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Uma geral sobre a renúncia do Papa, o conclave e os problemas na Igreja

papa-bento-XVI-233Como era de se esperar, a renúncia do Papa Bento XVI tem provocado muita especulação. Queremos neste post tentar organizar um pouco certas ideias e, sem grandes pretensões, na medida do possível, formar uma base para que o leitor possa pensar melhor sobre o que está acontecendo, num momento tão único e delicado para a Igreja Católica.

Como dizemos na descrição deste blog, o mundo é mais complexo do que gostaríamos. Nem tudo são flores, mas tampouco é o fim do mundo ou da Igreja – pelo contrário. O post está longo, porque o tema é grande. Por isso, dividimos o texto em 5 tópicos curtos, para facilitar sua leitura:

A RENÚNCIA – O que vimos foi um fato histórico: a última vez que um Papa renunciou foi há quase 600 anos. E, como todo fato histórico, não aconteceu de uma hora para outra. Foi uma decisão pessoal e livre. Evidência: como já havíamos dito em março de 2012, a saúde de Bento XVI é frágil e ele, que tem 85 anos, há muito tempo considerava essa possibilidade. Bento XVI disse há mais de dois anos que não hesitaria em fazê-lo caso não se sentisse em condições “físicas, psicológicas e espirituais” para ser Papa. Ele governará a Igreja até as 20 horas de 28 de fevereiro de 2013.

Agora, duas semanas após o anúncio, ficou mais claro que nenhum fato específico levou o Papa à decisão, mas sim toda uma conjuntura, uma série de fatores, que aos poucos o fizeram perceber que o “ministério petrino” (referência ao apóstolo Pedro) se tornou pesado demais. Entre eles: a rotina intensa de reuniões, celebrações, viagens longas, preparação de documentos, nomeações, aparições públicas, etc; os grandes desafios que a Igreja enfrenta no mundo, como a secularização, o distanciamento dos jovens, o crescimento dos grupos evangélicos, dificuldades no diálogo com outras religiões; e os recentes escândalos, como a divulgação de documentos sigilosos (VatiLeaks), a corrupção em obras da Igreja, a pedofilia praticada por membros do clero, as disputas de poder na Cúria Romana…

imageangelos873Para lidar com tudo isso, “é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado”, afirmou Bento XVI no momento da renúncia. Ou seja, não foi só o cansaço físico, nem só problemas de saúde, nem só os escândalos, nem só disputas de poder. O Papa está ciente de que a Igreja precisa de um líder com mais disposição e mais força para enfrentar todos esses grandes desafios, que vão da Nova Evangelização até os problemas estruturais. Enfim, Bento XVI afirmou na Quarta-Feira de Cinzas que a Igreja precisa ser “verdadeiramente renovada”.

Fato é que a renúncia abre um precedente histórico, segundo o vaticanista italiano Andrea Tornielli (leia mais aqui). Outros haviam pensado em renunciar no passado – como João Paulo II, por exemplo – mas nunca o fizeram porque temiam que o papado pudesse perder força, como instituição. Temiam ser mal interpretados e abrir as portas para outras renúncias inadequadas ou até golpes contra o sumo-pontífice. Mas, consciente de que não seria mais de capaz de responder à altura a necessidades urgentes, Bento XVI renunciou “para o bem da Igreja”. Para os próximos Papas, certamente fica mais fácil fazer o mesmo se for preciso.  Não se sabe que efeitos isso terá no futuro, mas sabe-se que Bento XVI reagiu de forma corajosa e nova, num mundo que exige respostas novas a problemas novos.

Outros Papas idosos também cogitaram renunciar

Outros Papas também cogitaram renunciar

DIVISÕES NA IGREJA – Já mencionamos alguns dos principais desafios da Igreja atualmente. Mas um dos problemas sobre os quais mais se falam por aí são as disputas internas. Como já dissemos, elas são relevantes, mas não são a única causa para a renúncia.

De qualquer forma, basta observar as mensagens do Papa Bento XVI nas últimas semanas de pontificado para ver que esse problema não é para ser ignorado, nem por seu sucessor nem pela sociedade. Numa mensagem para todos os fiéis do mundo, ele criticou o que chamou de “hipocrisia religiosa” e a instrumentalização da fé para benefício pessoal, praticadas por alguns membros do clero. São essas algumas de suas maiores preocupações.

