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Bento XVI vive como um monge e reza todos os dias por cristãos do Oriente

Vida de aposentado (com o Arcebispo Georg Gänswein)

Bento XVI ainda é notícia. Durante visita de patriarcas do Oriente, em 29 de novembro, o Papa Emérito revelou que reza todos os dias pelos cristãos que vivem naquela região. O patriarca caldeu e Arcebispo de Bagdá, Dom Raphael Louis Sako, relatou à agência AsiaNews alguns momentos do encontro, que ocorreu no mosteiro Mater Ecclesiae, no Vaticano, onde Bento XVI decidiu morar após sua aposentadoria.

“Tivemos um encontro amigável. Perguntamos a ele sobre sua saúde e ele nos perguntou sobre o Oriente Médio e a situação dos cristãos orientais”, contou Dom Sako. Segundo ele, os patriarcas brincaram com o Papa Emérito quando o viram: “Santidade, nós viemos do nosso hotel sob chuva, como peregrinos, e por isso merecemos uma bênção especial e uma oração especial pelo Iraque.” Depois disso, Bento XVI teria respondido: “Rezo pelo Iraque, pela Síria e pelo resto do Oriente todos os dias.”

O arcebispo contou, ainda, que convidou o Papa Emérito a visitar o Iraque, mas ele teria recusado o convite, recordando: “Estou ficando velho e sou um monge que decidiu passar o resto de seu tempo em oração e descanso”, relata a AsiaNews. Alguns dias antes, o Papa Francisco teria prometido uma visita ao Iraque, segundo informou o arcebispo à agência asiática.

Um mundo com dois Papas

Para recordar – A última vez em que Bento XVI apareceu em público foi ao lado do Papa Francisco, em julho de 2013, para uma breve cerimônia de consagração da Cidade do Vaticano a São José e São Miguel Arcanjo, com a bênção de uma imagem. Conforme informaram os vaticanistas na época, ele foi convidado pessoalmente por Francisco e, após relutar um pouco, aceitou participar da inauguração da estátua, pois o projeto começou durante seu pontificado.

Mas sua manifestação pública mais recente foi quando, em 24 de setembro, o jornal italiano La Repubblica publicou uma carta-resposta de Bento XVI ao matemático e ensaísta Piergiorgio Odifreddi, que criticou a obra do pontífice emérito sobre a vida de Jesus. No texto, agradeceu a crítica e respondeu aos pontos com os quais discordava. Concentrou-se, portanto, no debate teológico com o autor.

O Papa Emérito, de 86 anos, continua recebendo discretas visitas. O Vaticano procura não falar sobre ele, mas acredita-se que esteja em boas condições de saúde. De qualquer forma, Joseph Ratzinger tem evitado interferir no pontificado de Francisco, como havia anunciado no momento da renúncia. Antes da eleição de Francisco, Bento XVI prometeu obediência ao novo Papa que estava por vir. E, logo no início do pontificado do Papa argentino, observou que “teologicamente” estava de acordo com tudo o que Francisco vinha fazendo. Sobre seu novo estilo de vida, em junho deste ano declarou ao jornalista alemão Manfred Lütz: “Estou bem e vivo como um monge.”

Bento XVI e o então Cardeal Bergoglio, no Brasil

Um mundo com dois Papas – Antes da eleição de Francisco, existia uma grande preocupação entre membros da Igreja e entre a imprensa que acompanha os assuntos do Vaticano a respeito de como seria um mundo com dois Papas. Seriam necessárias novas regras? Novos títulos para o Papa aposentado? Manteria o nome ou voltaria a ser só Joseph Ratzinger? Como ele iria se vestir? Receberia ordens do novo pontífice? Poderia continuar escrevendo livros, dando conferências? Ainda que Bento XVI tenha prometido não intervir, como se sentiria o novo Papa sabendo que seu antecessor ainda estava vivo e presente dentro do Vaticano?

