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O problema da pedofilia na Igreja, as críticas da ONU e reações

A Igreja Católica está acostumada a receber críticas, algumas justas, outras injustas. Mas raramente elas vêm de uma instituição tão importante como a Organização das Nações Unidas (ONU). Nos últimos anos, o Comitê da ONU sobre os Direitos da Criança vem avaliando amplamente os países que assinaram um tratado de 1989 assumindo o compromisso de proteger a criança e defender seus direitos. A Santa Sé aderiu ao acordo em 1990 e, portanto, como outros membros, foi igualmente examinada.

As conclusões desse processo foram publicadas recentemente em um relatório no qual o Comitê faz duras críticas ao Vaticano, especialmente por não agir de forma correta no combate a abusos sexuais de crianças praticados por membros do clero e pessoas ligadas à Igreja. Porém, o relatório também vem sendo criticado (não só por membros da Igreja) porque toca em questões políticas e em certos pontos assume um tom “ideológico”. Além de falar do problema da pedofilia, a ONU pede mudanças na posição da Igreja sobre aborto, relações homossexuais e contracepção. Queremos tentar entender melhor o problema todo e trazer um pouco das reações.

As críticas – A ONU reconhece a abertura do Vaticano ao diálogo e seu “positivo compromisso” com a mudança de “atitudes e práticas” que não deram certo. Entretanto, pede medidas “firmes e concretas” nesse sentido e diz que sugestões feitas em 1995 não foram totalmente acolhidas. No que diz respeito ao problema dos abusos sexuais, o jornal norte-americano National Catholic Reporter fez um bom resumo dos pontos apresentados, que utilizamos aqui para facilitar a compreensão do leitor.

Os problemas mais graves apontados pelo relatório são: a prática de transferência de padres pedófilos de uma paróquia para outra, o que coloca em risco novas crianças; a prática de não divulgar dados sobre abusos sexuais dentro da Igreja; a aplicação de medidas disciplinares aos abusadores sem denúncia às autoridades civis; a existência de um código de silêncio entre membros do clero que tinham conhecimento dos problemas; a falta de orientação às crianças para que sejam capazes de reconhecer e evitar uma situação de risco.

Além disso, a ONU acusa a Igreja de “nunca ter tornado obrigatória” a denúncia dos casos às autoridades civis e diz que membros da Igreja, inclusive da Santa Sé, não estiveram sempre dispostos a colaborar com a Justiça e as comissões nacionais de investigação.

Em suas recomendações, a ONU pede a “imediata remoção de todos os suspeitos conhecidos” dos cargos que ocupam e o devido encaminhamento às autoridades civis. Exige, ainda, maior transparência por parte da Igreja, como a remoção de normas que exigem sigilo durante as investigações. Pede mudanças no Código de Direito Canônico (conjunto de leis que regem o funcionamento da Igreja), transformando a pedofilia em crime, e o desenvolvimento de programas de auxílio as vítimas. Recomenda que a comissão criada pelo Papa Francisco em dezembro para analisar os casos de abuso sexual possa investigar de forma independente, inclusive a conduta dos líderes da Igreja.

Dom Silvano Tomasi, Observador Permante da Santa Sé na ONU

O ponto mais polêmico e que gerou uma reação negativa por parte da Igreja foram os “alertas” do Comitê da ONU para que a Santa Sé mude sua posição sobre aborto, relações homossexuais e contracepção. O Comitê afirma que a Igreja deve alterar o Direito Canônico para “identificar as circunstâncias em que o acesso aos serviços de aborto sejam permitidos”. Recomenda alterações nas “políticas e práticas” da Santa Sé para que use sua “autoridade moral para condenar todas as formas de perseguição, discriminação ou violência contra crianças baseadas em sua orientação sexual ou orientação sexual de seus pais, e apoiar os esforços de nível internacional para a descriminalização da homossexualidade”. E declara que a promoção de métodos contraceptivos é necessária em políticas de combate a AIDS, por exemplo.

