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O voto católico em Obama

Resolvemos propositalmente esperar até o fim de semana para escrever neste blog sobre a reeleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos, que ocorreu na última terça-feira (6). Queríamos ver qual seria a reação da mídia católica e dos jornalistas de religião e, como imaginávamos, muito se falou sobre as supostas “incertezas” nas relações diplomáticas entre a Santa Sé e os Estados Unidos. Mas essa não parece ser a grande questão neste momento.

Se o presidente é o mesmo, os partidos são os mesmos, o Papa é o mesmo, a relação continua sendo a mesma: delicada, especialmente no que diz respeito às questões da chamada “defesa da vida”. Já tratamos neste blog da insatisfação dos bispos católicos dos Estados Unidos com a reforma da saúde do governo Obama, que obriga empresas  a fornecerem plano de saúde para seus funcionários (com acesso a anticoncepcionais, pílulas do dia seguinte e aborto em alguns casos) e sobre a mudança de posição pessoal de Obama a respeito do casamento de pessoas do mesmo sexo. Ele se tornou o primeiro presidente dos Estados Unidos a aprovar o “casamento gay”. Em ambos os casos, as decisões foram fortemente contrárias ao posicionamento oficial da Igreja, o que ajuda a explicar por que a relação está abalada.

A grande questão que precisa ser analisada e estudada por especialistas agora é o fato de que metade dos eleitores que se dizem católicos votou em Obama, ou seja, contra a recomendação dos bispos católicos de seu país. Está na cara que temos aí um conflito. Os bispos americanos vinham insistindo há meses principalmente na questão do direito à vida e à família, criticando qualquer iniciativa do governo Obama em favor do aborto e da contracepção. E, mesmo assim, deu Obama.

Candidato derrotado, Mitt Romney

Mais do que isso, em referendo realizado no mesmo dia da eleição presidencial, eleitores de Washington, Maine e Maryland aprovaram medidas que legalizam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em Maine, apenas três anos atrás os cidadãos haviam rejeitado a mesma emenda. Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, o “casamento gay” foi aprovado em todos os Estados em que foi colocado à prova. E, em Minnesota, uma proposta de proibição para essa união foi rejeitada pela população.

Em outras palavras, mesmo após uma intensa e agressiva campanha dos bispos, muita gente, inclusive católicos, votou em Obama. O que poderia ter causado isso? São várias possibilidades. Mas fato é que vem ocorrendo uma forte mudança nos padrões culturais e comportamentais de muitos países, não só nos Estados Unidos, que vai de encontro ao ensinamento da Igreja, cuja mensagem vem sendo rejeitada por grupos que antes a aceitavam sem questionar muito. São cada vez mais fortes e mais presentes os grupos feministas que defendem o aborto, os grupos de defesa dos direitos dos homossexuais e os ateus engajados, por exemplo. É a tal da “secularização” dando as caras novamente, e com força.

Cardeal Timothy Dolan, de Nova York

Outra forma de se encarar a questão é analisar a maneira como a Igreja vem transmitindo sua mensagem. Fazer a chamada “defesa da vida” com discursos agressivos pode não ser a forma mais eficiente. O sarcasmo, a ironia e as mensagens indiretas podem ser interpretados como arrogância e abuso de autoridade, lembrando a imagem da antiga Igreja que mais reprimia do que acolhia. “Chamar para a briga” num cenário de divisão pode não ser a forma mais inteligente de mobilizar a sociedade.

E é exatamente o que a Igreja tem feito – pedido uma firme mobilização em favor da liberdade religiosa, da defesa da vida e da família. Em editorial, o jornal L’Osservatore Romano afirmou que a Igreja não sai derrotada e que os católicos devem defender o ensinamento da Igreja diante de ideologias politicamente corretas que invadem todas as culturas do mundo e contrariam as bases de nossa sociedade.

O presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos (USCCB), Cardeal Timothy Dolan, grande porta-voz da campanha dos bispos contra Obama, disse que eles rezam pelo presidente, mas pediu que Obama busque o bem comum, especialmente cuidando dos mais vulneráveis, “o que inclui os não nascidos, os pobres e os imigrantes”. Segundo Dolan, os bispos católicos vão continuar defendendo “a vida, o casamento e nossa mais querida liberdade, a liberdade religiosa”. Para ele, obrigar católicos a obedecer leis que favorecem a contracepção, por exemplo, é um atentado à liberdade religiosa.

Há que se observar, ainda, que Obama não ganhou a eleição sozinho. Ele disputou contra Mitt Romney, que tem lá suas qualidades e defeitos, e cujo Partido Republicano tem nos assuntos bélicos tradição e gosto mais do que comprovados. Sendo assim, o que pode ser “defesa da vida” para alguns eleitores católicos pode não ser a mesma “defesa da vida” para outros. É uma questão de avaliar qual é a prioridade. E as prioridades mudam.

