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‘Corajoso cristão, incansável apóstolo’

Texto publicado na página 11 do jornal “O São Paulo”

Revela-se a imagem do recém-beatificado Papa Paulo VI na Praça de São Pedro, no Vaticano. Após a fórmula da beatificação dita pelo Papa Francisco, o novo “bem-aventurado” surge à multidão em uma foto grande, que pende da sacada central da basílica. Paulo VI aparece em pé, sorrindo e de braços abertos, gesto que na iconografia cristã representa a intercessão. Gesto, também, que muitos fazem ao serem acolhidos pelas massas, o que pode levar a crer que Paulo VI era um grande arrebatador de multidões. Não era. O chamado “papa do diálogo” era um homem sério e tímido. Discreto, sofreu por muito tempo em silêncio com problemas de saúde. Mas, em um mundo cada vez mais adverso à religião, entre 1963 e 1978, ouvia e estimulava diferentes vozes dentro e fora da Igreja. Falava pouco, mas escrevia muito. Abriu as portas para o diálogo com outros cristãos e outras religiões. Criticou o modo cruel como o mundo vinha se desenvolvendo. Organizou a discussão sobre o valor da vida humana. Seu pontificado ocorreu entre o de João XXIII, o “papa bom”, e o de João Paulo I, o “papa sorriso”, dois comunicadores muito populares. Mas foi por meio de seus ouvidos, seus textos e suas fortes decisões que Paulo VI conseguiu transformar a Igreja.

O Papa Francisco, buscando reverter a ideia de que o legado de Paulo VI não havia ainda sido reconhecido pela Igreja, aceitou beatificá-lo no dia 19 de outubro, na missa de conclusão do Sínodo dos Bispos sobre o tema da família. “Sobre este grande papa, este corajoso cristão, este incansável apóstolo, diante de Deus hoje não podemos não dizer uma palavra tão simples, sincera e importante: Obrigado! Obrigado, nosso caro e amado Papa Paulo VI! Obrigado por seu humilde e profético testemunho de amor a Cristo e à sua Igreja!”, declarou, em sua homilia.

Francisco atribuiu a ele um grande exemplo de humildade e recordou um texto do diário de Paulo VI, no qual diz: “Talvez o Senhor tenha me chamado a este serviço não tanto porque eu tenha qualquer atitude, ou para que eu governe e salve a Igreja de suas presentes dificuldades, mas para que eu sofra alguma coisa pela Igreja, e fique claro que Ele, e não outro, a guia e a salva.” Segundo o Papa, “enquanto se formava uma sociedade secularizada e hostil, Paulo VI soube conduzir o timão da barca de Pedro com sabedoria voltada para o futuro – e às vezes na solidão –, sem perder nunca a alegria e a confiança no Senhor”.

Repercussão – Quando foi eleito papa, o então cardeal Giovani Battista Montini, arcebispo de Milão, escolheu para si o nome do “apóstolo missionário”. Segundo afirmou o cardeal Roger Etchegaray à agência Catholic News Agency, Paulo VI era “um papa que parecia ser tímido, discreto, mas que ao mesmo tempo tinha esse zelo missionário”. “Se eu tivesse que resumir Paulo VI em dois adjetivos diria que ele foi místico e profético”, afirmou. “Ele foi considerado um papa frio, mas foi realmente um místico. Aprofundar sua espiritualidade faria tão bem a qualquer um.”

De acordo com o escritor David Gibson, em artigo para a Religion News Service, são quatro as principais características de Paulo VI: a primeira, “reformador”, por ter promovido a colegialidade entre os bispos, a internacionalização da administração da Igreja e, mais do que isso, ter liderado grande parte do Concílio Vaticano II. A segunda, “um papa evangelizador”, pela essencial encíclica Evangelii Nuntiandi, de forte teor pastoral. A terceira, “um papa peregrino”, por ter sido o primeiro pontífice da era moderna a ter viajado para fora da Itália: visitou a Ásia, a África e a América Latina. E, quarta, ele foi um “construtor de pontes”, buscando sempre promover a unidade da Igreja e o “diálogo com o mundo”.

