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Mais documentos secretos vazam e ‘VatiLeaks’ começa a irritar o Vaticano

O jornalista Gianluigi Nuzzi

Uma nova onda de vazamentos de documentos sigilosos mexeu com o Vaticano nesta semana, em mais um capítulo da novela sem precedentes que vem sendo chamada de “VatiLeaks” – uma referência ao site Wikileaks, que divulgava documentos e arquivos sigilosos de vários governos e embaixadas do mundo.

Desta vez, notas, relatórios e cartas destinados ao Papa Bento XVI ou escritos por ele foram publicadas pelo jornalista Gianluigi Nuzzi no livro “Sua Santità”. E o pessoal do Vaticano ficou aparentemente mais irritado agora do que nas outras vezes. A sensação é de que eles estão achando que isso já foi longe demais.

Vários documentos foram vazados recentemente, por etapas, e até o momento não se sabe ao certo o motivo. O primeiro deles foi uma carta enviada ao Papa pelo arcebispo italiano Carlo Maria Viganò, nas quais reclama da corrupção nas finanças do Vaticano quando ele mesmo era o Secretário de Estado. Para recordar, recomendo o nosso post “Entenda o ‘VatiLeaks’, vazamento de documentos secretos do Vaticano”.

Não lemos o livro de Nuzzi, mas no lançamento do livro ele afirmou quehá uma vontade de limpeza” no Vaticano e por isso seus  informantes lhe repassaram documentos. Ele acrescentou que se trata apenas de um trabalho investigativo e de “documentação”, pois seu livro não é “contra a Igreja, nem a fé, nem o Santo Padre”. Ele disse, ainda, que todos os seus informantes “confiam no Santo Padre” e que por isso “sentem ter violado a obrigação de manter segredo”, mas querem “expulsar os mercadores do templo”.

Até o lançamento do livro de Nuzzi, que também publicou outros documentos vazados no jornal italiano Libero, o Vaticano vinha respondendo mais com ações do que com palavras. No fim de abril, o Papa criou uma comissão de cardeais para investigar os vazamentos de documentos sigilosos. O Vaticano também buscou a Justiça para protestar contra a publicação de dados secretos.

No entanto, o livro mostrou que o problema é maior, pelo simples fato de que os documentos não param de vazar.  O mais grave dessa história toda não é tanto o conteúdo dos vazamentos, mas sim o fato de tais registros terem vazado. Agora, revelou-se por exemplo o conteúdo das conversas de um almoço do Papa com o presidente da Itália, Giorgio Napolitano, além de outras discussões, que não vamos detalhar aqui. Há relatórios do Vaticano sobre políticos e acontecimentos, destinados a Bento XVI.

Em nota, a Santa Sé repudiou a divulgação de informações sigilosas e disse que vai tomar as providências legais para que o livro de Nuzzi saia de circulação. “A nova publicação de documentos da Santa Sé e de documentos privados do Santo Padre não se apresenta mais como uma discutível – e obviamente difamatória – iniciativa jornalística, mas assume claramente os caráteres de um ato criminoso“, afirmou, acrescentando que foi violado o direito pessoal de privacidade do Papa e de seus colaboradores, assim como a liberdade de correspondência.

A Santa Sé dará “os passos oportunos a fim de que os autores do furto, da receptação e da divulgação de notícias secretas, além do uso comercial de documentos privados, obtidos e retidos ilegitimamente , respondam por seus atos perante a Justiça”. O Vaticano deve, inclusive, pedir a colaboração da Itália para impedir a disseminação de documentos, já que o livro de Nuzzi e a imprensa italiana são os principais divulgadores.

Cardeal Tarcisio Bertone, possível alvo dos VatiLeaks

Até agora, podemos tirar algumas conclusões. A primeira delas é a de que alguém está furtando ou interceptando documentos dentro do Vaticano e levando a público. E quem faz isso, faz com algum objetivo, que até o momento não se sabe qual é – talvez seja prejudicar o Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano. De qualquer forma, o vaticanista Andrea Tornielli duvida que tudo seja apenas uma forma de pedir mais “transparência”.

A segunda é a de que a comissão de cardeais recém-implantada ainda está longe de chegar a algum resultado concreto sobre quem é que está fazendo isso. A terceira é a de que o Vaticano ainda precisa avançar muito em transparência e no cuidado dos documentos sigilosos para evitar que novos vazamentos ocorram. Será que ainda tem mais coisa para ser divulgada nessa série?

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Entenda o ‘VatiLeaks’, vazamento de documentos secretos do Vaticano

Bento XVI com o cardeal Bertone

Uma série de documentos secretos do Vaticano vem sendo divulgada há cerca de um mês para a imprensa italiana, causando repercussão internacional. Esse movimento, que ficou conhecido como “VatiLeaks” – uma referência ao site Wikileaks, que divulgou documentos secretos de diversos países, principalmente dos Estados Unidos – envolve relatos sigilosos de autoridades, cartas, comunicações e decisões, cuja autenticidade não é questionada. Sua revelação coloca o Vaticano numa “maré política”, digamos assim, bastante desfavorável. Tanto é que o jornal do Vaticano L’Osservatore Romano chamou de “lobos”, em um editorial, os responsáveis pela divulgação irregular desses documentos. Vamos tentar resumir essa história toda neste post.

