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A misericórdia antes do julgamento

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Análise publicada na página 13 de O São Paulo, em dezembro de 2015

Um gesto simples, mas fortemente simbólico. Assim descreveu o Papa a abertura da “porta santa” da Basílica de São Pedro, no Vaticano, formalizando com ela abertura do Ano Santo Extraordinário da Misericórdia. “Entrar pela porta significa descobrir a profundidade da misericórdia do Pai, que a todos acolhe e vai ao encontro de cada um pessoalmente”, explicou o pontífice durante a homilia da missa de terça-feira (8), Solenidade Imaculada Conceição. “Este será um ano em que se cresce na convicção da misericórdia”, disse. “Temos que colocar a misericórdia antes do julgamento, e em todo caso o julgamento de Deus será sempre à luz da misericórdia.”

Uma semana antes, o pontífice havia antecipado a abertura do Jubileu na cidade de Bangui, na República Centro-Africana. Agora, o ano jubilar está inaugurado para toda a igreja e várias “portas santas” serão abertas nas dioceses de todo o mundo. “Que atravessar a porta santa, portanto, nos faça sentir participantes deste mistério de amor, de ternura. Abandonemos toda forma de medo e de temor, porque isso não é próprio de quem é amado. Vivamos a alegria do encontro com a graça que tudo transforma”, acrescentou Francisco em sua homilia.

O porquê de um Jubileu da Misericórdia – Este ano jubilar, convocado pelo próprio Papa Francisco, é para ele uma grande oportunidade de a Igreja Católica aprofundar o mistério do perdão de Deus, apesar das fraquezas humanas, e um convite a uma maior abertura ao próximo. “Em qualquer lugar onde há uma pessoa, lá a Igreja é chamada a encontrá-la para levar a alegria do Evangelho e levar a misericórdia e o perdão de Deus”, declarou na homilia do domingo.

Mais do que isso, na audiência geral da quarta-feira (9), o Papa fez um resumo dos motivos que o levaram a convocar um Jubileu da Misericórdia. “Não digo: é bom para a Igreja este momento extraordinário. Digo: A Igreja precisa desse momento extraordinário”, detalhou. “Em nossa época de profundas mudanças, a Igreja é chamada a oferecer a sua contribuição peculiar, tornando visíveis os sinais da presença de da proximidade de Deus.”

Segundo o pontífice, é um momento para que a Igreja aprenda a escolher somente “o que Deus gosta mais”, que, para o Papa Francisco, é “perdoar o seus filhos, ter misericórdia deles, para que eles, por sua vez, possam perdoar os irmãos, resplendendo como luzes da misericórdia de Deus no mundo”.

Missionários da misericórdia – Duas das decisões mais importantes do Papa Francisco para o Ano da Misericórdia foram a criação dos “missionários da misericórdia” e a abertura para que, durante o Ano Santo, todos os sacerdotes católicos possam perdoar o pecado de aborto.

O presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, arcebispo Rino Fisichella, explicou à imprensa que os missionários da misericórdia são um grupo de 800 padres de todo o mundo, nomeados exclusivamente pelo Papa, autorizados a perdoar os chamados “pecados reservados à Santa Sé”.

Esses pecados, considerados mais graves pela doutrina da Igreja, são cinco: primeiro, a profanação da Eucaristia (isto é, contra a presença do corpo e o sangue de Cristo); segundo, a absolvição de um cúmplice (quando um sacerdote absolve um pecado do qual participou); terceiro, a ordenação de um bispo sem o mandato do Papa; quarto, a violação do sigilo sacramental (revelar o que foi ouvido em confissão); quinto, a violência física contra o pontífice.

Aborto e misericórdia – No caso do aborto, durante o Ano Santo, o Papa autorizou que todos os sacerdotes possam absolvê-lo, algo que não ocorre normalmente. Por ser considerado um pecado que leva à excomunhão automática – isto é, ao cometê-lo as pessoas que participaram do aborto deixam de estar em comunhão com a Igreja –, esse pecado normalmente só pode ser absolvido pelos bispos ou seus delegados (padres nomeados pelo bispo para poder exercer esse ministério em seu nome).