A resposta do Vaticano – Em comunicado oficial, a Santa Sé reiterou seu “compromisso com a defesa e a proteção dos direitos da criança”, com base na convenção assinada e nos “valores morais e religiosos oferecidos pela doutrina católica”. Entretanto, o arcebispo Observador Permanente da Santa Sé na ONU, Dom Silvano Tomasi, disse que recebeu “com surpresa” o relatório do Comitê, pois o documento contém críticas que já foram devidamente respondidas.

“O aspecto negativo do documento que produziram faz pensar que tenha sido preparado antes da reunião da Comissão com a delegação da Santa Sé, que deu em detalhes respostas precisas sobre vários pontos, que não foram, em seguida, incluídas no documento final ou pelo menos não parecem ter sido levadas seriamente em consideração”, declarou à imprensa, dizendo que o documento não identifica medidas tomadas nos últimos anos pela Igreja no combate à pedofilia.

Irmã Mary Ann Walsh, RP dos bispos norte-americanos

Ele lamentou também que a ONU tenha procurado intervir no ensinamento da Igreja sobre questões como o aborto. “A Convenção sobre a proteção das crianças  fala da defesa da vida e da proteção das crianças antes e depois do nascimento; enquanto a recomendação que é feita à Santa Sé é a de mudar a sua posição sobre a questão do aborto. É claro que, quando uma criança é morta não existem mais direitos”, ironizou.

Oportunidade perdida – A diretora de Relações Públicas da Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos (um dos países onde o problema da pedofilia no clero é mais grave), Irmã Mary Ann Walsh, chamou o relatório de “uma oportunidade perdida”. “Nenhuma organização pode ser complacente (com a pedofilia)”, declarou. “Infelizmente, o relatório foi enfraquecido ao incluir objeções ao ensinamento da Igreja em questões como o casamento gay, aborto e contracepção. Isso parece violar a obrigação inicial das Nações Unidas de defender a liberdade religiosa.”

Padre Hans Zollner, diretor do Centro de Proteção de Menores

Relatório é um “incentivo” mas tem pontos cegos – Para o Padre Hans Zollner, diretor do Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Gregoriana e do Centro de Proteção de Menores, em Roma, a ONU reconheceu os esforços da Igreja no combate à pedofilia, e isso pode ser visto como um incentivo. Porém, ele afirma que nos últimos 13 anos a Santa Sé vem realizando uma política de tolerância zero à pedofilia. À Radio Vaticano, ele comentou: “Tenho a impressão de que o relatório é sobre muitas coisas que deram errado nos últimos anos e décadas. Mas os recentes esforços da Santa Sé parecem não se refletir em medida suficiente. Esforços para aumentar a transparência, a tentativa de definir mudanças no Direito Canônico e introduzir novas normas”.

O jornalista John Allen

Não existe um complô contra a Igreja – O relatório do Comitê não tem como objetivo criar uma perseguição religiosa contra a Igreja Católica, mas misturou o tema da proteção dos menores com propostas ideológicas, afirmou o vaticanista do Boston Globe, John Allen Jr, em entrevista a Il Sussidiario. “A causa da proteção dos menores deveria ser defendida por todos, indistintamente, sejam conservadores, liberais, leigos ou crentes. Qualquer um deveria estar de acordo com o fato de que a defesa das crianças é uma prioridade absoluta. No entanto, a ONU decidiu confundir as águas, misturando o tema dos abusos sexuais com uma batalha cultural partidária”, analisa.

Segundo John Allen, não é correto dizer que a Igreja não tem feito nada para resolver o problema da pedofilia. Esses esforços, diz o analista, foram intensificados durante o pontificado de Bento XVI. “Certamente no passado houve essa tendência (de esconder os casos de abuso sexual), e a Santa Sé mesmo o reconheceu a partir de Bento XVI. A Igreja hoje é muito diferente e está se empenhando em uma política de ‘tolerância zero’ contra os abusos. É necessário, entretanto, estarmos atentos para que essa política seja efetivamente aplicada.”