De qualquer forma, o Papa Bento XVI saudou o presidente eleito, oferecendo suas orações para que Deus o ajude a conduzir suas sérias responsabilidades (o texto da mensagem não foi divulgado). No seu discurso de vitória, Obama disse que volta à Casa Branca mais inspirado e determinado. “O reconhecimento de que temos esperanças e sonhos comuns não acaba com todos os impasses, nem resolve nossos problemas ou substitui o cuidadoso trabalho de construir consensos e assumir compromissos difíceis e necessários para conduzir este país adiante”, declarou.

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A nova posição de Obama sobre o casamento gay e a reação dos bispos

Nesta semana, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez uma declaração histórica na rede de televisão americana ABC dizendo ser favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Imediatamente, os bispos católicos do país e outros grupos da sociedade reagiram, bem ou mal.

Vamos ver aqui o que disse Obama, em que contexto, e o que disseram alguns bispos. Antes de mais nada, recordamos que o objetivo deste blog de jornalismo religioso não é se posicionar contra ou a favor disso ou daquilo, mas apenas relatar o que aconteceu. Então vamos lá.

A declaração de Obama foi histórica porque ele se tornou o primeiro presidente americano a se posicionar nesse sentido. Grupos de defesa dos direitos dos homossexuais fizeram as pazes com Barack Obama, que na campanha eleitoral de 2008 havia se mostrado veementemente contra o chamado “casamento gay”. Naquela ocasião, Barack Obama afirmou: “Acredito que o casamento é a união entre um homem e uma mulher e, para mim, como cristão, também é uma união sagrada.”

Agora, o presidente dos Estados Unidos mudou de ideia. Disse que, depois de conversar com amigos, parentes e vizinhos percebeu que há muitas pessoas “em relações monogâmicas homossexuais, que estão criando crianças juntos”. Declarou Obama: “Eu chego à conclusão de que, para mim, pessoalmente, é importante seguir e afirmar que casais do mesmo sexo devem poder se casar.” Entretanto, ele deixou claro que cada Estado americano deve avaliar essa questão e ter a sua própria lei.

Analistas políticos dizem que, em 2008, quando Obama (Partido Democrata) era oposição e disputava contra o senador John McCain (Partido Republicano), precisava do apoio dos grupos chamados “mais conservadores” (já disse que não gosto dessas definições “progressista”, “conservador”, porque não explicam nada, mas lá eles falam assim, paciência). Muitos cristãos e especialmente os católicos, muitos deles latinos, votaram em Obama com gosto – não só por isso, claro, mas também por isso.

Pesquisas mostram que atualmente metade da população aprova leis que liberam o “casamento gay” e metade não aprova. Assim, ao se declarar a favor, Obama assumiu uma postura política arriscada. Embora possa se aproximar de grupos que cada vez mais ganham força política no país, como os homossexuais, pode acabar se afastando de outros grupos mais tradicionais – que debandariam para o lado da oposição, o Partido Republicano, “mais conservador”.

Mitt Romney, provável adversário de Obama

Os que apoiam Obama dizem que ele foi corajoso ao afirmar publicamente, em pleno ano eleitoral, o que realmente acha. Além disso, acreditam que a sociedade já não leva em consideração essas questões na hora de votar, separando-as da política partidária. Entendem que o país evoluiu e deve dar direitos iguais a todos.

Os que são contrários a Obama dizem que ele só está sendo político, querendo se aproximar mais da parcela da população que se afastou e que de qualquer forma não votaria em Mitt Romney (provável candidato Republicano). Também acusam Obama de querer desviar o debate dos verdadeiros problemas do país, como a economia, que vai bem mal. Vale lembrar que o voto não é obrigatório nos Estados Unidos.

Mas os bispos católicos dos Estados Unidos não querem saber se a nova posição de Obama é uma convicção real ou apenas uma manobra política. Para eles, Obama vem traindo a confiança daqueles que votaram nele lá atrás. E a relação entre os bispos e Obama já estava estremecida por causa das mudanças na política de saúde pública, conforme relatamos há um tempo, neste post aqui.

O presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB), Cardeal Timothy Dolan, de Nova York, disse que os comentários de Obama “apoiando a redefinição do casamento são profundamente entristecedores”.

Cardeal de Nova York, Timothy Dolan

Ele afirmou que os bispos católicos se unem ao presidente e ao governo sempre que adotam medidas que fortalecem o casamento e a família, mas, desta vez, as palavras de Obama “enfraquecem a instituição do casamento, a principal pedra angular de nossa sociedade”. Dolan acrescentou que reza por Obama todos os dias: “E continuarei rezando para que ele e sua administração ajam de forma justa para apoiar e proteger o casamento como uma união de um homem e uma mulher.”

Outro bispo que se manifestou sobre o tema foi Dom Salvatore Cordileone, da Diocese de Oakland (Califórnia), presidente do Subcomitê para Promoção e Defesa do Casamento da USCCB. Mas ele veio a público para falar sobre uma emenda na lei no Estado da Carolina do Norte, que proibiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Segundo Cordileone, a decisão reafirma “o sentido autêntico e perene do casamento”. Aderiram a ele os bispos Dom Michael Burbidge, de Raleigh, e Dom Peter Jugis, de Charlotte, todos do mesmo Estado.