O biógrafo Russel Shaw, professor da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma, disse à agência Aleteia que Paulo VI governou a Igreja durante um período muito duro. Os anos após o Concílio Vaticano II, que foi de 1962 a 1965, foram marcados por uma forte divisão ideológica. Discutia-se a questão dos métodos contraceptivos (que resultou na encíclica Humanae Vitae) e, em âmbito administrativo, viu-se várias pessoas deixarem a vida religiosa. “O vírus da dissidência se espalhou rapidamente e, com apoio da mídia, logo se impregnou”, conta Shaw. O papa do diálogo foi injustamente acusado por isso, pois, segundo Shaw, a divisão já existia antes dele. “Será que sua santidade foi construída e testada durante sua última e difícil década?” Com a beatificação, afirma o escritor, “aqueles que admiraram Paulo VI agora dizem: Até que enfim ele está recebendo o que merece.”

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A China à espera de um milagre, segundo o cardeal Zen Ze-kiun

Cardeal Zen Ze-kiun em conferência organizada pelo Acton Institute

Cardeal Zen Ze-kiun em conferência organizada pelo Acton Institute

Tanto a abertura econômica da China quanto a opressão religiosa são necessárias para a sobrevivência do Partido Comunista chinês, afirmou hoje o cardeal Joseph Zen Ze-kiun, bispo emérito de Hong Kong. Em conferência realizada em Roma pelo Acton Institute para discutir a relação entre liberdade econômica e liberdade religiosa, Dom Zen fez fortes críticas ao modelo de desenvolvimento chinês e à intervenção do governo nas atividades da Igreja.

Igreja em combate – “Gosto de esperar que o Papa Francisco possa realizar na China o mesmo milagre que João Paulo II fez na Checoslováquia”, declarou o bispo, referindo-se à contribuição de João Paulo II para a queda do regime comunista na União Soviética e a uma intensa participação do Papa na igreja clandestina daquele período. “Ele transformou a Igreja de algo temeroso ao regime em uma combatente corajosa.”

O cardeal de 82 anos, nascido em Xangai, relatou a difícil situação da igreja clandestina na China, que funciona sem permissão do governo. A igreja oficial é controlada pelo Partido Comunista. “O governo força nosso povo a agir contra a sua consciência”, criticou.

Relação conturbada – Oficialmente, estima-se que haja de 12 a 15 milhões de católicos na China, uma minoria no país de 1,4 bilhão de habitantes. O governo chinês obrigou os católicos a romperem suas relações com o Vaticano em 1951 e, seis anos depois, criou quase que uma igreja própria, tida como oficial, e chamada Associação Católica Patriótica Chinesa (ACCP, em inglês). Desde então, os cristãos da China enfrentam o dilema entre seguirem a Igreja Católica Apostólica Romana na clandestinidade ou ceder às exigências do governo e frequentar as atividades da ACCP.  Desde o fim de 2010, a China voltou a ordenar bispos sem a nomeação do Papa. Essa prática havia sido interrompida em 2006. A partir daquele ano, num acordo informal, os bispos ordenados eram aceitos tanto pelo Papa quanto pelo governo.

Segundo o cardeal, o Papa Bento XVI procurou dialogar com o governo chinês para garantir maior liberdade religiosa. “Ele não poderia ter feito mais pela Igreja da China. Enviou em 2007 uma carta e uma comissão especial. Mas a igreja já estava em uma situação lastimável”, comentou. “Não há uma conferência episcopal e a Associação Católica é um instrumento do Partido. Eles pagam os bispos para fazer parte do governo. Alguns são obrigados, outros são oportunistas. Mais do que sofrer pressão, os bispos da China são humilhados.”

Economia e política – O bispo emérito de Hong Kong disse, ainda, que a abertura econômica na China foi acompanhada pela forte corrupção no país. “A corrupção vem do poder. Poder absoluto causa corrupção absoluta”, comparou. “Sou um homem velho e não posso esperar muito para ver mais liberdade na China.”

Segundo Dom Zen, a abertura econômica na China não é um milagre, pois ocorreu com base na violação de direitos humanos, como a exploração do trabalho de baixo custo. “Quem se beneficiou desse milagre?”, questionou, lembrando a frase do líder reformista da China Deng Xiaping “Deixemos alguns ficarem ricos primeiro”. Para o cardeal, uma verdadeira reforma econômica chinesa deveria envolver também uma reforma política. “Poder e dinheiro são inseparáveis. E o poder está nas mãos do Partido.”