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Papa Francisco estimula esforços no combate à pedofilia na Igreja

Francisco: Tolerância Zero com a pedofilia

Francisco: Tolerância Zero com a pedofilia

O problema dos abusos sexuais de menores por pessoas ligadas à Igreja Católica existiu e ainda existe. Depois de tantos escândalos em diversos lugares do mundo, felizmente agora há um real esforço de lidar com essa situação da melhor maneira possível. Nos últimos anos, uma série de iniciativas surgiu para minimizar o difícil e doloroso problema dos abusos sexuais na Igreja.

Entre muitos jornalistas que cobrem notícias do Vaticano, é recorrente ouvir que essa era uma das maiores lutas do Papa Bento XVI no fim de seu pontificado. Ele teria enfrentado muita resistência entre pessoas e instituições eclesiásticas para promover uma mudança formal.

Fato é que, nesta semana, o Papa Francisco encorajou o trabalho do Centro para a Proteção dos Menores da Pontifícia Universidade Gregoriana, uma agência criada após a realização de um simpósio internacional de estudo e sensibilização sobre o problema de abusos de menores por pessoas ligadas à Igreja, em 2012.

Aquele simpósio, histórico por ser a primeira vez em que uma universidade pontifícia se abriu para discutir um tema tão complexo, que é motivo de vergonha para a Igreja e por isso tão delicado – inclusive com a presença de vítimas de abusos, que deram depoimentos – resultou no livro “Rumo à cura e à renovação”, organizado por padres jesuítas e pela Congregação para a Doutrina da Fé. Participaram delegados de 110 conferências episcopais e superiores de 33 ordens religiosas.

No início de 2013, um ano após o simpósio, o padre jesuíta Hans Zollner, responsável pelo evento, entrega os resultados ao Papa Bento XVI

O livro, traduzido em várias línguas, inclusive em português, inclui a Carta Circular para ajudar as Conferências Episcopais na preparação de linhas diretrizes no tratamento dos casos de abuso sexual contra menores por parte de clérigos, um documento de grande importância divulgado em maio de 2011.

Essa carta coloca sobre o bispo diocesano o peso da responsabilidade na denúncia dos casos de abusos sexuai. É dever e obrigação do bispo avisar as autoridades civis e dar suporte às vítimas de abuso sexual. Em alguns países, bispos foram presos por terem sido “cúmplices” de casos de abuso sexual de menores, ou seja, porque não informaram à polícia que um grave crime havia sido cometido.

Também daquele simpósio surgiu uma plataforma de formação à distância (e-learning) para pessoas que queiram se especializar no trabalho de acompanhamento a casos de abusos sexuais dentro da Igreja Católica. O site é aberto: http://elearning-childprotection.com (em inglês). Na ocasião do simpósio, o Papa Bento XVI enviou mensagem pedindo “uma profunda renovação da Igreja”.

Segundo o Papa Francisco, o trabalho do Centro é importante. “Continuem assim”, afirmou ao fim de uma missa celebrada na Casa Santa Marta, onde mora – conforme relata o site Vatican Insider. De acordo com o vaticanista Marco Tosati, do jornal italiano La Stampa, que entrevistou o Pe. Davide Cito, consultor da Congregação para o Clero para a situação dos abusos na Igreja, todos os anos chegam a Roma 400 denúncias de abusos. Inicialmente, vinham principalmente do mundo anglófono, mas agora também da América do Sul, do México, da Europa em geral, como Itália, Espanha e Polônia. Ainda são poucas as denúncias sobre África e Ásia.

“As pessoas são incentivadas a expor a denúncia à autoridade civil”, explicou o padre ao jornalista Tosati, mas muitas vezes as vítimas não querem se expor a tal constrangimento. Enquanto nos casos de abuso “civil” a maioria das vítimas tem idade inferior aos 10 anos (30% do sexo masculino), nos casos que envolvem pessoas da Igreja a idade mais frequente das denúncias se refere a vítimas com de 15 a 17 anos, sendo 90% meninos.