Dom Cordileone, de Oakland

“Espero que o presidente Obama também reconheça o papel essencial (do casamento entre um homem e uma mulher para o bem comum). Esta não é uma questão partidária”, comentou o bispo de Oakland. Para ele, toda criança tem o direito básico de ser bem-vinda e criada por uma mãe e um pai.

Em resposta a Obama, o pré-candidato Mitt Romney reafirmou sua posição contrária ao “casamento gay”. Mas nem por isso já tem o apoio dos bispos. Ainda é preciso acompanhar mais a campanha.

Vale lembrar que, nos Estados Unidos, cada Estado tem autonomia para decidir sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em 31 deles, a prática é ilegal e em 7 é permitida pela Lei.

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A insatisfação dos bispos com a reforma da saúde no governo Obama

Bispos católicos dos Estados Unidos bateram de frente com o governo do presidente Barack Obama nas últimas semanas por causa de uma regra administrativa relacionada à reforma do sistema de saúde aprovada em 2010. Essa regra passou a exigir que todas as empresas que fornecem plano de saúde para seus funcionários ofereçam, inclusive, o acesso a métodos contraceptivos, inclusive anticoncepcionais e pílulas do dia seguinte para mulheres.

Para entender o questionamento dos bispos, é preciso saber que nos Estados Unidos não existe  um sistema de saúde pública em si. Cada indivíduo tem de ter o seu plano e existem planos de saúde do governo. A reforma da saúde proposta por Obama possibilitou o acesso de milhões de pessoas desamparadas a um plano de saúde. Os bispos apoiaram a reforma de um modo geral, com a ressalva de que o dinheiro público não deveria ser destinado ao aborto ou aos métodos contraceptivos.

Vale lembrar também que a Igreja Católica é oficialmente contra qualquer tipo de método contraceptivo, pois entende que o sexo deve ser praticado dentro do casamento e  que o casamento visa ao bem dos cônjuges e de seus descendentes – e para que haja descendentes,  é preciso que o casal esteja aberto a tê-los. Entende que os filhos são um dom de Deus e não podem ser rejeitados. Esta é a posição oficial da Igreja desde que o Papa Paulo VI assim a determinou na encíclica Humanae Vitae – que reflete sobre a vida humana como um todo, e não só sobre esse tema. Digo que é a posição oficial porque alguns grupos da Igreja defendem uma flexibilização nessa ideia. Mas não é bem disso que estamos falando agora.

Nesse contexto, o bispos dos Estados Unidos ficaram furiosos quando a nova regra do “Obamacare”, apelido dado ao programa de saúde, passou a exigir que todos os planos de empresas fornecessem contraceptivos. Isso porque há milhares de empresas ligadas à Igreja no país, como escolas, hospitais, escritórios e até mesmo paróquias, além de milhões de empresários católicos ou protestantes que não querem financiar a contracepção e o aborto.

Liderado pelo arcebispo de Nova York, cardeal Dom Timothy Dolan, o episcopado questionou duramente o governo Obama a respeito da saúde pública. E pediu mudanças na regra, pois entende que ela é um desrespeito à liberdade religiosa, garantida na Constituição do país. A reação de Obama foi quase que imediata: o presidente desistiu da exigência de que  organizações religiosas fossem obrigadas a fornecer métodos de controle de natalidade. Em vez disso, os próprios planos de saúde deveriam se responsabilizar. O problema aí é que, em muitos casos, os planos de saúde são das próprias instituições religiosas, o que torna a questão ainda mais complicada. Não está claro como vai ficar isso.

O cardeal Dolan

Por esse e por outros motivos, os bispos não estão satisfeitos. Pedem uma “isenção de consciência” para os grupos religiosos que se opuserem à regra. Além disso, ainda são contrários ao fato de que o governo manteve a cobertura à esterilização, à contracepção e a métodos abortivos nos planos de saúde em geral. Também questionam o funcionamento adminstrativo da regra. Pedem uma “cuidadosa análise moral” e criticam a “intromissão” do governo em questões de governança religiosa.

Para complicar ainda mais o embate, algumas religiosas católicas dos Estados Unidos, especialmente de congregações que atuam na área da saúde, se manifestaram diversas vezes a favor da reforma, que consideram essencial para a população mais carente. Ao fazer isso, elas contrariam os bispos em parte, pois defendem o acesso de todos à saúde pública sem questionar pontualmente as políticas públicas de contracepção. Mas concordam com a “isenção de consciência” para instituições religiosas e acham que essa solução já basta.

Vamos acompanhar os próximos capítulos dessa novela. Além da questão religiosa, o caso desgastou significativamente a imagem do presidente Barack Obama – candidato à reeleição neste ano – também junto a outros grupos religiosos que seguem a mesma linha de pensamento dos bispos católicos.

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