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Francisco é um ‘grande homem de governo’, afirma professor

47_480x320“O Papa é um grande homem de governo”, avalia o padre Rocco D’Ambrosio, professor de Filosofia e Ética Política da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, autor do livro “Como pensam e agem as instituições”. Ele faz parte de uma iniciativa de 15 professores que se uniram para publicar comentários sobre a exortação apostólica do papa Francisco, Evangelii Gaudium (“A Alegria do Evangelho”). A coletânea está prevista para maio, mas, em entrevista exclusiva ao jornal O São Paulo, padre D’Ambrosio adiantou suas impressões sobre o primeiro ano do pontificado. Para o professor, italiano de Bari, as experiências de Jorge Mario Bergoglio como superior provincial dos Jesuítas na época de ditadura argentina e como arcebispo de Buenos Aires por 15 anos foram grandes escolas para que aprendesse a conduzir a Igreja.

Leia a íntegra de nossa reportagem na página 14 do especial publicado no jornal O São Paulo.

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Dom Orani Tempesta preside primeira missa como cardeal

Cardeal celebra na Basílica de São Sebastião, em Roma

Cardeal celebra na Basílica de São Sebastião, em Roma

Ser cardeal é ser capaz de dar a vida pelo Evangelho e um “convite a todos” a entregar-se pela missão. Esse foi o centro da mensagem do Cardeal Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, na primeira missa que celebrou após receber do Papa Francisco o título de cardeal. Os cardeais são os homens de confiança do Papa e aqueles com menos de 80 anos podem eleger um novo pontífice numa eventual eleição.

Leia aqui a íntegra da nossa reportagem publicada em O São Paulo, página 24.

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Dom Odilo Scherer visita Papa Francisco no Vaticano

Pela primeira vez, o papa Francisco e o cardeal Odilo Pedro Scherer puderam conversar em particular sobre alguns dos temas mais importantes para a Igreja em São Paulo. Em entrevista exclusiva ao O São Paulo em Roma, o Arcebispo de São Paulo revelou que os dois refletiram sobre a necessidade de se realizar uma verdadeira “retomada missionária” nas grandes metrópoles urbanas de todo o mundo. Eles recordaram o forte exemplo do Beato Padre José de Anchieta, um dos primeiros jesuítas enviados por Santo Inácio de Loyola ao Brasil, em 1553, cuja canonização “está próxima”.

Leia aqui a íntegra da nossa reportagem publicada em O São Paulo

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Um debate sobre as mulheres na Igreja

2013-12-18 18.33.37O grande passo para que as mulheres voltassem a ser lembradas pela Igreja Católica foi dado no Concílio Vaticano II e de lá para cá muita coisa mudou, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Foi mais ou menos esse o tom do debate sobre o tema “A força da mulher” realizado ontem na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, por ocasião do lançamento do documentário Maria di Magdala: Le donne nella Chiesa (“Maria Madalena: As mulheres na Igreja”), dirigido e produzido pela espanhola Maite Carpio, a ser exibido pela TV italiana Rai 3 em 28 de dezembro no programa La Grande Storia.

As mães do Concílio –  “O Vaticano II foi um germe para mudanças notáveis. Foi a primeira vez que mulheres participaram de um concílio”, recordou a teóloga Marinella Perroni, doutora em Teologia e Filosofia e professora de Novo Testamento no Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma. Convocado em 1962 pelo Papa João XXIII, o Concílio Vaticano II foi a última grande reforma da Igreja Católica, desde aspectos práticos e pastorais até a liturgia e o modo de pensar a própria Igreja.

Mulheres do Vaticano II

A professora Marinella, uma das entrevistadas do documentário, se refere às chamadas “mães do Concílio”, um grupo de 23 mulheres (13 leigas e 10 religiosas) que participaram como observadoras do grande encontro que reuniu 2.500 bispos do mundo inteiro para repensar a Igreja.  Elas chegaram muito tempo depois que o Concílio havia começado, apenas quando o então cardeal Arcebispo de Bruxelas, Dom Léon-Joseph Suenens, teria dito aos seus companheiros padres do concílio: “Caros irmãos, olhem para os lados… onde está a outra metade da Igreja?” Foi somente em setembro de 1964, sob o Papa Paulo VI, que a primeira mulher entrou numa sala conciliar.