Quando anunciou a permissão para que todos os padres possam absolver o pecado de aborto, Papa Francisco divulgou uma carta explicativa. “Penso, em modo especial, a todas as mulheres que recorreram ao aborto. Conheço bem os condicionamentos que as levaram a essa decisão. Sei que é um drama existencial e moral”, disse.

“O perdão de Deus a quem se arrependeu não pode ser negado, sobretudo quando, com coração sincero, se aproxima ao sacramento da Confissão para obter a reconciliação com o Pai. Também por esse motivo decidi, não obstante qualquer disposição em contrário, conceder a todos os sacerdotes para o Ano Jubilar a faculdade de absolver do pecado de aborto quantos o cometeram e, arrependidos de coração, pedirem que lhes seja perdoado.”

Aos padres, Francisco pediu uma preparação especial para essa “grande tarefa”. Que saibam “conjugar palavras de acolhimento genuíno com uma reflexão que ajude a compreender o pecado cometido, e indicar um percurso de conversão autêntica para conseguir entender o verdadeiro e generoso perdão do Pai, que tudo renova com a sua presença”.

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Congresso mundial no Vaticano discute identidade e missão da escola católica

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Reportagem publicada na página 11 de O São Paulo, em novembro de 2015

Identidade, missão, formação dos formadores e os grandes desafios que as escolas católicas enfrentam para promover valores cristãos sem deixar de dialogar com o mundo. Foram esses os quatro eixos principais das discussões promovidas no congresso mundial “Educar hoje e amanhã”, realizado no Vaticano entre 18 e 25 de novembro. Uma das inspirações do encontro são os 50 anos dos documentos do Concílio Vaticano II, como a declaração Gravissimum educationis, sobre a educação cristã

Organizado pela Congregação para a Educação Católica, o encontro reuniu 2,2 mil representantes de todo o mundo, inclusive muitos brasileiros. Entre eles, o bispo auxiliar de São Paulo e vigário episcopal para a Educação e a Universidade, Dom Carlos Lema Garcia, e o Pe. Vandro Pisaneschi, Coordenador de Pastoral do Vicariato Episcopal para a Educação e a Universidade. Eles conversaram com O SÃO PAULO no Pontifício Colégio Pio Brasileiro, em Roma, sobre os destaques do congresso.

Uma das grandes riquezas do congresso, segundo Dom Carlos, foi justamente encontrar pessoas de todo o mundo que vivenciam desafios parecidos com os que são encontrados em São Paulo. À frente do Vicariato, Dom Carlos explicou que vem visitando escolas e universidades católicas presentes na Arquidiocese e o congresso o ajudou a conhecer melhor outras realidades de todo o mundo. “Nós estamos acompanhando de perto as escolas e as universidades católicas, especialmente para garantir a identidade católica. E no congresso se falou muito em missão e identidade. Tudo o que foi falado no congresso, nós sentimos no dia a dia”, disse.

Dom Carlos Lema Garcia, bispo auxiliar de São Paulo responsável pela educação católica

Diversos palestrantes do congresso observaram que é impossível separar a identidade de uma instituição católica de sua missão. A missão educativa de qualquer escola deve ir ao encontro da identidade evangelizadora de uma instituição católica. Porém, segundo eles, quando as duas dimensões se separam, a escola católica falha em sua função social.

“Às vezes, por exemplo, a escola começa a derivar para o trabalho de voluntariado, assistência social, e isso é interessante, mas não pode ser desvinculado da identidade. A escola não pode se transformar numa espécie de super-ONG, esquecendo que sua razão de ser é a evangelização”, declarou Dom Carlos.

Ele afirmou que “a escola católica deve existir por ser sujeito de evangelização na Igreja”, mas ao mesmo tempo não se fechar dentro dos seus próprios muros, mensagem transmitida também pelo Papa Francisco. “Não podemos formar um grupo católico, nos proteger do clima que tem lá fora. Temos que ser conscientes da nossa identidade, mas encontrar maneiras de dialogar com o mundo de hoje.”