Porém, a situação tem sido muito mais tranquila do que se imaginava. Bento XVI mantém enorme discrição, como anunciado antes. Não aparece sem ser convidado e respeita Francisco desde sempre: “O senhor é o Papa, o senhor é o Papa!”, alertou a Francisco no primeiro encontro dos dois após a eleição, em Castel Gandolfo, quando Bergoglio se recusou a ajoelhar-se em um lugar de honra. Por fim, ajoelhados lado a lado, os dois rezaram juntos.

Por sua vez, Francisco, que já visitou Bento XVI em diversas ocasiões, assumiu com naturalidade que seria pouco inteligente não consultar o Papa Emérito quando necessário. E certamente não avisa antes de telefonar. Afinal, ele é como um “avô sábio”, definiu.

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‘Estou bem e vivo como um monge’, diz Bento XVI a jornalista alemão

Francisco dá boas-vindas a Bento XVI na residência Mater Ecclesiae, no Vaticano

Francisco deu boas-vindas a Bento XVI na residência Mater Ecclesiae, no Vaticano

O Papa emérito Bento XVI encontrou o jornalista alemão Manfred Lütz por alguns minutos na última semana e afirmou estar bem em sua nova residência, o mosteiro Mater Ecclesiae, localizado dentro do território do Vaticano. Após sua renúncia, anunciada em 11 de fevereiro de 2013, ele declarou que buscaria se esconder do mundo, pois seu vigor “quer do corpo quer do espírito” havia diminuído com a idade avançada. Bento XVI disse que se tornaria apenas mais um “peregrino” no mundo e estaria unido à Igreja em oração, apoiando sempre o novo Papa.

“Eu vivo como um monge e estou bem. Rezo e leio”, teria dito o Papa emérito, conforme o vídeo da agência Rome Reports (veja abaixo). Lütz noticiou seu encontro com Bento XVI no jornal alemão Bild Zeitung. Segundo o jornalista, o Papa está bem mais magro e com postura bastante curvada, mas mantém muito bom humor e total lucidez. O jornal informa, ainda, que Bento XVI manifestou estar totalmente de acordo com o magistério do Papa Francisco, do ponto de vista teológico.

Há cerca de um mês, o cardeal Joachim Meisner, Arcebispo de Colônia (Alemanha), também se reuniu com Bento XVI, ainda na residência de verão, em Castel Gandolfo, e se disse muito surpreso com a perda de peso do Papa emérito. “Ele parecia ter a metade do tamanho. No começo não concordei com sua renúncia, mas quando eu o vi minhas objeções se desmontaram. Mentalmente, no entanto, ele está muito bem, continua o mesmo.”

Alguns jornalistas que cobrem assuntos do Vaticano comentam que a saúde de Bento XVI se deteriorou rapidamente nos últimos dois meses e meio, depois que ele deixou o papado – o que pode ser notado no primeiro encontro entre Bento XVI e Francisco após a eleição do novo Papa. Algumas pessoas da Igreja ponderam que é alarmista especular sobre a saúde do Papa emérito, pois ele está em ótimas condições para uma pessoa de 86 anos.

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Uma geral sobre a renúncia do Papa, o conclave e os problemas na Igreja

papa-bento-XVI-233Como era de se esperar, a renúncia do Papa Bento XVI tem provocado muita especulação. Queremos neste post tentar organizar um pouco certas ideias e, sem grandes pretensões, na medida do possível, formar uma base para que o leitor possa pensar melhor sobre o que está acontecendo, num momento tão único e delicado para a Igreja Católica.