Conforme o documentário, 60% dos fiéis que se dizem católicos atualmente são mulheres. Mas só depois do Vaticano II  as mulheres passaram a ser admitidas nas faculdades de Teologia, por exemplo. “Não nos faltou nos últimos 50 anos uma contribuição forte de teologia das mulheres, isto é, a participação da mulher na interpretação e no crescimento teológico”, afirmou Marinella. “Alegra-me recordar que estamos em um caminho de crescimento.” Numa fala bastante crítica, mas otimista, ela recordou a argentina Margarita Moyano Llerena, então presidente da Federação Mundial da Juventude Católica Feminina e uma das mulheres que participaram do Concílio, que teria dito: “As mulheres em Roma chegam só no fim, mas, no fim, chegam.”

Últimos dois Papas – O padre Federico Lombardi, atual porta-voz do Vaticano e que trabalhou como consultor na preparação do documentário Maria di Magdala observou que o aumento da participação das mulheres nas decisões da Igreja é algo que vem sendo preparado e defendido pelos últimos dois Papas, Bento XVI e Francisco, com os quais ele vem trabalhando nos últimos anos.

Para ilustrar esse ponto de vista, o padre jesuíta recordou a entrevista de Bento XVI a uma TV alemã em 2006, quando disse: “As próprias mulheres, com a sua motivação e força, com a sua por assim dizer preponderância e o seu ‘poder espiritual’, saberão encontrar o próprio espaço. E nós (homens) deveríamos procurar colocar-nos à escuta de Deus, para não nos opormos a Ele; ao contrário, fazemos votos por que o elemento feminino obtenha na Igreja o lugar ativo que lhe é próprio, a começar pela Mãe de Deus e por Maria Madalena.”

Da parte do Papa Francisco, Lombardi admitiu que ainda “não entendeu perfeitamente” o que ele quis dizer na entrevista coletiva concedida aos jornalistas que estavam no avião durante a viagem de volta do Rio de Janeiro a Roma, em julho.  Na ocasião, declarou Francisco: “O papel da mulher na Igreja não deve circunscrever-se a ser mãe, trabalhadora… Limitá-la não! É outra coisa!”

O Papa lembrou as mulheres do Paraguai, que depois da guerra (1864-1870) tiveram de reconstruir o país mantendo a cultura local e acrescentou: “Na Igreja, temos de pensar a mulher sob essa perspectiva de escolhas arriscadas, mas como mulheres. Isso deve ser explicitado melhor. Eu acho que ainda não se fez uma profunda teologia da mulher na Igreja. Limitamo-nos a dizer que pode fazer isto, pode fazer aquilo, agora faz a coroinha, depois faz a Leitura, é a presidente da Caritas… Mas, há muito mais! É necessário fazer uma profunda teologia da mulher.” Segundo o  porta-voz do Vaticano, “os dois últimos papas têm uma perspectiva muito aberta sobre a realidade da mulher na Igreja. Muito foi feito, mas é necessário entender que ainda há muito a avançar”.

Apóstola dos apóstolos – De acordo com o presidente do Pontifício Conselho da Família, o arcebispo Dom Vincenzo Paglia, não é possível aprofundar uma “teologia da mulher” sem recordar o papel essencial das mulheres na História da Igreja. “Quando se lê a História com profundidade, encontramos algumas mulheres com um papel evidente, mas outras serão descobertas. As mulheres são parte determinante”, defendeu, destacando a história das ordens religiosas femininas. “Houve uma abadessa que tinha poder sobre os padres, mais do que o bispo. A história do monasticismo é exemplar.”

Dom Paglia, um dos entrevistados para o documentário, acredita que a força da mulher na Igreja precise ser redescoberta pelos homens, de modo que elas assumam funções mais decisivas, inclusive na administração eclesiástica. “Não há dúvidas de que seja necessária uma presença maior da mulher nas cúrias, não só na romana.” Porém, ele alerta: é indispensável não perder “a visão do mistério de Deus” ao afrontar o problema. “O poder na Igreja não é parlamentar, econômico, militar… é um poder diferente.” Referindo-se a Maria Madalena, primeira pessoa que encontrou Jesus após a ressurreição, segundo o relato bíblico, e que dá nome ao documentário, disse Dom Paglia: “Devemos redescobrir o significado de Maria Madalena; o que queremos dizer quando a chamamos ‘a apóstola dos apóstolos‘.”