Por quê? Porque Bento XVI tentou fazer grandes reformas na estrutura e na administração da Igreja e, de fato, conseguiu melhorar muita coisa. As maiores delas foram a criação de padrões para combater a pedofilia e uma mudança de comportamento em relação ao problema. Existem documentos claros sobre como evitar e agir nessas situações, como atender as vítimas, etc. Também foi ele quem começou a reformar o sistema financeiro do Vaticano, adaptando-o aos padrões internacionais – reforma importantíssima sobre a qual já falamos detalhadamente (Leia mais).

Porém, em ambos os casos há muita coisa ainda só no papel. Quando se fala em mexer em estruturas antigas e consolidadas, é previsto que exista forte resistência interna. Portanto, o Papa fez o que podia fazer e preferiu deixar o caminho livre para alguém com mais vigor, inclusive politicamente. Com sua saída, um governo novo pode chegar, possibilitando melhorias mais radicais.

INVESTIGAÇÃO VATILEAKS – Outro assunto importante que está circulando hoje diz respeito à comissão de cardeais que investigou o vazamento de documentos sigilosos do Papa e do Vaticano, nomeada por Bento XVI. Esses cardeais se reuniram com o Papa e ficou decidido que o relatório final da investigação, sigiloso, não será divulgado aos cardeais eleitores, mas apenas ao novo pontífice. A imprensa italiana – mais especificamente a revista Panorama e o jornal La Reppublica – publicaram fortes reportagens sobre esse assunto nas últimas semanas, dizendo que o conteúdo dos documentos envolve problemas como corrupção e prostituição praticadas por membros da Cúria Romana. Bento XVI e os cardeais da comissão, conscientes da complexidade do problema e de que não dá para resolver só com documentos, decidiram que somente um novo Papa terá os instrumentos necessários para resolver tudo isso. 

downloadconclave333CONCLAVE – Nesse grande contexto, ainda não se sabe ao certo o que os cardeais eleitores querem para o futuro da Igreja. Agora eles são 116, depois da desistência de um cardeal indonésio, por doença, e da renúncia de um cardeal inglês, por ter supostamente mantido relações pessoais inapropriadas. De qualquer forma, o que se fala em Roma é que muito provavelmente o próximo Papa será um sexagenário ou, no máximo, alguém que está na casa dos 70 anos. Afinal, não faria muito sentido eleger um Papa muito velho depois da renúncia de um Papa idoso.

A grande notícia hoje foi o fato de que Bento XVI mudou algumas regras para o conclave, reunião em que se elege o novo Papa. Ele deixou aberta a opção para que os cardeais decidam se querem antecipar ou não o início da votação. De acordo com a norma anterior, elaborada por João Paulo II em 1996, o conclave só poderia começar depois de 15 dias do início da chamada sede vacante, isto é, o período em que não se tem um Papa e a Igreja é governada pelo colégio de cardeais. O objetivo da regra original era permitir que todos os cardeais pudessem chegar a Roma em tempo para a votação.

Alguns cardeais preferem iniciar logo o conclave, já no início de março, considerando que desta vez não houve a morte de um Papa e, portanto, todos os eleitores já sabem há duas semanas que terão de estar em Roma. Assim, haveria um Papa novo antes da Páscoa. Tampouco há necessidade de realizar funerais, pois o antigo Papa está vivo. Por outro lado, outros cardeais querem chegar a Roma com calma e ter tempo de conversar com todo mundo, ver o que está acontecendo e o que os outros acham. Temem que apressar o conclave possa favorecer a eleição de “nomes prontos”, ou seja, uma eleição com pouca reflexão, meio no piloto automático, que acabaria levando ao trono de bate e pronto um dos favoritos ao papado. Talvez encontrem um meio termo nessa questão do tempo.

A IMPRENSA –  Realmente alguns representantes da imprensa internacional estão exagerando na especulação neste momento  – esquecendo princípios básicos do jornalismo – e aproveitando a chance para mostrar todos os problemas da Igreja. Vale lembrar também que grandes veículos de comunicação têm lá seus grandes proprietários com seus grandes objetivos.