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O problema da pedofilia e a crise da Igreja Católica na Irlanda

Primeiro-ministro irlandês é um crítico feroz da Igreja

Muito se falou sobre os escândalos de pedofilia promovidos por membros da Igreja Católica na Irlanda, mas como ficou a situação por lá?

O Vaticano divulgou ontem um relatório que resume sua análise sobre os principais problemas da Igreja no país, observados após uma visita apostólica – investigação aprofundada feita por diversas equipes do Vaticano, por ordem do Papa Bento XVI. O objetivo é “assistir a Igreja local em seu caminho de renovação”, segundo o Papa.

O site Catholic Culture publicou um bom texto sobre essa questão, que nos inspirou a tentar explicar neste post como anda a crise da Igreja Católica na Irlanda.

Acredita-se que entre 1930 e 1990, milhares de crianças tenham sido vítimas de abuso sexual por membros da Igreja na Irlanda. Foi um fenômeno aparentemente inexplicável. As evidências mostram que muitos bispos ou superiores religiosos fracassaram no combate à pedofilia, muitas vezes protegendo padres acusados, acobertando sinais claros de má conduta ou fingindo que não viram. Há rumores de que autoridades do Vaticano tenham estimulado essa atitude dos bispos, embora não se tenham nomes.

Conforme recorda o Catholic Culture, em carta enviada à Igreja irlandesa em 2009, o Papa Bento XVI expressou “horror” diante dessa questão e do que diz respeito “a esses atos pecaminosos e criminosos que foram a raiz dessa crise particular”. Por isso, vários bispos e padres irlandeses foram afastados ou renunciaram – mas isso só ocorreu infelizmente depois do escândalo.

Também foi o problema da pedofilia que provocou o fechamento da embaixada da Irlanda no Vaticano, como uma forma de punição ao que considerou uma fraca resposta da Santa Sé (embora o governo não reconheça isso formalmente e diga que foi um corte de gastos). O primeiro-ministro irlandês, Enda Kennyfez uma crítica feroz à Igreja de Roma, dizendo que ela estava mais preocupada com sua reputação do que com a solução do problema dos abusos sexuais.

De qualquer forma, o problema está sendo investigado e, como indica o relatório recém-divulgado, a Igreja atribuiu a crise principalmente à má formação dos sacerdotes e à falta de regras de conduta. Isso ocorre tanto nos seminários quanto nas ordens religiosas, segundo o relatório do Vaticano.

Para melhorar tal aspecto, diz o texto, é necessário “garantir que a formação fornecida seja enraizada na autêntica identidade sacerdotal, oferecendo uma preparação sistemática para a vida de celibato sacerdotal, mantendo um equilíbrio apropriado entre as dimensões humana, espiritual e eclesial”. Essa ideia resume todas as outras.

Mas, além disso, propõe-se maior governança dos bispos nos seminários; critérios mais rigorosos para admissão dos candidatos ao sacerdócio; maior preocupação com a formação intelectual, em conformidade com o Magistério da Igreja; garantir que os prédios de seminários sejam exclusivos para os seminaristas, para que a “identidade sacerdotal” seja bem fundada; reavaliar os programas pastorais, dedicando maior preocupação com a preparação dos sacramentos e das orações.

Conforme o documento, os superiores de congregações religiosas devem se aliar aos bispos nessa reestruturação, “revitalizando os instrumentos de diálogo e comunhão”. Podemos dizer que essa crítica se deve ao fato de que, em muitos lugares, a relação entre os superiores religiosos e os bispos é meramente burocrática, para nomeações e autorizações formais, havendo pouca interação e identificação entre eles. Na prática acabam atuando de forma independente, o que pode causar problemas de falta de supervisão ou de autoridade.