Nesse sentido, outro tema muito abordado no congresso, segundo o Pe. Vandro, foi a “formação integral da pessoa”. Para ele, “o ser humano possui perguntas dentro de si que só os conceitos e conteúdos não respondem”. A ideia é que as escolas com identidade católica precisam ir além da formação técnica e da excelência acadêmica, embora sejam também essenciais. “É importante que a gente não perca essa visão transcendental do homem”, algo que o Papa também destacou. “Quando a escola assume a sua função social? Quando o ser humano aprende a trabalhar pelo bem comum”, afirmou o coordenador do Vicariato.

Para isso, é preciso que os formadores, ou educadores, também conheçam os princípios da instituição em que trabalham. Dom Carlos explicou que o congresso despertou um olhar mais amplo para esse ponto, que pode ser colocado em prática pelo Vicariato. “Podemos dar esse caminho, ter iniciativas concretas. Formação espiritual, religiosa e ética dos formadores”, disse, ao mesmo tempo alegrando-se de que na Arquidiocese já exista a estrutura do Vicariato para esses projetos. “Temos muito o que crescer, mas só o fato de ter um Vicariato nessa linha já corresponde a essa expectativa.”

O Pe. Vandro acrescentou que a formação dos formadores deve ser focada na transmissão de valores. “Os professores da escola católica não precisam ser necessariamente católicos, mas precisam dar testemunho dos valores cristãos”, disse. “Eles educam através do testemunho, na atitude de sala de aula tem de estar aberto ao diálogo, ao encontro, à fraternidade, porque tudo isso são valores cristãos que devem ser vividos.”

Para dar um exemplo, Pe. Vandro mencionou o caso de Bangladesh, um país onde prevalecem o Islamismo e o Hinduísmo. “Os professores dão exemplo no silêncio. Não podem falar de Cristo publicamente, mas o testemunho do professor ajuda o aluno a entender a ética, a parceria, o não aceitar uma escola competitiva que forma robôs para passar em determinados concursos, mas formar o coração dos seres humanos.”

Outro grande desafio das escolas católicas é não ser nem “elitista nem seletista”, definiu o Pe. Vandro, lembrando novamente um pedido do Papa Francisco de ir ao encontro das periferias existenciais. “Se as faculdades católicas forem muito boas mais continuarem só educando um determinado nível social, elas não vão atingir seu fim. Uma rede de educação católica que não é inclusiva não atinge a sua finalidade.” Dom Carlos completou dizendo que o Vicariato tenta promover a presença formativa nas escolas públicas da cidade e do Estado de São Paulo. “A pedido até da Secretarias de Educação, promovemos seminários de formação de professores da rede pública, para falar sobre valores, dignidade humana, virtudes”, afirmou.

Também Dom Julio Endi Akamine compareceu ao congresso, representando a Comissão Episcopal Pastoral para a Cultura e Educação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). No mesmo sentido, ele acredita que a educação católica tem como finalidade formar as pessoas, não somente para o mercado de trabalho ou para ter um bom salário, mas prepará-las para a vida, transmitir valores e princípios. A formação dos educadores é no sentido de ajudá-los a se identificar com o mesmo “espírito” da instituição católica, mesmo que tenha convicções diferentes. “A instituição católica pode ajudar a lançar pontes de encontro entre as culturas e as religiões”, avalia.

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Sínodo dos Bispos fortalece processo de discernimento na Igreja

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Análise publicada na página 23 de O São Paulo, em outubro de 2015

“Discernimento” é uma palavra-chave na última assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a família, realizada de 4 a 25 de outubro. O Sínodo foi um confronto direto de ideias, afinal, ocorre justamente para discutir questões complexas. Apesar das diferenças de opinião sobre como conciliar doutrina e prática pastoral, seu relatório final foi aprovado com significativo consenso dos 270 padres sinodais. “Para a Igreja, concluir o Sínodo significa voltar a realmente ‘caminhar juntos’, para levar a todas as partes do mundo, a cada diocese, a cada comunidade e a cada situação, o sustento da misericórdia de Deus”, afirmou o Papa Francisco, no encerramento dos trabalhos.

