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Diplomacia a serviço da paz

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Texto publicado na página 14 de “O São Paulo”, em março de 2015

Cardeal Parolin em palestra na Pontifícia Universidade Gregoriana. Foto: Nikos Papaxristou

Cardeal Parolin em palestra na Pontifícia Universidade Gregoriana. Foto: Nikos Papaxristou

Construir pontes, lutar contra a pobreza e edificar a paz. São essas as três principais linhas de ação da diplomacia da Santa Sé no pontificado do Papa Francisco, afirmou a O SÃO PAULO o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano. O “número dois” do Vaticano esteve em 11 de março na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, onde deu uma palestra sobre o papel da diplomacia pontifícia na promoção da paz.

No final da conferência, Dom Parolin respondeu à pergunta da reportagem sobre qual é a influência e o poder de decisão dos papas nas atividades diplomáticas da Santa Sé, já que o Papa Francisco foi o principal articulador da recente retomada de relações bilaterais entre Estados Unidos e Cuba após 53 anos de impasse – além de suas tentativas de promover a paz entre Israel e Palestina. “Nós dizemos que o Papa é o primeiro diplomata da Santa Sé”, afirmou o cardeal, em sua réplica. “Efetivamente, todo o aparato da diplomacia pontifícia está a serviço das indicações que vêm do Papa.”

Atualmente, a Santa Sé tem relações diplomáticas com 179 países, além da União Europeia e o Estado Palestino. De acordo com o secretário de Estado, chefe de relações internacionais do Vaticano, Francisco tem um “protagonismo muito acentuado” nas questões diplomáticas. Foi no seu primeiro discurso a novos embaixadores que o Papa falou pela primeira vez sobre o que considera suas prioridades. “Ele deu três linhas diretivas para a ação da diplomacia da Santa Sé: construir pontes, lutar contra a pobreza e edificar a paz. Nós estamos nos movendo sobre essas linhas”, lembrou o arcebispo.

O cardeal nas Nações Unidas

“Muitas das iniciativas que a Secretaria de Estado e a diplomacia pontifícia levam adiante nascem diretamente dele e do contato pessoal que ele tem com chefes de Estado, com representantes políticos”, acrescentou Parolin. De fato, no caso Cuba-Estados Unidos, Francisco vinha enviando cartas privadas aos presidentes Barack Obama e Raúl Castro e, em março do ano passado, conversou pessoalmente com Obama. Posteriormente, o Vaticano, com a presença do cardeal Parolin, sediou a última reunião entre as delegações dos dois países antes do acordo para retomar relações diretas.

Segundo o cardeal, cada papa, dependendo do seu caráter, “é mais ou menos ativo” na diplomacia. “No fundo sempre existem orientações. A ação da Santa Sé é essencialmente religiosa e exatamente por essa motivação procura favorecer a convivência pacífica entre os povos, criando todas as condições que permitam a cada pessoa viver dignamente, segundo a sua dignidade, e como criatura e filho de Deus.”

Mais que uma voz crítica – Durante sua palestra, o cardeal defendeu a ativa participação da Igreja nas questões de interesse internacional. “A ação diplomática da Santa Sé não se contenta a observar os acontecimentos ou avaliar sua grandeza, nem pode ser somente uma voz crítica. É chamada a agir para facilitar a coexistência e a convivência entre as várias nações”, afirmou. “A Santa Sé opera no cenário internacional não para garantir uma segurança genérica, mas para sustentar uma ideia de paz que seja fruto de relações justas, de respeito às normas internacionais, de tutela dos direitos humanos fundamentais, começando por aqueles dos últimos, dos mais vulneráveis.”

Diálogo ou intervenção militar – Quando um dos sacerdotes estudantes da Gregoriana perguntou a Dom Parolin sobre a dificuldade de promoção da paz junto a quem pensa de forma diversa à da Igreja, o cardeal manteve a postura discreta. “A realidade é assim. Existem tantas pessoas, tantas instituições, tantos Estados que não pensam como a Igreja. Ainda assim, houve um crescimento e um desenvolvimento da consciência sobre a paz”, observou. “Hoje se fala muito de paz e eu diria que isso também foi um resultado da presença e das relações da Igreja.”