Como dizemos na descrição deste blog, o mundo é mais complexo do que gostaríamos. Nem tudo são flores, mas tampouco é o fim do mundo ou da Igreja – pelo contrário. O post está longo, porque o tema é grande. Por isso, dividimos o texto em 5 tópicos curtos, para facilitar sua leitura:

A RENÚNCIA – O que vimos foi um fato histórico: a última vez que um Papa renunciou foi há quase 600 anos. E, como todo fato histórico, não aconteceu de uma hora para outra. Foi uma decisão pessoal e livre. Evidência: como já havíamos dito em março de 2012, a saúde de Bento XVI é frágil e ele, que tem 85 anos, há muito tempo considerava essa possibilidade. Bento XVI disse há mais de dois anos que não hesitaria em fazê-lo caso não se sentisse em condições “físicas, psicológicas e espirituais” para ser Papa. Ele governará a Igreja até as 20 horas de 28 de fevereiro de 2013.

Agora, duas semanas após o anúncio, ficou mais claro que nenhum fato específico levou o Papa à decisão, mas sim toda uma conjuntura, uma série de fatores, que aos poucos o fizeram perceber que o “ministério petrino” (referência ao apóstolo Pedro) se tornou pesado demais. Entre eles: a rotina intensa de reuniões, celebrações, viagens longas, preparação de documentos, nomeações, aparições públicas, etc; os grandes desafios que a Igreja enfrenta no mundo, como a secularização, o distanciamento dos jovens, o crescimento dos grupos evangélicos, dificuldades no diálogo com outras religiões; e os recentes escândalos, como a divulgação de documentos sigilosos (VatiLeaks), a corrupção em obras da Igreja, a pedofilia praticada por membros do clero, as disputas de poder na Cúria Romana…

imageangelos873Para lidar com tudo isso, “é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado”, afirmou Bento XVI no momento da renúncia. Ou seja, não foi só o cansaço físico, nem só problemas de saúde, nem só os escândalos, nem só disputas de poder. O Papa está ciente de que a Igreja precisa de um líder com mais disposição e mais força para enfrentar todos esses grandes desafios, que vão da Nova Evangelização até os problemas estruturais. Enfim, Bento XVI afirmou na Quarta-Feira de Cinzas que a Igreja precisa ser “verdadeiramente renovada”.

Fato é que a renúncia abre um precedente histórico, segundo o vaticanista italiano Andrea Tornielli (leia mais aqui). Outros haviam pensado em renunciar no passado – como João Paulo II, por exemplo – mas nunca o fizeram porque temiam que o papado pudesse perder força, como instituição. Temiam ser mal interpretados e abrir as portas para outras renúncias inadequadas ou até golpes contra o sumo-pontífice. Mas, consciente de que não seria mais de capaz de responder à altura a necessidades urgentes, Bento XVI renunciou “para o bem da Igreja”. Para os próximos Papas, certamente fica mais fácil fazer o mesmo se for preciso.  Não se sabe que efeitos isso terá no futuro, mas sabe-se que Bento XVI reagiu de forma corajosa e nova, num mundo que exige respostas novas a problemas novos.

Outros Papas idosos também cogitaram renunciar

Outros Papas também cogitaram renunciar

DIVISÕES NA IGREJA – Já mencionamos alguns dos principais desafios da Igreja atualmente. Mas um dos problemas sobre os quais mais se falam por aí são as disputas internas. Como já dissemos, elas são relevantes, mas não são a única causa para a renúncia.

De qualquer forma, basta observar as mensagens do Papa Bento XVI nas últimas semanas de pontificado para ver que esse problema não é para ser ignorado, nem por seu sucessor nem pela sociedade. Numa mensagem para todos os fiéis do mundo, ele criticou o que chamou de “hipocrisia religiosa” e a instrumentalização da fé para benefício pessoal, praticadas por alguns membros do clero. São essas algumas de suas maiores preocupações.

Por quê? Porque Bento XVI tentou fazer grandes reformas na estrutura e na administração da Igreja e, de fato, conseguiu melhorar muita coisa. As maiores delas foram a criação de padrões para combater a pedofilia e uma mudança de comportamento em relação ao problema. Existem documentos claros sobre como evitar e agir nessas situações, como atender as vítimas, etc. Também foi ele quem começou a reformar o sistema financeiro do Vaticano, adaptando-o aos padrões internacionais – reforma importantíssima sobre a qual já falamos detalhadamente (Leia mais).