Em âmbito pastoral, recomenda-se também uma maior atenção às vítimas de abuso sexual e às suas famílias. Nesse sentido, o relatório elogia iniciativas com a Câmara Nacional para Proteção Infantil na Igreja Católica (NBSCCC), organismo autônomo criado em 2006 pelos católicos irlandeses para promover políticas que impeçam os abusos sexuais. Também importante: o relatório pede o desenvolvimento de normas para lidar com casos em que os padres são claramente culpados, mas não condenados pelas autoridades civis; e também para reabilitar o ministério de padres falsamente acusados.

Cardeal irlandês Seán Brady, de Armagh

Grupos de defesa das vítimas de abuso sexual se pronunciaram afirmando que o relatório não é suficiente – segundo o próprio texto do Catholic Culture. Porta-vozes das vítimas dizem que o Vaticano é responsável por criar uma cultura de proteção aos membros do clero.

De fato, a resposta prática ainda é insuficiente. Mas o documento mostra que há uma preocupação real da Igreja com relação à pedofilia e o reconhecimento (ainda que tardio) de que houve erros graves na forma como lidou com problema. Em coletiva de imprensa em Dublin, o cardeal Seán Brady, que apresentou o relatório, disse que a Igreja “expressa verdadeira tristeza e pesar” e que faz “um apelo sincero de perdão junto às vítimas e a Deus, por esses terríveis crimes e pecados”.

Vale lembrar que os abusos sexuais, de qualquer tipo, são considerados crimes há pouco tempo na maioria dos países – em alguns sequer há legislação específica que atenda a esses casos -, o que não justifica a falta grave, mas dificulta o combate e a condenação dos criminosos, que estão em todos os lugares, não só nas igrejas.

Fato é que, como disse o Papa João Paulo II, citado no relatório dos observadores do Vaticano, “não há lugar no sacerdócio e na vida religiosa para aqueles que desejam prejudicar os jovens”. Agora, avança-se lentamente para colocar isso em prática.

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‘Anonymous’ enfim derrubam site do Vaticano

Máscara de Guy Fawkes

Depois de ao menos uma tentativa fracassada de tirar do ar o site do Vaticano (Vatican.va), hoje finalmente o grupo de hackers “Anonymous” conseguiu fazê-lo. Não descobri por quanto tempo o site ficou offline, mas pude verificar que certamente por pelo menos umas três ou quatro horas, talvez mais.

Mas a grande questão aí não é tanto o fato de o grupo ter conseguido tirar do ar o site, pois isso aconteceu também com grandes bancos, empresas e governos – o mais impactante até agora parece ter sido o bloqueio do site da Agência de Inteligência dos Estados Unidos (CIA).

O mais interessante nessa história é o comunicado divulgado pelos Anonymous contra a Igreja, no qual dizem que a intenção do ataque foi penalizar “a corrupta Igreja Católica Romana e todas as suas emanações”. Vamos analisar essa questão, que, para quem tem algum conhecimento sobre as coisas da Igreja (não é preciso nem ser católico), expõe certa ingenuidade por parte dos Anonymous.

No texto do site do movimento, direcionado à Igreja, o grupo diz o ataque foi uma resposta “às suas doutrinas, liturgias e preceitos absurdos e anacrônicos que sua organização lucrativa propaga e espalha pelo mundo”. O ataque também é atribuído à ação da Igreja durante a Inquisição, à queima de livros, “à escravidão de populações usando como pretexto a missão de evangelização”, à suposta ajuda a “criminosos de guerra nazistas”, ao abuso de crianças, à interferência na vida pública da Itália, às propriedades eclesiais de “bilhões de euros”, à recusa de “práticas e objetos resultantes do progresso como preservativos ou o aborto como um problema clínico a se erradicar”. E para amenizar um pouco eles dizem que “NÃO pretendem atacar a verdadeira religião cristã e a fé pelo mundo, mas a Igreja Apostólica Romana e todas as suas emanações”.