O Sínodo é um processo de discernimento – Em várias ocasiões, o Papa Francisco recordou que a palavra “sínodo” quer dizer “caminhar juntos”, um conceito “fácil de exprimir em palavras, mas não tão fácil de colocar em prática”. De fato, desde o início da assembleia, o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, relatou que os participantes tinham “diferenças de opiniões, entre quem está mais preocupado em recordar o ensinamento católico e quem destaca mais a necessidade de dialogar com o mundo”.

Como declarou o Papa, “no caminho deste Sínodo, as opiniões diferentes que foram manifestadas abertamente certamente enriqueceram e animaram o diálogo, oferecendo uma imagem viva de uma Igreja que não usa ‘modelos pré-confeccionados’, mas que bebe da fonte inesgotável de sua fé, água viva para saciar os corações áridos”. De acordo com o pontífice, o processo foi cansativo, mas os padres sinodais saem enriquecidos. “Muitos de nós experimentaram a ação do Espírito Santo, que é o verdadeiro protagonista e criador do Sínodo”, disse.

O arcebispo de Viena, cardeal Christoph Schönborn

Uma imagem parecida foi apresentada na cerimônia dos 50 anos de instituição do Sínodo dos Bispos, em 17 de outubro, pelo cardeal Christoph Schönborn. O arcebispo de Viena recordou o “Concílio de Jerusalém”, referindo-se à reunião narrada nos Atos dos Apóstolos, na qual os discípulos de Jesus deviam decidir se sua mensagem era só para os judeus ou também para os pagãos.

Aquele debate, contou o cardeal, começou com um “dramático conflito” e teve “animadas discussões”, mas terminou com o parecer do apóstolo Pedro. Ele simplesmente recordou o que Deus os havia dado até ali: não discriminou os pagãos e “purificou os seus corações com a fé”, contou o cardeal.

Um espírito semelhante deve inspirar o Sínodo, dizia Dom Schönborn. “Em Jerusalém, a questão era o discernimento da vontade e do caminho de Deus”, contou. “Discussões acaloradas, mais do que isso, brigas, e a disputa intensa fazem naturalmente parte do caminho sinodal. Já em Jerusalém foi assim. Mas o objetivo dos debates, o objetivo dos testemunhos é o discernimento comum da vontade de Deus. Até mesmo quando se vota, não se trata de lutas de poder, de formações de partidos, mas desse processo de formação de um juízo comum, como vimos em Jerusalém”.

Enfim, o conflito de ideias é parte do processo. Conforme afirmou à Rádio Vaticano o cardeal húngaro Péter Erdő, relator-geral do Sínodo, “existiam, existem e podem existir posições diferentes, acentuações pastorais diferentes e também a nossa formação teológica pode ser diferente na mesma e única verdade católica. Mas, diversamente da impressão que algumas notícias da imprensa davam, sempre houve uma atmosfera de fraternidade. Mais do que tudo, houve um confronto de ideias, de propostas, e não de lutas ou combates”.

Cardeal Péter Erdő

O discernimento como resposta do Sínodo – Ao final de seu discernimento, o Sínodo indicou que o próprio discernimento é um princípio geral para ir ao encontro das famílias. O relatório final o propõe não só para orientar pessoas divorciadas que vivem em segunda união, mas também o discernimento sobre a vocação da família em diversas realidades, sobre os motivos pelos quais muitos jovens se afastam da Igreja, sobre as características do matrimônio em outras tradições religiosas, no processo de acompanhamento dos noivos, no discernimento vocacional.

Enfim, especialmente nas situações de sofrimento, os padres são convidados a “discernir” juntos aos fiéis sobre cada circunstância, conforme o ensinamento da Igreja e a orientação do bispo local.