A imprensa, que atualmente funciona a mil quilômetros por hora, com poucos recursos e jornalistas muitas vezes mal informados, quer a cada segundo revelar algo novo. Acaba se esbaforindo e deixando de lado o compromisso de se ater aos fatos, e não aos boatos, às intrigas internas, às fontes duvidosas.

Por outro lado, também a Igreja, como instituição, ainda não aprendeu a lidar com um mundo em que a informação corre rapidamente e onde, se a informação não for divulgada por vias oficiais, pode acabar sendo divulgada por vias paralelas.

images-salastampaExemplo: coisas aparentemente pequenas, como a cirurgia de rotina que Bento XVI fez no coração para trocar a bateria de seu marca passo, viraram grandes especulações internacionais porque o Vaticano não divulgou essa informação no momento oportuno, há meses.

Enfim, temos aí uma relação delicada entre duas instituições que veem o mundo de forma totalmente diversa. A Igreja, busca uma visão mais intelectual, refletida, espiritual, organizada e lenta; a Imprensa quer uma visão mais materialista, prática, objetiva, quantificada, secular e rápida. Esse descompasso não é novo e ainda vai dar muito problema no futuro.

De qualquer forma, apesar de todos os problemas e especulações aparentemente negativas com relação à Igreja, o momento pode ser altamente favorável. Se os cardeais eleitores souberem aproveitar os limões para fazer limonada, uma grande mudança positiva para a Igreja e para o mundo pode estar por vir. A Igreja tem uma chance única de iniciar novas reformas estruturais com um novo pontificado mais moderno na forma – já sobre o conteúdo não cabe a nós discutir aqui, mas aos filósofos, teólogos, religiosos, etc.

Talvez seja a hora de aparecer um líder com experiência administrativa e pastoral. Talvez alguém com um olhar  diferente, moderno, com soluções inovadoras e criativas. Talvez.

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VatiLeaks: O mordomo do Papa sorri

Ciente de que não tenho conseguido postar tanto quanto gostaria nas últimas semanas, resolvi escrever um breve post ao menos atualizando no blog como ficou o caso dos “Vatileaks”, série de vazamentos de documentos sigilosos da Santa Sé (entenda), que revelaram detalhes de correspondências do Papa, discussões entre autoridades da Igreja e suspeitas de fraude no Vaticano.

Vínhamos acompanhando passo a passo o problema, mas sequer falamos aqui sobre a prisão e o perdão de Paolo Gabriele, mordomo pessoal do Papa Bento XVI acusado de roubar documentos e facilitar sua divulgação na imprensa. 

Recapitulando: como foi amplamente noticiado pela imprensa internacional, Paolo Gabriele havia sido condenado pela Justiça do Vaticano a um ano e meio de prisão por “furto agravado”, a ser cumprida no sistema carcerário italiano. Entretanto, de acordo com as leis do Vaticano, o Papa tem total autonomia para perdoá-lo e liberá-lo de ter que cumprir a pena. E foi o que aconteceu.

Gabriele não só foi perdoado (antes do Natal) como recebeu um novo emprego, no hospital pediátrico “Bambino Gesù”, que pertence à Santa Sé. Na ocasião, o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, explicou o motivo do perdão concedido por Bento XVI: “Leva-se em consideração a situação de sua família e da benevolência com a qual o Papa quis intervir na situação, e portanto será oferecida uma possibilidade de alojamento e ocupação, mas não na sede da Cidade-Estado do Vaticano.”

Bento XVI perdoa mordomo

Fato é que, desde então, Paolo Gabriele voltou a sorrir. Apareceu publicamente em foto com o Papa, ambos felizes com a reconciliação. Isso levou muita gente a questionar a tal justiça vaticana: Como é que o sujeito rouba documentos, causa uma algazarra internacional e não só é perdoado, como também ganha um novo emprego?