Papa com embaixadores junto à Santa Sé

Dom Parolin acrescentou que, frequentemente, a Santa Sé coloca em prática ações de “soft power” (algo como “poder suave”, em inglês), expressão que em política internacional se refere à capacidade de atração e persuasão, em vez da coerção e do uso da força. “Temos a ideia de paz como um bem precioso e insubstituível. Também individualmente nos países (por meio dos núncios apostólicos, os diplomatas do Papa), a diplomacia bilateral trabalha sobre esse ponto. Às vezes sem muito clamor, um pouco fora dos refletores, é possível progredir.”

Para o secretário de Estado, é urgente que a comunidade internacional estabeleça mais claramente quais são as diretrizes para “intervenções humanitárias” de caráter militar para restabelecer a paz em países que enfrentam grupos terroristas, guerras civis ou milícias. São necessárias, ainda, claras políticas de reconciliação pós-guerra. “É preciso mais do que nunca mudar o paradigma. Operar para prevenir a guerra em qualquer forma”, avalia.

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Com ajuda do Papa, cai o muro entre Estados Unidos e Cuba

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Texto publicado na página 23 do jornal “O São Paulo”, em janeiro de 2015

O Papa Francisco e a diplomacia da Santa Sé tiveram papel estratégico na histórica retomada das relações entre Estados Unidos e Cuba, anunciada em 17 de dezembro de 2014. “Hoje estamos contentes porque dois povos afastados por tantos anos deram um passo de aproximação”, declarou o pontífice em encontro com embaixadores, no Vaticano.

Os dois países eram inimigos desde os tempos da Guerra Fria. Há 53 anos, desde quando os Estados Unidos iniciaram o embargo comercial a Cuba por causa do regime comunista, Washington e Havana não mantinham nenhum tipo de relações diretas. O embargo americano provocou grande isolamento econômico da ilha, que passou a enfrentar intensa pobreza, especialmente depois da queda do seu maior aliado, a União Soviética. Mas depois de 18 meses de reuniões diplomáticas em segredo, Estados Unidos e Cuba derrubaram o muro invisível que os separava.

Reaproximação – Houve uma série de tentativas de reaproximação ao longo dos anos. Nos últimos meses, as tratativas foram sediadas pelo Canadá e estimuladas pessoalmente pelo Papa Francisco. Ele escreveu cartas privadas aos presidentes Barack Obama e Raúl Castro e, em março do ano passado, conversou pessoalmente com Obama. Oficiais americanos admitem que foi o Papa quem convenceu Raúl Castro a dialogar. O Vaticano sediou a última das reuniões, que preparou uma conversa telefônica entre os dois presidentes, em 16 de dezembro. A troca de prisioneiros americanos e cubanos marcou a reabertura entre os países.

Obama agradeceu “em especial” ao Papa Francisco – que celebrava seu aniversário de 78 anos no mesmo dia 17 – pelo papel essencial na mediação do conflito. O presidente elogiou o seu “exemplo moral, mostrando o mundo como deve ser, em vez de simplesmente aceitar o mundo como ele é”. Obama explicou que a estratégia do embargo para enfraquecer o regime cubano não funcionou. Raúl Castro, por sua vez, também agradeceu ao Papa e ao Canadá pelo apoio nas tratativas. “Os progressos obtidos nas trocas que tivemos mostram que é possível encontrar uma solução para muitos problemas”, declarou. O Vaticano informou que o Papa convidou os dois líderes a “resolver questões humanitárias de interesse comum, inclusive a situação de certos prisioneiros, para iniciar uma nova fase nas relações entre as duas partes”.

Histórico – Embora a atuação de Francisco tenha sido essencial, o vaticanista americano John Allen Jr., do jornal Boston Globe, ponderou que qualquer papa tentaria promover a normalização das relações entre Washington e Havana. Já João Paulo II, primeiro papa a visitar Cuba depois da revolução cubana, em 1998, procurou garantir maior liberdade aos cubanos. Pedia o papa: “Que Cuba se abra para o mundo e o mundo se abra para Cuba.” Bento XVI manteve a mesma política, explica Allen. Ele denunciou o embargo dos Estados Unidos a Cuba, quando visitou a ilha em 2012, chamando- de “injusto” para o povo cubano. Por outro lado, se recusou a encontrar um grupo de oposição a Fidel Castro. Segundo Allen, a diplomacia da Igreja foi muito criticada sob Bento XVI por não denunciar as injustiças na ilha, mas ao mesmo tempo garantia uma atuação mais firme nos bastidores, “especialmente porque o país se prepara para um futuro pós-Castro”.

