual. Os padres diocesanos assumem  o compromisso do celibato, mas não fazem votos. Por outro lado, podem ter uma vida mais solitária do que a dos religiosos, que vivem em comunidade, e têm de organizar o próprio orçamento (por isso muitos são até mais pobres).

De qualquer forma, o mais curioso é ver a oscilação das vocações sacerdotais nos continentes. Na Ásia, houve aumento de 1,7 mil padres; na África, de 765 padres; na Oceania, de 52 padres; nas Américas, de 42 padres; já na Europa, em um ano houve queda de 905 no número de padres. Embora haja muito mais padres na Europa do que em outros lugares do mundo, fica evidente a tendência inversa àquela vista séculos atrás, quando os europeus saiam para catequizar o mundo. É cada vez mais provável que os outros continentes enviem mais e mais “missionários” para a Europa, onde o clero é envelhecido e há poucas novas vocações.

Vale notar, ainda, que houve um leve aumento no número de homens religiosos não ordenados (frades, monges ou irmãos leigos), de 54,23 mil para 54,67  mil, contrariando a tendência de queda vista em anos anteriores. As elevações mais significativas ocorreram na Ásia, de 4,1%, e na África, de 3,1%.

Já entre as religiosas, a “crise” de vocações é forte e vem se confirmando há alguns anos. De 2009 para 2010, passou-se de 729,4 mil mulheres para 721,9 mil. Essa queda foi maior na Europa (2,9%). E, de fato, conheço congregações que têm uma ou nenhuma aspirante à vida religiosa na Itália, berço da maioria delas. Também houve retração na Oceania (2,6%), além das Américas (1,6%). Porém, na África e na Ásia houve aumento de 2%. Outra vez, são os novos missionários.

A Igreja vê com preocupação a situação das vocações religiosas, mas ao mesmo tempo não sabe direito até que ponto isso é um problema, pois entende que, da mesma forma em que o mundo muda, muda a dinâmica das vocações. Além disso, a vocação é considerada um chamado de Deus ao qual a pessoa responde “sim”, de modo que interferir nisso não depende só da Igreja. Depende no que diz respeito a permitir que o vocacionado perceba esse chamado. Para isso, tem de ser mais eficiente no trabalho vocacional.

Entretanto, para compensar um pouco, há algumas décadas cresce a atuação dos leigos, sua presença em posições de liderança pastoral e nas missões. Isso ocorre inclusive em áreas antes exclusiva aos religiosos, como a saúde e a educação, por exemplo, o que fica claro diante do surgimento de cada vez mais novos grupos de pessoas que não atuam na Igreja por meio do sacerdócio ou da vida religiosa, mas como voluntários ou mesmo profissionalmente.

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