Esse texto do vaticanista Andrea Tornielli, bastante esclarecedor no ponto de vista religioso, levanta justamente essa questão (“O sorriso de Paolo Gabriele”). Tornielli recorda que o Papa não é como um outro chefe de Estado qualquer. Acredita-se que seja o “vigário de Cristo”, isto é, um representante vivo de Jesus e, sendo assim, deve seguir seus ensinamentos. Segundo o jornalista, Bento XVI não se move sobre a base do senso comum, mas de “uma outra coisa”. Conforme a tradição cristã, “Jesus perdoou a traição de Pedro e perdoa nossos pecados, mesmo os mais graves, se reconhecemos a necessidade da sua misericórdia”, explica Tornielli. “O Papa mostra sua compaixão pela família” de Gabriele.

Um gesto caridoso, é verdade. Mas é claro que também buscou ser uma espécie de desfecho público para o complicadíssimo caso “Vatileaks”.

No entanto, algumas perguntas permanecem em aberto e as investigações continuamNo fim do ano passado, o jornal Corriere della Sera e outros observadores da Santa Sé questionaram, por exemplo, por que Gabriele estaria reunindo documentos desde 2006 e só resolveu divulgá-los no ano passado? Quem são as outras pessoas envolvidas? Sabe-se que o programador Claudio Sciarpelletti é um deles.

Gabriele em julgamento

Gabriele havia dito, em entrevista, que ao menos 20 pessoas faziam parte do esquema, que, segundo o próprio mordomo, buscava acabar com “o mal e a corrupção” no coração da Igreja. Mas não se sabe até hoje quem era de fato o alvo desse plano. Seria o secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone? Seria o próprio Papa? Seriam outros? Seria somente um plano mal feito articulado por um bem intencionado mordomo?

O vaticanista John Allen Jr observa que Gabriele, em determinado momento, afirmou ter ligação com pessoas do alto escalão na Santa Sé, mas em nenhum instante ficou claro se alguém teria autorizado ou participado da divulgação de documentos sigilosos.

O mundo continua acompanhando. A consequência positiva para todos dessa história é que cada vez mais o Vaticano começa a perceber que não vive em um mundo paralelo. O Papa e seus colaboradores vêm claramente tentando promover a transparência e a segurança no funcionamento das coisas da Igreja, justamente para evitar novas especulações, conspirações e surtos midiáticos. Seria esse o verdadeiro motivo do sorriso do mordomo?

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VatiLeaks: mordomo do Papa vai a julgamento, mas a novidade não é essa

Paolo Gabriele, ex-mordomo do Papa

A imprensa internacional noticiou nesta semana que Paolo Gabriele, ex-mordomo do Papa preso com documentos sigilosos, vai ser acusado formalmente de furto com certos agravantes por ter favorecido o vazamento de informações sobre o Vaticano e o Papa Bento XVI.

Mas a novidade principal no caso dos VatiLeaks não é bem essa (entenda melhor os capítulos anteriores, clicando aqui). Estava na cara que ele seria acusado. Na verdade, as maiores novidades são duas.

A primeira delas é o fato de que um outro homem está envolvido no processo que investiga o vazamento de documentos secretos e também será acusado por isso.  Trata-se do analista de sistemas Claudio Sciarpelleti, funcionário da Secretaria de Estado, acusado de auxiliar e ser cúmplice de Gabriele.

Novidade porque até então o nome de Sciarpelleti não havia sido mencionado em nenhum momento. Aliás, até então Gabriele era o único acusado pelos VatiLeaks, e vem sendo chamado de “o corvo”.

Segundo a Rádio Vaticano, o especialista em computadores foi preso com dois envelopes de Gabriele em 25 de maio, dois dias depois da detenção do mordomo. Sciarpelleti foi liberado depois de prestar depoimento, pois aparentemente seu envolvimento foi bastante indireto. Mas ele está suspenso de suas funções no trabalho. De qualquer forma, as suspeitas de que Gabriele não agia sozinho parecem se confirmar.

Pe. Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano

Gabriele, que inicialmente havia negado o envolvimento no vazamento de documentos, reconheceu a natureza ilegal de seus atos e disse que foi motivado pela lealdade ao Papa. De acordo com o acusado, ele foi inspirado pelo Espírito Santo a combater a corrupção na Igreja e acreditava que um “choque midiático” seria “saudável” para recolocá-la no caminho correto. Aparentemente, Gabriele roubou, copiou e passou adiante uma série de documentos sigilosos.