Trabalho em equipe – De qualquer forma, o Papa Francisco não atuou sozinho. A Igreja possui a rede diplomática mais antiga do mundo: desde o quarto século, antes ainda que existisse o Estado Pontifício (hoje o Vaticano), a Sé Apostólica enviava missões diplomáticas. Atualmente, 176 países e as Nações Unidas possuem núncios, os embaixadores do papa. Segundo o vaticanista italiano Aldo Maria Valli, da televisão pública RAI 1, no caso entre Cuba e Estados Unidos, cinco nomes se destacam: o cardeal italiano Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano; o cardeal Beniamino Stella, que foi núncio em Cuba e hoje é conselheiro do papa no Vaticano; o arcebispo Angelo Becciu, que também foi núncio em Cuba e atualmente ocupa o cargo de Substituto para Assuntos Gerais no Vaticano; e o cardeal Ortega, amigo de longa data do Papa Bergoglio. Falando à Rádio Vaticano, Dom Parolin, que é diplomata de carreira, comentou que o papel da Santa Sé em casos de interesse internacional “é facilitar o diálogo entre as duas partes”.

O presidente Raúl Castro e o cardeal cubano, Dom Jaime Lucas Ortega y Alamino

A atuação do Papa Francisco neste caso está ligada ao fato de que ele é o primeiro papa latino-americano, de modo que conhece muito bem a realidade cubana. Mas, segundo o articulista de religião David Gibson, da agência Religion News Service, também pela forma como ele entende a diplomacia católica. “Desde que foi eleito, em março de 2013, Francisco tem buscado de forma persistente elevar o Vaticano ao nível global, algo que não vimos desde a década de 1980, quando o Papa João Paulo II peregrinou entre o Leste e o Oeste para ajudar a acabar com a Guerra Fria”, observa, em artigo.

Bispos cubanos e americanos elogiaram a atuação do papa e da Santa Sé no caso. O arcebispo de Santiago de Cuba e presidente da conferência episcopal da ilha, Dom Dionisio Garcia Ibanez, enviou uma carta aberta ao Papa Francisco: “Nós, bispos de Cuba, queremos manifestar nossa mais viva gratidão por sua obra, que renovou a esperança do início de uma etapa no caminho do povo cubano que leve benefício para toda a nação.” O arcebispo Thomas Wenski, da Diocese de Miami, aquela com maior número de cubanos nos Estados Unidos, afirmou em comunicado: “O Papa Francisco fez o que os papas devem fazer: construir pontes e promover a paz.”

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O Adeus a Bento XVI e a ‘Sede Vacante’

popelas-23Às 20 horas desta quinta-feira, no horário de Roma (16 horas em Brasília), Bento XVI encerrou seu pontificado. Um Papa que renunciou e entrou para a História. Começou hoje a chamada sede vacante, período em que a Igreja Católica fica sem um Papa, e um novo pontífice deve ser eleito nas próximas semanas pelos cardeais com menos de 80 anos.

Como disse um comentarista da TV italiana TelePace durante a transmissão da viagem de helicóptero do Papa rumo a Castel Gandolfo – onde ele ficará até que seja reformado e adaptado o mosteiro onde viverá definitivamente no Vaticano -, Bento XVI viveu os últimos dias de seu pontificado como se tudo fosse muito normal. “É um Papa que transformou o extraordinário em ordinário”, afirmou o comentarista, cujo nome infelizmente não consegui pegar.

Apesar de turbulento por causa dos problemas que vivem a Igreja e a Cúria Romana nos últimos anos, em termos práticos o fim do pontificado de Bento XVI correu tranquilamente. No Vaticano, era normal ver os peregrinos visitando a basílica e os museus logo nas semanas após a renúncia. A grande movimentação começou apenas nos eventos finais e pontuais, especialmente na última oração do Ângelus, rezada no domingo 24 de fevereiro, e ontem, na última audiência geral. Mais de 100 mil pessoas foram para a Praça de São Pedro para se despedir do Papa em cada uma dessas ocasiões. Muitos jovens.