Mais de uma vez, o relatório cita o discernimento baseando-se na exortação Familiaris consortio, de João Paulo II. “Saibam os pastores que, por amor à verdade, são obrigados a bem discernir as situações. O grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, e podem existir fatores que limitam a capacidade de decisão. Portanto, enquanto a doutrina é expressa com clareza, devem ser evitados juízos que não consideram a complexidade das diversas situações, e é necessário estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição”, diz.

O Sínodo não oferece resposta para todos os problemas, pois tem um caráter consultivo, de ajudar o Papa a guiar a Igreja. Conforme comentou o arcebispo italiano Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização, o Sínodo se mostrou atento às situações culturais, sociais e religiosas do mundo contemporâneo e analisou como a Igreja pode ser compreendida nesse mundo. À Rádio Vaticano, ele declarou: “Nós continuamos presentes no mundo, com uma proposta eficaz, forte, que é exatamente o anúncio do Evangelho. E, não esqueçamos, é um anúncio direcionado a todos, ninguém excluído.”

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Em Cuba, Papa Francisco propõe ‘revolução da ternura’

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Análise publicada na página 9 de O São Paulo, em setembro de 2015

O Papa Francisco convidou os cubanos à revolução. Mas uma revolução bem diferente daquela armada, socialista, marxista, liderada por Fidel Castro e Che Guevara nos anos 1950. Trata-se da “revolução da ternura”.

A ideia de que a alegria de ser cristão possa levar as pessoas a “construir pontes” e manifestar compaixão. Um caminho de solidariedade dentro do próprio país e um novo caminho de reconciliação entre os povos. A mensagem ganha ainda mais força no contexto da viagem do Papa a Cuba e aos EUA, países que recentemente retomaram suas relações diplomáticas, após um acordo histórico mediado pelo Papa e pela Santa Sé.

“Nossa revolução passa pela ternura, pela alegria que se faz proximidade, que se faz sempre compaixão”, afirmou o pontífice, em missa celebrada no Santuário da Virgem da Caridade do Cobre, padroeira de Cuba, localizado em Santiago de Cuba.

Conforme escreveram alguns vaticanistas, como o americano John Allen Jr, do Boston Globe, Francisco usou deliberadamente a palavra “revolução”. Curiosamente, não o fez em nenhuma das praças “da Revolução” em que esteve – uma em Havana e a outra em Holguín. Muito menos no Palácio da Revolução, que fica na praça de Havana. Todos esses nomes remetem à famosa Revolução Cubana, ao nacionalismo, ao socialismo de Fidel Castro.

O Papa falou de “revolução” em solo cubano, mas o fez no Santuário da Virgem da Caridade do Cobre, padroeira de Cuba. Parece que, discretamente, Francisco quis dar um novo significado ao termo, consagrado no país por uma ditadura de esquerda que ao longo da história viveu momentos de auge e de depressão. Francisco talvez queira recordar que o povo cubano tem uma identidade revolucionária, mas essencialmente cristã, que se desenvolveu com a devoção à Virgem. Conforme relatou a vaticanisa Cindy Wooden, da agência Catholic News Service, embora somente 60% da população cubana seja batizada na Igreja Católica, a pequena estátua de Nossa Senhora da Caridade, descoberta há 400 anos, “é amplamente considerada um símbolo da identidade cubana e da força, apesar das dificuldades”.

Essa raiz cristã, pacífica, perseverante até mesmo na dor, é que, segundo o Papa, semeia a misericórdia, grande lema de seu pontificado. “Como Maria, mãe da caridade, queremos ser uma Igreja que saia de casa para construir pontes, derrubar muros, semear reconciliação. Como Maria, queremos ser uma Igreja que saiba acompanhar todas as situações penosas de nossa gente”, declarou. “A partir daqui (do Santuário), ela protege as nossas raízes, nossa identidade, de modo que nós nunca podemos nos desviar para caminhos de desespero.”

Portanto, Papa Francisco procurou recordar os cubanos de que a “revolução da ternura” em Cuba precede e prevalece sobre a socialista, que, politicamente, ainda comanda, atualmente com o presidente Raúl Castro.