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Jesus e o Twitter: o que disse o cardeal Ravasi e o que virou notícia no mundo

Cardeal Ravasi

Este poderia ser apenas mais um texto factual sobre um evento do qual participei em Roma, mas sua inesperada repercussão me convenceu de que, na verdade, seria mais interessante fazer uma breve reflexão do que um relato formal.

Hoje, no Cortile dei Gentili (“Pátio dos Gentios”), um espaço de diálogo entre católicos e pessoas “não crentes”, nesta edição dedicado aos jornalistas, o Cardeal Gianfranco Ravasi afirmou que Jesus Cristo usou twits para se comunicar – uma referência à rede social Twitter, na qual as mensagens são curtas (140 caracteres é o limite máximo para cada twit). Disse o cardeal: “A primeira pregação de Jesus, segundo Mateus, no original grego, tem 45 caracteres com espaços: ‘O reino de Deus está próximo. Convertei-vos.'”

Essa declaração aparentemente banal ganhou manchetes nos sites de notícias e, obviamente, nas redes sociais. A notícia que uma grande agência de notícias francesa publicou para o mundo foi “Vaticano diz que Jesus foi o primeiro a tuitar”. Outros veículos internacionais, de várias línguas, anunciaram “Jesus foi o primeiro ‘tweeter’ da história, diz Ravasi”.

A partir dessa notícia, um evento que durou 5 horas, com três conferências e profundas reflexões sobre a fé, sobre a comunicação, sobre o que é a Verdade e a objetividade do jornalismo, sobre a busca pelo bem comum seja por ateus seja por católicos, com a presença dos diretores de todos os principais jornais da Itália, se resumiu a uma discussão pouco inteligente sobre o que passa na cabeça da Igreja Católica para dizer que Jesus foi o inventor do Twitter. Seria uma estratégia de marketing? É o Vaticano querendo se apossar do ambiente virtual, onde a liberdade total é a suprema lei?

Debate entre Gianfranco Ravasi e Eugeno Scalfari, no 'Cortile dei Gentili'

Debate entre Eugenio Scalfari e Gianfranco Ravasi, no ‘Cortile dei Gentili’

Uma série de críticas à Igreja se seguiu, especialmente por parte dos ateus e agnósticos, justo aqueles com quem a Igreja busca dialogar por meio do “Cortile”. Como ocorre frequentemente com as informações de temas religiosos (e aqui não me refiro somente à Igreja Católica), a declaração de Ravasi foi apresentada sem o contexto. Queremos rapidamente tentar mostrar que contexto é esse e por que a declaração é muito menos bombástica do que tentou-se mostrar por aí.

Durante o evento, o Cardeal Gianfranco Ravasi foi convidado a debater com o fundador do jornal La Reppublica, Eugenio Scalfari, que se autointitula “um não crente, que não procura Deus, mas é apaixonado pela figura de Jesus Cristo” – o mesmo a quem o Papa Francisco escreveu recentemente a carta intitulada “Diálogo aberto com os não crentes”. Logo no início do diálogo, o jornalista moderador Emilio Carelli lançou uma questão a Ravasi: “Vivemos num contexto de mudanças grandíssimas e no qual o modelo da comunicação foi totalmente alterado. Qual é a sua mensagem, a da Igreja, sobre a comunicação religiosa?” Pronto, temos aí um pequeno contexto. A pergunta remete à comunicação religiosa, ao novo momento das comunicações no mundo.

Respondeu o cardeal italiano: “Jesus adotou como instrumento de comunicação três percursos que são aqueles que atualmente dominam e que tornam particularmente incisiva a mensagem do Papa Francisco.” O primeiro deles, para Ravasi, seria exatamente o uso do twit. “Cristo adotou o uso do twit de maneira sistemática. Aquilo que os estudiosos chamam com um termo extremamente sofisticado, arcaico, os logia, mas que na verdade são verdadeiros caracteres essenciais.” Ele citou outros momentos em que Jesus afronta a questão moral religiosa em 145 caracteres (“Ame o Senhor teu Deus com todo o teu coração, a tua mente e a tua alma. Ame o seu próximo como a ti mesmo”) e questões de fé e política, fé e economia em 39 caracteres (“Dai a César o que é de César e dai a Deus o que é de Deus”).

E Ravasi arrematou: “Então, temos o uso sistemático da frase essencial e incisiva. E até aqui temos uma aula, também no que diz respeito aos pregadores.” Alguma dúvida de que ele se referia ao twit como uma analogia e, obviamente, não de modo explícito? Ravasi quer dizer que o modo como Jesus se comunicava é válido até hoje, especialmente para os pregadores.