Mesmo assim, o transporte público e a segurança funcionaram bem, pois tudo foi muito planejado. Nos escritórios, tudo normal na medida do possível, todos trabalhando nos horários regulares e esperando os eventos especiais que sucederiam o anúncio da renúncia. Enfim, um final muito preparado e organizado. Até na saída do palácio papal, as pessoas que se despediriam do Papa o aguardavam no pátio, como se ele fosse apenas fazer uma viagem corriqueira.

Site do Vaticano mudou a homepage após o fim do pontificado

Site do Vaticano mudou a homepage após o fim do pontificado

De fato, Bento XVI transformou o extraordinário em ordinário. Durante suas últimas orações e missas públicas, ele destacou a liturgia e a mensagem que queria passar, deixando a renúncia e seu momento pessoal em segundo plano. Apenas na última audiência geral, ontem, falou com profundidade e sinceridade sobre o que sentia ao deixar o papado. Declarou que em certos momentos temeu ter sido abandonado por Deus, mas que no fim sempre o reencontrou pelo caminho. “Amar a Igreja significa ter a coragem de fazer escolhas difíceis, sofridas, tendo sempre diante de si o bem da Igreja e não a si próprio”, afirmou.

Se nas últimas décadas os católicos estavam habituados a se despedir de um Papa com um velório, desta vez foram várias as oportunidades, com um Papa cansado, é verdade, mas muito vivo. A despedida foi lenta, nostálgica, mas alegre. Sim, o extraordinário virou ordinário. E as últimas palavras públicas de Bento XVI, aquelas que marcam o encerramento do pontificado, na verdade poderiam ter sido as mesmas de qualquer outro momento. Poderiam ter sido ditas em qualquer dia ordinário: “Obrigado! Boa noite! Obrigado por tudo.”

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Quem elege o novo Papa?

Todos os cardeais com menos de 80 anos podem votar no conclave que elegerá o novo Papa. Após a renúncia de Bento XVI, que será oficializada no dia 28 de fevereiro de 2013, às 20 horas, começa a chamada “sede vacante”, período em que a Igreja fica sem um Papa. A partir daí, convoca-se o conclave para escolher o novo “sucessor do apóstolo Pedro”.

Atualmente, são 117 os cardeais habilitados a participar do conclave (cinco brasileiros). Mas o número pode aumentar, caso o Papa Bento XVI anuncie a criação de novos cardeais ainda nesta semana – entre eles há grandes chances de entrar o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, já que o emérito Dom Eusébio Scheid atingiu a idade limite.

Segue abaixo a lista com todos eles – que pegamos no facebook da Conferência Episcopal dos Estados Unidos. Teoricamente, qualquer um pode ser eleito, mas nos últimos 600 anos mais ou menos, os cardeais sempre escolheram entre eles o novo Papa. Muito provavelmente será um dos nomes abaixo. Clique nas imagens para ampliar.

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VatiLeaks: O mordomo do Papa sorri

Ciente de que não tenho conseguido postar tanto quanto gostaria nas últimas semanas, resolvi escrever um breve post ao menos atualizando no blog como ficou o caso dos “Vatileaks”, série de vazamentos de documentos sigilosos da Santa Sé (entenda), que revelaram detalhes de correspondências do Papa, discussões entre autoridades da Igreja e suspeitas de fraude no Vaticano.

Vínhamos acompanhando passo a passo o problema, mas sequer falamos aqui sobre a prisão e o perdão de Paolo Gabriele, mordomo pessoal do Papa Bento XVI acusado de roubar documentos e facilitar sua divulgação na imprensa. 

Recapitulando: como foi amplamente noticiado pela imprensa internacional, Paolo Gabriele havia sido condenado pela Justiça do Vaticano a um ano e meio de prisão por “furto agravado”, a ser cumprida no sistema carcerário italiano. Entretanto, de acordo com as leis do Vaticano, o Papa tem total autonomia para perdoá-lo e liberá-lo de ter que cumprir a pena. E foi o que aconteceu.

Gabriele não só foi perdoado (antes do Natal) como recebeu um novo emprego, no hospital pediátrico “Bambino Gesù”, que pertence à Santa Sé. Na ocasião, o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, explicou o motivo do perdão concedido por Bento XVI: “Leva-se em consideração a situação de sua família e da benevolência com a qual o Papa quis intervir na situação, e portanto será oferecida uma possibilidade de alojamento e ocupação, mas não na sede da Cidade-Estado do Vaticano.”