Porém, em ambos os casos há muita coisa ainda só no papel. Quando se fala em mexer em estruturas antigas e consolidadas, é previsto que exista forte resistência interna. Portanto, o Papa fez o que podia fazer e preferiu deixar o caminho livre para alguém com mais vigor, inclusive politicamente. Com sua saída, um governo novo pode chegar, possibilitando melhorias mais radicais.

INVESTIGAÇÃO VATILEAKS – Outro assunto importante que está circulando hoje diz respeito à comissão de cardeais que investigou o vazamento de documentos sigilosos do Papa e do Vaticano, nomeada por Bento XVI. Esses cardeais se reuniram com o Papa e ficou decidido que o relatório final da investigação, sigiloso, não será divulgado aos cardeais eleitores, mas apenas ao novo pontífice. A imprensa italiana – mais especificamente a revista Panorama e o jornal La Reppublica – publicaram fortes reportagens sobre esse assunto nas últimas semanas, dizendo que o conteúdo dos documentos envolve problemas como corrupção e prostituição praticadas por membros da Cúria Romana. Bento XVI e os cardeais da comissão, conscientes da complexidade do problema e de que não dá para resolver só com documentos, decidiram que somente um novo Papa terá os instrumentos necessários para resolver tudo isso. 

downloadconclave333CONCLAVE – Nesse grande contexto, ainda não se sabe ao certo o que os cardeais eleitores querem para o futuro da Igreja. Agora eles são 116, depois da desistência de um cardeal indonésio, por doença, e da renúncia de um cardeal inglês, por ter supostamente mantido relações pessoais inapropriadas. De qualquer forma, o que se fala em Roma é que muito provavelmente o próximo Papa será um sexagenário ou, no máximo, alguém que está na casa dos 70 anos. Afinal, não faria muito sentido eleger um Papa muito velho depois da renúncia de um Papa idoso.

A grande notícia hoje foi o fato de que Bento XVI mudou algumas regras para o conclave, reunião em que se elege o novo Papa. Ele deixou aberta a opção para que os cardeais decidam se querem antecipar ou não o início da votação. De acordo com a norma anterior, elaborada por João Paulo II em 1996, o conclave só poderia começar depois de 15 dias do início da chamada sede vacante, isto é, o período em que não se tem um Papa e a Igreja é governada pelo colégio de cardeais. O objetivo da regra original era permitir que todos os cardeais pudessem chegar a Roma em tempo para a votação.

Alguns cardeais preferem iniciar logo o conclave, já no início de março, considerando que desta vez não houve a morte de um Papa e, portanto, todos os eleitores já sabem há duas semanas que terão de estar em Roma. Assim, haveria um Papa novo antes da Páscoa. Tampouco há necessidade de realizar funerais, pois o antigo Papa está vivo. Por outro lado, outros cardeais querem chegar a Roma com calma e ter tempo de conversar com todo mundo, ver o que está acontecendo e o que os outros acham. Temem que apressar o conclave possa favorecer a eleição de “nomes prontos”, ou seja, uma eleição com pouca reflexão, meio no piloto automático, que acabaria levando ao trono de bate e pronto um dos favoritos ao papado. Talvez encontrem um meio termo nessa questão do tempo.

A IMPRENSA –  Realmente alguns representantes da imprensa internacional estão exagerando na especulação neste momento  – esquecendo princípios básicos do jornalismo – e aproveitando a chance para mostrar todos os problemas da Igreja. Vale lembrar também que grandes veículos de comunicação têm lá seus grandes proprietários com seus grandes objetivos.