Para isso, o pontífice recorreu a um símbolo de unidade, a Virgem, já que, como descreveu John Allen, Cuba é um país repleto de divisões políticas. Há os que apoiam o governo socialista e os que não apoiam, os que ficaram na ilha e os que fugiram em busca de asilo político em outros países, os que estão com o governo cubano e os que gostam da influência americana.

Com uma retórica forte, como é tradição em Cuba, mas permeada pelo tema da misericórdia, o Papa sinalizou que a religião é maior o ponto de unidade na região. Reforçou uma ideia que já havia sido apresentada por João Paulo II e Bento XVI, de que Cuba precisa começar um novo caminho de reconciliação com o mundo, mas que ganha vigor agora, com a retomada das relações com os EUA.

De acordo com o vaticanista Philip Pullella, da agência Reuters, provavelmente por esse motivo Francisco evitou temas polarizantes entre Cuba e EUA, como o fim do embargo econômico americano sobre a ilha: “O Papa terminou sua viagem a Cuba na terça-feira e partiu para os EUA com uma mensagem de reconciliação entre antigos inimigos na Guerra Fria”, relatou.

Também o jornalista francês Jean-Marie Guénois escreveu, em análise publicada no jornal Le Figaro, que Francisco “quer fazer da reconciliação entre estes dois inimigos ‘um exemplo’ para o mundo, demonstrando o potencial da ‘cultura do diálogo’ que esse jesuíta promove, dentro e fora da Igreja”. Ao fazer discursos de teor fortemente religioso, ainda que ao mesmo tempo políticos, Papa Francisco demonstra que a Igreja acompanha a transição gradual que a ilha está vivendo e demonstra que a via do diálogo é, para ele, a mais certa.

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Lançamento de Laudato si’ tem tom de evento histórico no Vaticano

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Texto publicado na página 12 de “O São Paulo”, em junho de 2015

Poucas vezes o lançamento de um documento do papa chamou tanta atenção internacional como foi o caso da nova carta encíclica Laudato si’ (Bendito seja), do Papa Francisco.“Em nove anos, raramente ou talvez nunca tinha visto uma expectativa assim tão grande e prolongada por um documento papal”, declarou o Pe. Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, na abertura da conferência de lançamento, na manhã do dia 18 de junho, à qual O SÃO PAULO compareceu.

Segundo ele, Laudato si’ já é um marco histórico porque foi escrita com a ajuda dos bispos de todo o mundo – 15 conferências episcopais nacionais são citadas no texto, além de outras regionais. Francisco contou com a habitual consulta a especialistas, mas também mencionou amplamente o patriarca ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu, um dos primeiros líderes cristãos a lançar voz em favor do ambiente. “Papa Francisco tem um modo particular de liderança eclesial. Esta encíclica foi feita de um modo novo em relação às anteriores”, disse o Pe. Lombardi.

Cardeal Peter Turkson, principal articulador da encíclica

De acordo com cardeal Peter Turkson, presidente do Pontifício Conselho para Justiça e Paz e o principal articulador na preparação do documento, Laudato si’ é especial porque o papa “nos convida a inverter a rota atual e construir a casa comum em vez de destruir”.

Do ponto de vista teológico, explicou o arcebispo ganês, Francisco coloca no centro do debate o conceito de “ecologia integral”. Para Dom Turkson, as perguntas que o papa lança no texto nos levam a questionar o sentido da existência e os valores que estão na base da vida social. De fato, diz Francisco no documento, “essas questões não têm a ver somente com o ambiente de forma isolada; esse tema não pode ser abordado separadamente”.

O cardeal acrescentou que a ideia do Papa de escrever a primeira encíclica sobre ecologia veio da observação da realidade: “Hoje a Terra, nossa irmã, maltratada e abusada, está reclamando; e seus gemidos se unem àqueles de todo o mundo desamparado e descartado”, disse. “Papa Francisco nos convida a ouvi-los, alertando a cada um, indivíduos, famílias, comunidades locais, nações e a comunidade internacional, a uma ‘conversão ecológica’, usando as palavras de São João Paulo II.”