Bento XVI perdoa mordomo

Fato é que, desde então, Paolo Gabriele voltou a sorrir. Apareceu publicamente em foto com o Papa, ambos felizes com a reconciliação. Isso levou muita gente a questionar a tal justiça vaticana: Como é que o sujeito rouba documentos, causa uma algazarra internacional e não só é perdoado, como também ganha um novo emprego?

Esse texto do vaticanista Andrea Tornielli, bastante esclarecedor no ponto de vista religioso, levanta justamente essa questão (“O sorriso de Paolo Gabriele”). Tornielli recorda que o Papa não é como um outro chefe de Estado qualquer. Acredita-se que seja o “vigário de Cristo”, isto é, um representante vivo de Jesus e, sendo assim, deve seguir seus ensinamentos. Segundo o jornalista, Bento XVI não se move sobre a base do senso comum, mas de “uma outra coisa”. Conforme a tradição cristã, “Jesus perdoou a traição de Pedro e perdoa nossos pecados, mesmo os mais graves, se reconhecemos a necessidade da sua misericórdia”, explica Tornielli. “O Papa mostra sua compaixão pela família” de Gabriele.

Um gesto caridoso, é verdade. Mas é claro que também buscou ser uma espécie de desfecho público para o complicadíssimo caso “Vatileaks”.

No entanto, algumas perguntas permanecem em aberto e as investigações continuamNo fim do ano passado, o jornal Corriere della Sera e outros observadores da Santa Sé questionaram, por exemplo, por que Gabriele estaria reunindo documentos desde 2006 e só resolveu divulgá-los no ano passado? Quem são as outras pessoas envolvidas? Sabe-se que o programador Claudio Sciarpelletti é um deles.

Gabriele em julgamento

Gabriele havia dito, em entrevista, que ao menos 20 pessoas faziam parte do esquema, que, segundo o próprio mordomo, buscava acabar com “o mal e a corrupção” no coração da Igreja. Mas não se sabe até hoje quem era de fato o alvo desse plano. Seria o secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone? Seria o próprio Papa? Seriam outros? Seria somente um plano mal feito articulado por um bem intencionado mordomo?

O vaticanista John Allen Jr observa que Gabriele, em determinado momento, afirmou ter ligação com pessoas do alto escalão na Santa Sé, mas em nenhum instante ficou claro se alguém teria autorizado ou participado da divulgação de documentos sigilosos.

O mundo continua acompanhando. A consequência positiva para todos dessa história é que cada vez mais o Vaticano começa a perceber que não vive em um mundo paralelo. O Papa e seus colaboradores vêm claramente tentando promover a transparência e a segurança no funcionamento das coisas da Igreja, justamente para evitar novas especulações, conspirações e surtos midiáticos. Seria esse o verdadeiro motivo do sorriso do mordomo?

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Vaticano proíbe PUC do Peru de se chamar de ‘católica’ e ‘pontifícia’

Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Bertone

Filipe Domingues – Agência Estado

O Vaticano divulgou neste sábado um comunicado informando que a Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP) perdeu o direito de usar em seu nome os títulos de “Pontifícia” e “Católica”. Conforme decreto do Secretário de Estado Tarcisio Bertone, o número dois do Vaticano, a universidade fundada em 1917 pela Santa Sé vem alterando unilateralmente seus estatutos desde 1967, “com grave prejuízo para o interesse da Igreja”.

A decisão foi tomada depois de uma série de visitas de representantes da Santa Sé à universidade, em dezembro de 2011, e reuniões com o atual reitor, Marcial Rubio. “A Santa Sé foi obrigada a adotar esta medida”, diz o comunicado. A crise na PUC do Peru começou em setembro do ano passado, quando o arcebispo de Lima, cardeal Juan Luis Cipriani Thorne, identificou diferenças ideológicas entre professores e alunos em relação às posições da Igreja.

Cipriani pediu mudanças nos estatutos da universidade, conforme as orientações da Igreja para as universidades católicas contidas na constituição apostólica Ex Corde Ecclesiae. O arcebispo exigiu, por exemplo, o direito de indicar o reitor a partir de uma lista tríplice definida pela universidade em assembleia.