A imprensa, que atualmente funciona a mil quilômetros por hora, com poucos recursos e jornalistas muitas vezes mal informados, quer a cada segundo revelar algo novo. Acaba se esbaforindo e deixando de lado o compromisso de se ater aos fatos, e não aos boatos, às intrigas internas, às fontes duvidosas.

Por outro lado, também a Igreja, como instituição, ainda não aprendeu a lidar com um mundo em que a informação corre rapidamente e onde, se a informação não for divulgada por vias oficiais, pode acabar sendo divulgada por vias paralelas.

images-salastampaExemplo: coisas aparentemente pequenas, como a cirurgia de rotina que Bento XVI fez no coração para trocar a bateria de seu marca passo, viraram grandes especulações internacionais porque o Vaticano não divulgou essa informação no momento oportuno, há meses.

Enfim, temos aí uma relação delicada entre duas instituições que veem o mundo de forma totalmente diversa. A Igreja, busca uma visão mais intelectual, refletida, espiritual, organizada e lenta; a Imprensa quer uma visão mais materialista, prática, objetiva, quantificada, secular e rápida. Esse descompasso não é novo e ainda vai dar muito problema no futuro.

De qualquer forma, apesar de todos os problemas e especulações aparentemente negativas com relação à Igreja, o momento pode ser altamente favorável. Se os cardeais eleitores souberem aproveitar os limões para fazer limonada, uma grande mudança positiva para a Igreja e para o mundo pode estar por vir. A Igreja tem uma chance única de iniciar novas reformas estruturais com um novo pontificado mais moderno na forma – já sobre o conteúdo não cabe a nós discutir aqui, mas aos filósofos, teólogos, religiosos, etc.

Talvez seja a hora de aparecer um líder com experiência administrativa e pastoral. Talvez alguém com um olhar  diferente, moderno, com soluções inovadoras e criativas. Talvez.

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Quem elege o novo Papa?

Todos os cardeais com menos de 80 anos podem votar no conclave que elegerá o novo Papa. Após a renúncia de Bento XVI, que será oficializada no dia 28 de fevereiro de 2013, às 20 horas, começa a chamada “sede vacante”, período em que a Igreja fica sem um Papa. A partir daí, convoca-se o conclave para escolher o novo “sucessor do apóstolo Pedro”.

Atualmente, são 117 os cardeais habilitados a participar do conclave (cinco brasileiros). Mas o número pode aumentar, caso o Papa Bento XVI anuncie a criação de novos cardeais ainda nesta semana – entre eles há grandes chances de entrar o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, já que o emérito Dom Eusébio Scheid atingiu a idade limite.

Segue abaixo a lista com todos eles – que pegamos no facebook da Conferência Episcopal dos Estados Unidos. Teoricamente, qualquer um pode ser eleito, mas nos últimos 600 anos mais ou menos, os cardeais sempre escolheram entre eles o novo Papa. Muito provavelmente será um dos nomes abaixo. Clique nas imagens para ampliar.

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‘Papas não renunciaram por temerem tendência perigosa’, diz vaticanista

Filipe Domingues, especial para O Estado de S. Paulo

Andrea Tornielli, vaticanista italiano do jornal La Stampa e autor de vários livros sobre personagens do catolicismo

Andrea Tornielli, vaticanista italiano do jornal La Stampa e autor de vários livros sobre personagens do catolicismo

Bento XVI não é o primeiro papa das últimas décadas a considerar a possibilidade de renunciar, mas nenhum deles deixou o papado porque temia abrir um “perigoso precedente”, avalia o vaticanista Andrea Tornielli, que trabalha para o jornal italiano La Stampa.

Em entrevista exclusiva ao Estado, Tornielli afirma que os maiores desafios do sucessor de Bento XVI serão “falar com o mundo” e “reformar a Cúria Romana”. Leia a seguir os principais trechos da conversa, realizada no saguão da sala de imprensa do Vaticano.