A segunda novidade foi a fala do porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, sobre as acusações. Ele destacou o desejo do Vaticano e, indiretamente, do Papa Bento XVI, de que as acusações e o julgamento sejam tratados com total transparência.

Embora isso pareça ser uma declaração padrão, a diferença está no fato de que o Pe. Lombardi comparou o tratamento a ser dado para o caso dos VatiLeaks aos esforços de reforma e transparência financeira que vêm sendo promovidos no pontificado de Bento XVI. Recentemente, o Vaticano se submeteu a uma análise independente da Moneyval (fato muito importante, que detalhamos neste post).

Nesse sentido, o Pe. Lombardi afirmou que o Papa Bento XVI apoia o papel do Judiciário no processo e respeita sua competência e autonomia.

O porta-voz esclareceu que a comissão de cardeais criada pelo Papa para investigar o caso ainda não se pronunciou justamente para não interferir nas decisões dos juízes. Lombardi explicou que, a rigor, o Papa tem autoridade para intervir em qualquer etapa do processo, se quiser. Mas o fato de que até agora não o fez leva a crer que é desejo do pontífice que o julgamento ocorra de forma independente.

O Supremo Tribunal da Santa Sé volta do recesso de verão em 20 de setembro. Se condenado, Gabriele cumprirá até seis anos de prisão na Itália, conforme um acordo internacional com o Vaticano.

Porém, resta saber, ainda, se ele agia por conta própria e com que objetivos concretos. Ou se há outros envolvidos. A transparência envolve essas respostas.

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Papa se reúne com comissão de cardeais dos ‘VatiLeaks’

Cardeal Herranz, presidente da comissão investigadora dos VatiLeaks

O Papa Bento XVI recebeu na última quinta-feira a comissão de três cardeais criada por ele mesmo para investigar o escândalo de vazamentos de documentos secretos do Vaticano, que ficou conhecido como VatiLeaks (relembre o caso clicando aqui).

Os cardeais transmitiram ao Papa suas conclusões sobre o processo, mas a Santa Sé não divulgou detalhes. O pontífice se limitou a agradecer à comissão, composta pelos cardeais Julián Herranz, Jozef Tomko e Salvatore De Giorgi. O Papa pediu que eles “continuem seu trabalho com diligência”.

Alguns dias atrás, a imprensa internacional informou que o mordomo Paolo Gabriele, preso em 23 de maio com documentos sigilosos e suspeito de contribuir com os vazamentos de correspondências do Papa, aguarda julgamento prisão domiciliar. Ele vive com a esposa e três filhos dentro do Vaticano. O julgamento está previsto já para agosto.

O Papa com Paolo Gabriele

O advogado de Gabriele, Carlo Fusco, afirmou que “Paolo escreveu uma carta ao Papa pedindo perdão, especialmente pela dor que lhe causou”. Após o julgamento, também tentará pedir uma espécie de “perdão judicial” para que sera anistiado.  De acordo com o vaticanista Giacomo Galeazzi, do jornal italiano La Stampa, o perdão do Papa pode até ser concedido, mas dificilmente nesta fase atual do processo.

Bento XVI “parece ter intenção de fazer emergir tudo o que aconteceu  – o vazamento de notícias iniciado muito antes dos VatiLeaks, as publicações de documentos reservados e, enfim, as tentativas de despistagem e desinformação que sucederam a prisão do perjúrio mordomo  Paolo Gabriele – para poder proceder uma verdadeira operação de polícia e regeneração”.

O advogado Fusco declarou que Gabriele queria ajudar o Papa e pode ter agido para “limpar a Igreja”. Por enquanto, o mordomo é o único suspeito do caso, mas outras pessoas deram depoimento. A maioria dos observadores do Vaticano acredita que certamente há outros “corvos” rondando a Santa Sé.

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Bento XVI diz ao povo que Bertone fica

O Papa Bento XVI manifestou ontem, mais uma vez, seu total apoio ao Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone, visto por alguns como o principal alvo do recente  escândalo de vazamento de documentos do Vaticano (VatiLeaks, saiba mais aqui).