Seria impossível detalhar aqui todas as “respostas” oficiais da Igreja a cada uma dessas acusações, mas é possível encontrá-las por aí na internet. De qualquer forma, vemos que não há nada de novo aqui. Os Anonymous usaram como justificativa para o ataque praticamente todos os problemas da História da Igreja, que naturalmente são muitos porque se trata de uma das instituições mais antigas de nossa sociedade.

O primeiro "Anonymous" era católico

Uma resposta meio geral, e que a Igreja costuma repetir, é que se trata de uma instituição formada por seres humanos e estes são passíveis de erros. Isso não justifica os erros, mas explica porque eles acontecem. É simplesmente impossível que uma entidade tão grande e tão capilarizada tenha o controle sobre a atuação de todos os seus membros. Mesmo assim, a Igreja sobreviveu a tantas baixas e já mais de uma vez reconheceu os erros do passado.

Bem, mas os Anonymous são ingênuos basicamente por cinco motivos.

Primeiro, porque condenam a Igreja de hoje pelos erros que a Igreja do passado cometeu. Embora seja a mesma Igreja, as pessoas que a compõem são outras. Mudaram como mudam as gerações. Seria o mesmo que punir um filho pelos crimes que seu pai ou seu avô cometeram no passado. E não podemos mudar a História. Além disso, ignoram o Concílio Vaticano II, quando muita coisa mudou e deu uma nova cara para a Igreja.

Segundo, porque os erros do presente – como a pedofilia – temos de avaliar como parte de problemas de nossa sociedade como um todo, e não só da Igreja. A pedofilia e os crimes sexuais são um problema mais amplo, em uma sociedade em que o sexo está cada vez mais exposto, a internet é um ambiente de criminalidade sem punição e em que os distúrbios mentais (não sei se é assim que se fala) são muito, muito complexos. E, de novo, os erros de membros da Igreja não representam toda a instituição. As falhas existem e mudanças para corrigi-las ocorrem lentamente. Neste post, já falamos um pouco sobre isso.

Terceiro, porque os Anonymous condenam também coisas sobre a Igreja que não são exatamente erros ou problemas. Uma dessas coisas é o fato de a Igreja ter propriedades. Vale lembrar que as propriedades da Igreja não estão no nome de um único instituto, mas são de várias entidades católicas, a maioria sem fins lucrativos e devidamente documentadas junto aos governos. Há inúmeras dioceses e congregações religiosas, por exemplo. Uma outra coisa que não é um erro propriamente dito são os posicionamentos da Igreja sobre questões de sexualidade, preservativos, aborto, etc. São posições, visões de mundo, das quais podemos discordar ou concordar, mas que são coerentes. Pensar assim não é um crime como a pedofilia, por exemplo.

Arte cristã primitiva

Assim, ao derrubar o site do Vaticano, os Anonymous simplesmente tentam suprimir a Igreja por ter posições diferentes das suas, fazendo exatamente aquilo que condenam na Igreja e no mundo. É como punir um assassinato com pena de morte.

Quarto, porque os Anonymous têm como símbolo a máscara que representa Guy Fawkes (e não do “V de Vingança”) um inglês católico que conspirou contra a coroa britânica no século XVII. Provavelmente muitos hackers não sabem disso.

Enfim, a manifestação dos Anonymous está feita. Talvez tenha faltado um pouco de objetividade dos Anonymous ao justificar o protesto. Querendo abranger tudo, na verdade eles demonstraram um conhecimento superficial sobre as coisas da Igreja, repetindo críticas já conhecidas e muitas vezes respondidas.

Também mostraram a falta de foco do movimento. Isso fica claro quando eles isentam a “verdadeira religião cristã” de seus ataques. Só não dizem de onde pensam que veio essa “verdadeira religião” se não dos primeiros cristãos, que constituíram a Igreja que hoje chamamos de Católica. Esse é o quinto motivo.

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Advogado retira processo contra Bento XVI relacionado à pedofilia nos EUA

Jeffrey Anderson

O advogado norte-americano Jeffrey Anderson, conhecido por defender vítimas de abusos sexuais por membros da Igreja nos Estados Unidos, retirou o processo que mantinha na Justiça estadual acusando o Papa Bento XVI de acobertar casos de pedofilia ocorridos na Arquidiocese de Milwaukee. Vale explicar o caso (que é bem complexo).