E continua, com os outros dois modelos mencionados no início da fala. O segundo é a articulação do pensamento por meio de parábolas, também muito usado pelo Papa Francisco, “que é substancialmente o uso da televisão, porque é um cenário” (outra analogia ao mundo das comunicações, e nem por isso vamos colocar nos jornais que “Jesus foi o primeiro apresentador de televisão, diz Vaticano”). De acordo com o cardeal, a parábola do bom samaritano, por exemplo, apresenta diversas perspectivas de filmagem: “Nesse caso vemos ainda a capacidade incisiva, de fazer com que a complexidade do reino de Deus, quer dizer, do projeto de Deus, a visão global do ser e do existir, através de uma narração, através do símbolo, que é fundamental na nossa civilização, sobretudo na imagem.”

A terceira via é a da corporalidade, explica o presidente do Pontifício Conselho para a Cultura. “Se pegamos o Evangelho de Marcos, 43%  do ministério de Cristo é constituído da cura. Isto é, ele toca ininterruptamente os corpos. Fala com o contato dos corpos”, afirma. “Com o seu corpo, usa a saliva algumas vezes, usa as suas mãos, violando as normas hebraicas também para os leprosos. É importante para nós que queremos fazer uma comunicação religiosa de valores, etc, esse discurso sobre o método.”

Qualquer pessoa com boa vontade para entender o que o cardeal Ravasi disse não teve dificuldades. Não é preciso concordar com sua análise teórica, mas entendê-la. Ele conclui esse pensamento afirmando que “Se um pastor não se interessa por comunicação, está fora do seu próprio ministério. Não esqueçamos que Cristo, a primeira coisa que diz é ‘andai e anunciai'”.

Sobre o jornalismo – Para piorar a situação da falsa notícia, parece que não é a primeira vez que Ravasi expõe essas metáforas entre Jesus e o mundo da Comunicação. O fez em outras ocasiões, no mesmo “Cortile dei Gentili” e ninguém deu bola – porque os jornalistas não estavam lá. E é assim que uma declaração fora de contexto vira fofoca.

Mais grave ainda é o fato de que usou-se o termo “Vaticano” para se referir a um único indivíduo, o cardeal Ravasi, que embora seja presidente de uma instituição da Cúria Romana não fala em nome do Vaticano e nem de toda a Igreja. Na verdade, a rigor o “Vaticano” sequer existe. É um termo que usamos pra simplificar as coisas. O que existe são uma série de instituições da Igreja (a Cúria, a Santa Sé, a Cidade-Estado do Vaticano…) e nenhum indivíduo sozinho a representa completamente, nem mesmo o Papa.

Infelizmente o que vemos muito frequentemente é um jornalismo preguiçoso e catastrófico. Uma declaração simples, uma alegoria, um recurso retórico para explicar um determinado pensamento vira uma manchete bombástica.

Resumindo a ópera: o mundo das Comunicações vive uma crise dura e profunda. A perda de público por causa das mídias digitais provoca perda de qualidade de conteúdo porque, com receita menor, as empresas precisam reduzir custos e investir menos. Os jornalistas, cada vez mais desqualificados, são obrigados a trabalhar sem parar e a escrever sobre tudo e sobre todos, em poucos minutos. A notícia é produto. Quanto mais melhor. Mais rápido, melhor. Essa perda de qualidade agrava a perda de público da mídia tradicional. O resultado é um apelo às manchetes bombásticas na internet, que deem cliques e, portanto, anúncios publicitários por alguns minutos, gerando um pouco de receita pelo menos até a próxima “bomba” explodir.

Na segunda conferência do “Cortile”, os diretores dos maiores jornais italianos discutiram o complexo tema “As liberdades e as responsabilidades na comunicação. Objetividade e verdade – vícios e virtudes”, e o jornalista Mario Calabresi, diretor de La Stampa declarou que o maior compromisso do jornalista na atualidade deve ser com o contexto.

Parece que ele tem razão. Nossas liberdades de jornalista aumentam nossas responsabilidades. O contexto é essencial. Mas, como acabo de constatar novamente, muitas vezes nossa suposta objetividade é manipulada pelos nossos vícios, e não por nossas virtudes. E é assim que o contexto fica para trás.

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