“Desejo exprimir ao senhor profundo reconhecimento pela sua discreta proximidade e pelo seu iluminado aconselhamento, que considerei de especial ajuda nestes útimos meses”, diz o Papa em carta a Bertone, divulgada pelo serviço de informações do Vaticano.

“Havendo notado com pesar as críticas injustas levantadas contra a sua pessoa, pretendo renovar ao senhor a comprovação de minha confiança pessoal, que já tive oportunidade de manifestar-lhe com a carta de 15 de janeiro de 2010, cujo conteúdo permanece inalterado.”

Naquela ocasião, em janeiro de 2010, o cardeal havia apresentado sua renúncia por motivo de idade – como pedem as normas da Igreja, todos devem fazê-lo aos 75 anos. Mas Bento XVI pediu que Bertone permanecesse sendo o primeiro-ministro do Vaticano e destacou, naquela carta, o autêntico espírito sacerdotal de Bertone, sua competência, sua dedicação, seu sensus fidei (“sentido da fé”) e sua humanidade.

Com a nova carta, o Papa descarta qualquer possibilidade de afastamento de Bertone no curto prazo – o que era esperado já para depois do verão no Hemisfério Norte. Nas últimas semanas, havia rumores de que ele pudesse ser demitido, na tentativa de dar fim à crise de confiança despertada pelo vazamento de documentos. Vale lembrar que, em junho, Bertone deu entrevista sobre os VatiLeaks, mas não falou sobre a possibilidade de ser ele o alvo do escândalo.

Porém, analistas dizem que afastar Bertone agora seria decretar vitória àqueles que queriam justamente esse movimento. Segundo o vaticanista Andrea Tornielli, pode ser que mais adiante, baixada a poeira dos VatiLeaks, o Papa resolva aceitar a renúncia de Bertone por idade, já que ele vai completar 78 anos, e nomear um novo Secretário de Estado.

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Vaticano contrata jornalista profissional como ‘conselheiro de comunicação’

Greg Burke, jornalista, é o novo relações públicas do Vaticano

Antes tarde do que nunca. Uma notícia chamou muito a atenção ontem: um jornalista profissional foi contratado para assumir o novo cargo de “conselheiro da Secretaria de Estado” do Vaticano para as questões da Comunicação.

Estamos falando do americano Greg Burke, que ocupava o cargo de correspondente da Fox News em Roma e tem ampla experiência nesse tipo de cobertura.

Pode parecer algo óbvio, mas trata-se de um passo enorme. Uma das principais falhas da Igreja Católica nessa área de Comunicação é a falta de profissionalização. Na maioria das vezes, as atividades são lideradas por padres ou outros religiosos mais ou menos especializados, mas que quase sempre se dividem entre essa e outras funções não menos importantes.

O porta-voz do Vaticano e Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, por exemplo, é o Pe. Federico Lombardi – que permanece no posto. Vale lembrar que o médico e jornalista Joaquín Navarro-Valls esteve nesse cargo durante mais de 20 anos. Entretanto, além de ser mais teórico do que jornalista “do mercado” (como é o caso de Burke), sua função era mais de organizador dos veículos de imprensa do Vaticano. Já Burke será conselheiro direto das autoridades da Santa Sé.

De qualquer forma, o fato de a Igreja se abrir para a presença de um jornalista profissional dentro do Vaticano mostra que, demorou, mas está caindo uma ficha importante:

Sabe-se que a cobertura da grande imprensa sobre a Igreja é predominantemente negativa (como é para quase tudo), mas será que isso é um problema só da imprensa? Ou seria também um problema da Igreja, que ainda não sabe direito transmitir as mensagens que quer transmitir?

Em vez de apenas se queixar sobre os problemas da mídia, que existem e precisam ser apontados e analisados, agora com Burke a Igreja passa a buscar os problemas de sua própria estratégia de comunicação.

Um bom jornalista profissional saberá que a estratégia de ocultar fatos ou dificultar o acesso da imprensa às informações é sempre pior do que ajudá-la a obter essas informações ou a esclarecer melhor qual é a ordem das coisas.