Após a surpresa diante do anúncio da renúncia de Bento XVI, a grande pergunta que as pessoas passaram a fazer é: Quais motivos levaram o papa a tomar essa decisão? Ele disse mais de uma vez que foi uma conclusão pessoal. Mas, em sua opinião, a decisão foi mais política ou por motivos de saúde?

Acredito que é necessário se ater àquilo que o papa diz a respeito da sua condição física. Porém, certamente, como papa, ele precisa não somente do vigor físico, mas também do ânimo. Creio que os fatos que ocorreram nos últimos anos no Vaticano tenham um peso. Porém, acredito que é necessário olhar a coisa com um ponto de vista global. Portanto, existe essa questão do cansaço físico e existe também, creio eu, um reconhecimento de que a situação é tal que ele não se sente mais em condições de poder responder.

Bento XVI foi o primeiro Papa a renunciar em quase 600 anos

Bento XVI foi o primeiro Papa a renunciar em quase 600 anos

As mensagens do papa nos últimos dias foram muito fortes, pedindo unidade na Igreja e o fim da “hipocrisia religiosa”. Elas se referem ao contexto e aos problemas atuais da Igreja?

Eu acredito que sim. Na mensagem que transmitiu na homilia da Quaresma, ele disse que existem também os riscos, essas divisões dentro da Igreja. Portanto, isso é um tema importante para o futuro da Igreja.

Essas mensagens são destinadas a algum grupo específico, como a Cúria Romana?

Creio que não. Creio que seja para toda a Igreja. É claro que existem aqueles que fomentam as divisões, isto é, aquelas pessoas que fazem as divisões aumentarem, mas há também quem, em vez disso, procure reunir. No entanto, não há necessariamente um objetivo preciso nas mensagens. Na minha opinião, o papa fala também à Cúria Romana, que nos últimos anos não deu uma bela demonstração de unidade.

A última renúncia papal ocorreu há quase 600 anos e nos últimos pontificados outros papas quiseram renunciar, mas não o fizeram. Qual é a diferença entre aqueles momentos e a situação atual da Igreja?

Já haviam pensado sobre a renúncia Pio XII, João XXIII… Tantos pensaram sobre a renúncia por causa de questões de saúde, doenças. Paulo VI também chegou a pensar na aposentaria, por causa da idade. A única diferença agora é justamente que esses papas do passado haviam pensado sobre a renúncia, mas nunca renunciaram. Temiam abrir um perigoso precedente. Bento XVI, ao contrário, renunciou. Essa é a grande novidade histórica. A diferença é que Bento XVI renunciou. Ele teve coragem e fez tudo de forma bastante histórica.

Então Bento XVI pode ter aberto um precedente para os próximos papas?

Certamente é um grande precedente.

Qual é exatamente a relação entre o papa Bento XVI e o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano? Bertone é apontado por alguns no Vaticano como um detentor de poder paralelo, mas o papa sempre o manteve no cargo.

Mesmo com seus limites, Cardeal Bertone é homem de confiança de Bento XVI

Mesmo com seus limites, Cardeal Bertone é homem de confiança de Bento XVI

Bertone é atacado e está no centro de tantas polêmicas. Seguramente, a Cúria e a Secretaria de Estado do Vaticano sob o cardeal Bertone cometeram muitos erros. Isso tudo é verdade. Porém, o papa, no fim das contas, sempre confiou em Bertone. O cardeal sempre foi uma figura de confiança para o papa. E por isso o papa vem sempre renovando sinais de confiança, apesar dos limites de Bertone.

Quais são os desafios do próximo papa?

O maior desafio é falar com o mundo. A Igreja precisa de um papa que fale para o mundo, também para fora da Igreja, e anuncie o Evangelho como uma mensagem positiva. É a nova resposta, a nova evangelização. E, depois, uma reforma da Cúria Romana. Uma reforma séria que transforme a Cúria Romana em algo mais simples.