Um dos mais renomados teólogos da atualidade, o Metropolita ortodoxo de Pergamo, Ioannis Zizioulas, também comentou a encíclica – a primeira vez que um ortodoxo apresenta um documento papal no Vaticano. Ele destacou três aspectos principais: a importância do significado teológico da ecologia; a dimensão espiritual do problema ecológico; e a dimensão ecumênica da encíclica. “A ruptura da adequada relação entre a humanidade e a natureza se deve ao surgimento do individualismo em nossa cultura. Em nossos tempos, a busca da felicidade individual foi transformada em um ideal”, declarou. “O pecado ecológico vem da ganância humana, que cega o homem e a mulher ao ponto de ignorar ou negligenciar a verdade básica de que a felicidade do indivíduo depende de sua relação com o resto dos seres humanos.”

O Metropolita ortodoxo de Pergamo, Ioannis Zizioulas

Também comentaram o texto o cientista John Schellnhuber, fundador e diretor do Instituto Postdam de Pesquisa sobre Impacto Climático, representando especialistas em ciências naturais; a professora Carolyn Woo, presidente da agência Catholic Relief Services, representando o setor econômico-financeiro; e a professora Valeria Martano, que há 20 anos trabalha na periferia de Roma com situações de “degradação humana e ambiental”.

Como foi feita a encíclica – No voo de ida às Filipinas, em 15 de janeiro, o próprio Papa Francisco explicou como foi feita a encílcia Laudato si’: “O cardeal Turkson e sua equipe prepararam o primeiro rascunho. Então, com alguma ajuda, eu trabalhei nele e, depois, com alguns teólogos, eu fiz um terceiro rascunho e mandei uma cópia para a Congregação para a Doutrina da Fé, para a segunda seção da Secretaria de Estado e para o Teólogo da Casa Pontifícia (o sacerdote dominicano Wojciech Tomasz Giertych). (…) Três semanas atrás, recebi as respostas deles, (…) todas elas construtivas. Agora, vou tirar uma semana em março, uma semana inteira, para completá-la. Acho que até o fim de março ela estará concluída e será enviada para tradução. Acho que se o trabalho de tradução for bem, ela pode sair em junho ou julho.” O lançamento oficial foi em 18 de junho. A encíclia foi enviada com antedecência a todos os bispos do mundo, acompanhada de um bilhete pessoal do Papa Francisco, que dizia: “Caro irmão no vínculo da unidade, da caridade e da paz (L.G. 22) no qual vivemos como bispos, te envio minha carta “Laudato si” sobre o cuidado da nossa casa comum, acompanhada da minha bênção. Unidos no Senhor, e, por favor, não esqueças de rezar por mim. Francisco.”

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Centenário do genocídio armênio serve de alerta à humanidade, diz Papa

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Texto publicado na página 9 de “O São Paulo”, em abril de 2015

Patriarca de Cilicia dos Armênios Católicos, Nerses Bedros XIX Tarmouni, e Papa Francisco

Sem usar meias palavras durante missa na Basílica de São Pedro, o Papa Francisco recordou o centenário do massacre de armênios pelo Império Otomano durante e depois da Primeira Guerra Mundial. Chamando o assassinato de mais de 1 milhão de pessoas de “genocídio”, expressão rejeitada pelo governo da Turquia, o pontífice afirmou que “fazer memória do que aconteceu é um dever não só para o povo armênio e para a Igreja universal, mas para a inteira família humana, para que o alarme que vem dessa tragédia nos livre de recair em horrores parecidos, que ofendem a Deus e à dignidade humana”.