Burke afirmou, em entrevista à Associated Press, que seu trabalho será semelhante ao do conselheiro de comunicação da Casa Branca (Estados Unidos). “Vamos formatar a mensagem, vamos moldar a mensagem, vamos tentar garantir que todos permaneçam na mensagem. E isso é difícil”, declarou.

A decisão de contratar Burke é, naturalmente, resultado do recente escândalo de vazamento de documentos secretos do Vaticano (que ficou conhecido como “VatiLeaks”, saiba mais aqui).

Segundo o jornalista italiano e também vaticanista Andrea Tornielli, “a Secretaria de Estado finalmente levou o problema a sério depois de ser atingida no estômago após uma série de ocasiões nas últimas semanas”.

Torçamos para que outros níveis da Igreja – dioceses, conferências episcopais, universidades, paróquias – caminhem no mesmo sentido, sem precisar antes de uma pesada dor de estômago para procurar o remédio.

Atualizado às 22h02 com informações sobre Joaquín Navarro-Valls.

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Cardeal Bertone comenta VatiLeaks mas evita considerar-se um alvo

Bento XVI e Bertone

O Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano, comentou ontem o escândalo dos vazamentos de documentos secretos do Vaticano (VatiLeaks), do qual muitos analistas acreditam ser ele o alvo principal.

Bertone disse que os ataques instrumentais contra a Igreja Católica e o Papa sempre existiram, mas dessa vez são “mais mirados e às vezes também ferozes, destrutivos e organizados”. Em entrevista exclusiva à rede de televisão estatal italiana RAI, o cardeal insistiu que o Papa Bento XVI “não vai se deixar abater pelos ataques, de qualquer tipo”.

Em respostas nitidamente preparadas para a entrevista, Bertone não comentou a possibilidade de ser ele o alvo dos ataques. Acredita-se que pessoas de grupos divergentes a Bertone dentro  e fora do Vaticano queiram enfraquecê-lo, pois ele teria se excedido ao buscar aumentar seus poderes para além da Secretaria de Estado, supostamente interferindo em instituições católicas independentes.  Isso pode estar dando certo, mas apenas parcialemente, pois quem nomeia o Secretário de Estado é o Papa. E Bento XVI já recusou pedidos para dispensá-lo.

Portanto, na entrevista Bertone falou apenas como se objetivo dos organizadores dos vazamentos de documentos fosse enfraquecer o próprio Papa. “Quero destacar o fato de que Bento XVI, como todos sabem, é um homem de grande fé e de grande oração”, disse. “Aqueles que estão perto dele e que trabalham ao seu lado são sustentados por essa grande força moral.”

Pe. Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano

O cardeal acrescentou que os dias atuais “não são dias de divisão” para a Igreja, mas de unidade. “São dias de força na fé, de firme serenidade e também de força nas decisões.”

Falando sobre o Encontro Mundial das Famílias, realizado em Milão e ao qual Bento XVI compareceu, Bertone destacou que todos vivenciaram dias de “extraordinária manifestação de amor ao Papa e de acompanhamento, de apoio a ele e a seu magistério, a seu trabalho, de alegria e entusiasmo em torno dele”.

As declarações de Bertone vieram à tona no mesmo dia em que o jornal italiano La Reppublica publicou novos documentos sigilosos desviados do Vaticano, que detalhavam discussões sobre a aprovação das normas litúrgicas do movimento Caminho Neocatecumenal.  Os papéis foram entregues ao jornal anonimamente, com um bilhete dizendo que há centenas de outros por vir.

O fato confirmou que  mais de uma pessoa está envolvida no problema – como muitos já previam -, pois os novos vazamentos ocorreram depois da prisão do mordomo Paolo Gabriele (saiba mais aqui), que trabalhava como ajudante de quarto de Bento XVI. O porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, minimizou a publicação mais recente e disse que a divulgação a conta-gotas já é esperada. Acrescentou que está evidente a intenção dos criminosos de manter a visibilidade do caso pelo máximo tempo possível. São esperadas, portanto, novas revelações.

A entrevista completa de Bertone à RAI pode ser lida aqui (em inglês) ou assistida abaixo (em italiano). Para entender o caso VatiLeaks, leia o que já foi publicado neste blog sobre o assunto clicando aqui.

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