E sobre a questão da liturgia?

Para promover unidade na Igreja e acolher fiéis tradicionalistas, que preferem a missa antiga, em latim, Bento XVI planejava reformar aspectos da liturgia católica. A liturgia é uma das coisas que Ratzinger queria fazer. Seria a reforma da reforma. Porém, essa era uma coisa de Ratzinger. Não sei se o novo papa vai querer fazer.

Outras reformas são discutidas na Igreja, como o celibato dos padres e o sacerdócio feminino. Existirá espaço para pensar sobre isso no novo pontificado?

Eu creio que é preciso fazer uma distinção sobre os temas do celibato dos padres e o sacerdócio feminino, pois ambas as coisas são questões muito clericais, que não se referem verdadeiramente à realidade da Igreja. E, mesmo mudando as normas da Igreja – sobre o celibato dos padres é possível fazer, já sobre o sacerdócio feminino é um pouco mais difícil -, não significa que as pessoas vão voltar à missa. Não significa que as pessoas vão frequentar a missa porque o padre é casado e tem filhos. As pessoas não voltam para a Igreja porque atrás do altar tem uma mulher. As confissões cristãs que fizeram isso não mudaram em nada o problema da secularização. A Igreja Anglicana perdeu e continua perdendo fiéis. Porque isso é uma prioridade clerical, ou seja, para o clero. Hoje, é necessária uma virada não clerical. Um outro discurso, por outro lado, é o tema do cisma silencioso dos divorciados e novamente casados. Evidentemente, como já disse o papa, é preciso procurar um modo de fazer com que eles não se sintam excluídos da Igreja. É preciso pensar em como anunciar o cristianismo de maneira positiva e propositiva.

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Bento XVI diz ao povo que Bertone fica

O Papa Bento XVI manifestou ontem, mais uma vez, seu total apoio ao Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone, visto por alguns como o principal alvo do recente  escândalo de vazamento de documentos do Vaticano (VatiLeaks, saiba mais aqui).

“Desejo exprimir ao senhor profundo reconhecimento pela sua discreta proximidade e pelo seu iluminado aconselhamento, que considerei de especial ajuda nestes útimos meses”, diz o Papa em carta a Bertone, divulgada pelo serviço de informações do Vaticano.

“Havendo notado com pesar as críticas injustas levantadas contra a sua pessoa, pretendo renovar ao senhor a comprovação de minha confiança pessoal, que já tive oportunidade de manifestar-lhe com a carta de 15 de janeiro de 2010, cujo conteúdo permanece inalterado.”

Naquela ocasião, em janeiro de 2010, o cardeal havia apresentado sua renúncia por motivo de idade – como pedem as normas da Igreja, todos devem fazê-lo aos 75 anos. Mas Bento XVI pediu que Bertone permanecesse sendo o primeiro-ministro do Vaticano e destacou, naquela carta, o autêntico espírito sacerdotal de Bertone, sua competência, sua dedicação, seu sensus fidei (“sentido da fé”) e sua humanidade.

Com a nova carta, o Papa descarta qualquer possibilidade de afastamento de Bertone no curto prazo – o que era esperado já para depois do verão no Hemisfério Norte. Nas últimas semanas, havia rumores de que ele pudesse ser demitido, na tentativa de dar fim à crise de confiança despertada pelo vazamento de documentos. Vale lembrar que, em junho, Bertone deu entrevista sobre os VatiLeaks, mas não falou sobre a possibilidade de ser ele o alvo do escândalo.

Porém, analistas dizem que afastar Bertone agora seria decretar vitória àqueles que queriam justamente esse movimento. Segundo o vaticanista Andrea Tornielli, pode ser que mais adiante, baixada a poeira dos VatiLeaks, o Papa resolva aceitar a renúncia de Bertone por idade, já que ele vai completar 78 anos, e nomear um novo Secretário de Estado.

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