A rigor, a celebração recordou o “martírio” armênio e, durante a missa, o papa proclamou “doutor da Igreja” São Gregorio di Narek. A cerimônia foi concelebrada pelo patriarca de Cilicia dos Armênios Católicos, Nerses Bedros XIX Tarmouni, na presença de outros líderes religiosos da Igreja armênia: Karekin II, supremo patriarca e catholicos de todos os armênios, e Aram I, catholicos da Grande Casa de Cilicia. A Igreja armênia tem sua origem ligada às viagens dos apóstolos Judas Tadeu e Bartolomeu e surgiu oficialmente em 301, antes mesmo que o Império Romano se tornasse oficialmente cristão, mais de dez anos depois.

“Não existe uma família armênia ainda hoje que não tenha perdido naquele evento algum dos seus caros. Realmente aquele foi o ‘Metz Yeghern’, o ‘Grande Mal’, como chamaram aquela tragédia”, afirmou o Papa em mensagem ao povo armênio.

Impasse diplomático – Citando o Papa João Paulo II, Francisco declarou que “geralmente, esse trágico evento é definido como o primeiro genocídio do século XX”. A utilização da palavra “genocídio” pelo pontífice causou grande insatisfação no governo da Turquia, atualmente de origem otomana. A nação chamou de volta o embaixador junto à Santa Sé para “consultas”, um gesto que em relações internacionais é a manifestação de constrangimento.

O embaixador, Kenan Gursoy, afirmou à rede de TV norte-americana CNN que a Turquia ainda mantém relações diplomáticas com o Vaticano, mas a decisão do Papa de repetir a palavra “genocídio” foi unilateral. Para os turcos, o número de 1 a 1,5 milhão de mortos em 1915 e 1916 é exagerado e muitas delas se deveram aos conflitos em guerra, e não a um assassinato massivo com o objetivo de exterminar uma etnia. Oficialmente, o genocídio armênio foi reconhecido por cerca de 22 países, entre eles Itália, França, Alemanha, Rússia, Canadá e Argentina. Alguns países, como Estados Unidos e Israel, não utilizam a expressão.

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Papa Francisco proclama o Ano Santo da Misericórdia

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Texto publicado na página 9 de “O São Paulo”, em abril de 2015

O pontificado do Papa Francisco tem sido marcado pela frequente denúncia de problemas sociais, mas o tema da misericórdia é provavelmente sua principal mensagem teológica. Não é à toa que ele, no chamado “Domingo da Misericórdia”, o segundo domingo do tempo litúrgico da Páscoa, proclamou para toda a Igreja o Ano Santo Extraordinário da Misericórdia. O ano santo, ou jubilar, é marcado por muitas peregrinações e orações especiais. Uma tradição que vem já do judaísmo: a de dedicar um inteiro ano a pedidos e graças mais urgentes. Na Igreja Católica, normalmente o ano jubilar ocorre a cada 25 anos e reflete um tema pontual. Já o ano santo “extraordinário” ocorre somente quando o papa decide antecipá-lo por algum motivo.

“Uma pergunta está presente do coração de muitos: por que hoje um Jubileu da Misericórdia?”, questionou-se o Papa na homilia da oração das Vésperas (oração da tarde) na qual convocou o novo ano jubilar. “Simplesmente porque a Igreja, neste momento de grandes mudanças de época, é chamada a oferecer mais fortemente os sinais da presença e da proximidade de Deus”, respondeu. “Este não é o tempo para a distração, mas, ao contrário, para permanecer vigilantes e despertar novamente em nós a capacidade e olhar para o essencial.” Para o pontífice, este é o tempo para “oferecer a todos, a todos, o caminho do perdão e da reconciliação”. O ano santo começa na festa da Imaculada Conceição de 2015 e termina com a festa de Cristo Rei do ano que vem.

O Papa Francisco tem insistido na misericórdia desde os primeiros dias de seu pontificado. Na primeira oração do Ângelus (oração do meio-dia) que rezou na Praça de São Pedro, ele comentou o livro Misericórdia do cardeal alemão Walter Kasper. “O cardeal dizia que essa palavra muda tudo. Muda o mundo. Um pouco de misericórdia torna o mundo menos frio e mais justo”, declarou, em março de 2013. “Deus nunca se cansa de perdoar. Nunca. Mas nós às vezes esquecemos de pedir perdão.”

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