O reitor Marcial Rubio

Mas o atual reitor, Marcial Rubio, e grupos de alunos recusaram a mudança, acusando perda de autonomia universitária. Rubio declarou à imprensa local que Cipriani tem interesse no controle econômico da PUCP. Ao mesmo tempo, a universidade não quer perder os títulos de “católica” e “pontifícia”, pois teria de abrir mão das propriedades que pertenceriam à Arquidiocese de Lima – pois o doador do terreno da PUCP vinculou a herança ao uso por uma universidade pontifícia.

Segundo o comunicado divulgado hoje, Rubio vinha exigindo que a Arquidiocese renunciasse ao controle dos bens. A Igreja recusou, dizendo que os tribunais civis do Peru confirmaram mais de uma vez seu direito de participar da gestão.

A Santa Sé afirmou que continuará acompanhando a situação da universidade e quer que as autoridades acadêmicas reconsiderem sua posição. O reitorado da universidade, por sua vez, informou em seu site que o decreto será discutido em assembleia na segunda-feira.

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Vaticano contrata jornalista profissional como ‘conselheiro de comunicação’

Greg Burke, jornalista, é o novo relações públicas do Vaticano

Antes tarde do que nunca. Uma notícia chamou muito a atenção ontem: um jornalista profissional foi contratado para assumir o novo cargo de “conselheiro da Secretaria de Estado” do Vaticano para as questões da Comunicação.

Estamos falando do americano Greg Burke, que ocupava o cargo de correspondente da Fox News em Roma e tem ampla experiência nesse tipo de cobertura.

Pode parecer algo óbvio, mas trata-se de um passo enorme. Uma das principais falhas da Igreja Católica nessa área de Comunicação é a falta de profissionalização. Na maioria das vezes, as atividades são lideradas por padres ou outros religiosos mais ou menos especializados, mas que quase sempre se dividem entre essa e outras funções não menos importantes.

O porta-voz do Vaticano e Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, por exemplo, é o Pe. Federico Lombardi – que permanece no posto. Vale lembrar que o médico e jornalista Joaquín Navarro-Valls esteve nesse cargo durante mais de 20 anos. Entretanto, além de ser mais teórico do que jornalista “do mercado” (como é o caso de Burke), sua função era mais de organizador dos veículos de imprensa do Vaticano. Já Burke será conselheiro direto das autoridades da Santa Sé.

De qualquer forma, o fato de a Igreja se abrir para a presença de um jornalista profissional dentro do Vaticano mostra que, demorou, mas está caindo uma ficha importante:

Sabe-se que a cobertura da grande imprensa sobre a Igreja é predominantemente negativa (como é para quase tudo), mas será que isso é um problema só da imprensa? Ou seria também um problema da Igreja, que ainda não sabe direito transmitir as mensagens que quer transmitir?

Em vez de apenas se queixar sobre os problemas da mídia, que existem e precisam ser apontados e analisados, agora com Burke a Igreja passa a buscar os problemas de sua própria estratégia de comunicação.

Um bom jornalista profissional saberá que a estratégia de ocultar fatos ou dificultar o acesso da imprensa às informações é sempre pior do que ajudá-la a obter essas informações ou a esclarecer melhor qual é a ordem das coisas.

Burke afirmou, em entrevista à Associated Press, que seu trabalho será semelhante ao do conselheiro de comunicação da Casa Branca (Estados Unidos). “Vamos formatar a mensagem, vamos moldar a mensagem, vamos tentar garantir que todos permaneçam na mensagem. E isso é difícil”, declarou.

A decisão de contratar Burke é, naturalmente, resultado do recente escândalo de vazamento de documentos secretos do Vaticano (que ficou conhecido como “VatiLeaks”, saiba mais aqui).

Segundo o jornalista italiano e também vaticanista Andrea Tornielli, “a Secretaria de Estado finalmente levou o problema a sério depois de ser atingida no estômago após uma série de ocasiões nas últimas semanas”.

Torçamos para que outros níveis da Igreja – dioceses, conferências episcopais, universidades, paróquias – caminhem no mesmo sentido, sem precisar antes de uma pesada dor de estômago para procurar o remédio.

Atualizado às 22h02 com informações sobre Joaquín Navarro-Valls.

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