Segundo Anderson, que havia feito grande alarde no começo do processo, em março de 2010, convocando coletivas de imprensa que resultaram inclusive nesta polêmica reportagem no jornal The New York Times, o motivo de ter dado o passo atrás é o fato de ter obtido decisão favorável a ele em um outro processo na Justiça federal – mas este contra a Arquidiocese (que pediu falência). Ele também admitiu que os impedimentos legais eram enormes para levar adiante a ação – fico tentando adivinhar que tipo de “pena” poderia surgir no Estado de Milwaukee contra um Papa, mas enfim…

O advogado que defendeu o Vaticano, Jeffrey Lena, disse que Anderson percebeu que não conseguiria responder à altura o pedido de arquivamento do processo apresentado pela Igreja. Anderson havia solicitado ao juiz permissão para justificar as acusações em duas partes, uma envolvendo questões de jurisdição (isto é, relacionar as normas do Direito Civil com as do Direito Canônico, que são as leis que regem o funcionamento da Igreja) e outra com as acusações em si. Mas o juiz rejeitou isso e pediu uma única resposta com as duas coisas juntas, o que Anderson não foi capaz de fazer por falta de argumentos, de acordo com Lena.

Fato é que o processo foi retirado. Mas o importante aqui é notar como as coisas são mais complicadas do que pensamos.

Esse processo se referia ao falecido padre Lawrence Murphy, que teria abusado sexualmente de 200 meninos, entre 1950 e 1974, em Milwaukee. O Vaticano reconhece que Murphy cometeu os crimes. O advogado das vítimas acusava o cardeal Joseph Ratzinger (hoje o Papa Bento XVI) de ter conhecimento dos delitos e os acobertar enquanto liderou a Congregação para a Doutrina da Fé – órgão responsável por avaliar eventuais punições administrativas para esse tipo de caso entre tantas outras coisas. Anderson alegava que isso teria ocorrido por meio documento secreto Crimen sollicitationis, de 1922, reeditado em 1962, que contém orientações para bispos sobre como proceder quando houver assédio durante o sacramento da confissão (que é altamente sigiloso). Murphy teria cometido esse grave delito. Anderson dizia, entre outros argumentos, que o Crimen impediu os bispos de informarem as autoridades civis sobre os crimes.

Já Lena afirma que o Crimen se refere a obrigações canônicas, e não civis, de modo que nunca impediu os bispos de informarem a polícia, por exemplo. Além disso, o Crimen já articulava sobre esses procedimentos muito antes de existirem leis civis específicas para tais crimes. O advogado pondera que o Vaticano não é o responsável imediato por cada um dos 400 mil padres do mundo, mas sim seus bispos e arcebispos diretos. Aliás, hoje a recomendação da Igreja aos bispos é justamente que as autoridades civis sejam informadas.

O Vaticano argumenta, ainda, que  só ficou sabendo do problema 20 anos depois, já que as autoridades civis arquivaram denúncias contra Murphy naquela ocasião. O porta-voz Pe. Federico Lombardi sustenta que não existem punições automáticas para esses crimes nas leis da Igreja e que, no caso do Pe. Murphy, não houve uma penalidade eclesial porque o padre já era idoso, bastante doente e vivia isolado. Murphy morreu quatro meses depois da notificação ao Vaticano.

Vale lembrar que alguns membros da Igreja realmente erraram feio no que diz respeito aos casos de pedofilia, ao fechar os olhos para eles – e a Igreja não nega isso. Um grande problema aí parece ser o fato de que, durante muitos anos, faltou uma diretriz clara sobre como os bispos devem agir em todos os casos de abuso sexual. Mas isso mudou. Não é à toa que, recentemente, ocorreu o primeiro Simpósio em Roma sobre o combate à pedofilia.

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