Trata-se de um problema bastante delicado, do qual não queremos tirar conclusões próprias. Portanto, recorremos a um texto do jornalista John Allen Jr, um dos principais e mais renomados vaticanistas, para explicar o que parece estar acontecendo na Cúria Romana. A percepção que se tem é de que alguma pessoa interna do Vaticano – um funcionário ou até mesmo alguém do alto escalão, como um cardeal – está liberando cópias de tais documentos secretos. Allen explica que “este é um estranho caso em que o problema real não é tanto o conteúdo dos vazamentos”, mas o próprio fato de os documentos terem vazado.

São seis as principais questões reveladas até o momento:

1) Cartas escritas pelo arcebispo italiano Carlo Maria Viganò, atual núncio apostólico (embaixador) nos Estados Unidos, destinadas ao Papa Bento XVI e ao secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarciso Bertone. Nelas, Viganò reclama da corrupção nas finanças do Vaticano quando ele mesmo era o secretário de Estado. Também alerta para a “campanha” interna para difamá-lo;

2) Um memorando anônimo escrito sobre a nova lei contra lavagem de dinheiro no Vaticano, sugerindo que ela contém gargalos enormes;

3) Documentos que alimentam as acusações contra o Instituto para as Obras Religiosas (conhecido por aí como “Banco do Vaticano”), que teria transferido milhões de euros para bancos estrangeiros num movimento de evasão de divisas para escapar da fiscalização italiana;

4) Outro documento anônimo, em alemão, descrevendo uma conversa do cardeal Paolo Romeo, de Palermo (Itália), supostamente prevendo, em viagem à China, que o Papa morreria em 12 meses e seria substituído pelo cardeal Angelo Scola, de Milão (Itália). Esse documento foi repassado para o Papa pelo cardeal colombiano Darío Castrillón Hoyos, já aposentado;

5) Dois memorandos internos alertando sobre modificações recentes nas leis de lavagem de dinheiro do Vaticano, um deles escrito pelo cardeal Attillio Nicora, que lidera a nova agência de supervisão financeira. As mudanças seriam um retrocesso e poderiam “alarmar” organismos internacionais de regulação;

6) Duas cartas confidenciais documentando um esforço fracassado do cardeal Tarciso Bertone de passar para o Vaticano o controle de uma importante universidade católica italiana e seu sistema de hospitais, em Milão. Na carta endereçada ao então cardeal-arcebispo Dionigi Tettamanzi, Bertone lhe exigia que renunciasse à presidência do instituto Sagrado Coração e nomeasse um sucessor escolhido pelo secretário de Estado.

O vaticanista Allen explica que nenhum desses casos parece ser “fatal”. Boa parte deles foi esclarecida pelo Vaticano em pronunciamentos pontuais. Mas há sim sérias implicações a serem avaliadas: internamente, é possível que os bispos e autoridades fiquem mais cautelosos e receosos em dialogar com o Vaticano antes de tomar decisões, temendo ter seus documentos vazados. Externamente, diz Allen, passa-se a imagem de que os homens da Igreja estão sempre se apunhalando pelas costas – o que dificulta a divulgação de “boas” notícias, como o primeiro simpósio contra abusos sexuais realizado pela Igreja em Roma, os grandes esforços de transparência financeira do Vaticano e o projeto de “nova evangelização” de Bento XVI.

Alguns observadores acreditam que o objetivo dos vazamentos seria atingir indiretamente o cardeal Bertone, homem de confiança do Papa, mas que alguns consideram um mau administrador (e que também tem lá seus rivais políticos). Contudo, é de se questionar a eficiência dessa estratégia, pois quem escolhe o secretário de Estado no fim das contas é o Papa. Outros dizem que o objetivo seria atingir o próprio Papa, que estaria muito ocupado com questões teológicas e filosóficas e por isso estaria delegando demais a administração do Vaticano – além da idade avançada. Nesse caso, o VatiLeaks prepararia o terreno para um novo Papa mais “gerente”.

Pe. Lombardi, porta-voz do Vaticano

Vale lembrar que o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, se pronunciou sobre os vazamentos e disse que a Santa Sé está comprometida com a “autêntica transparência” de sua governança. Ele afirmou também que os documentos divulgados recentemente não podem ser tratados como se fossem todos uma coisa só. Cada caso é um caso, com sua devida importância (ou falta de). Aquele que fala da morte do Papa em 12 meses, por exemplo, foi tratado como uma piada. (De fato, imagino eu quantas ameaças de morte um Papa deve receber por dia.) Segundo Lombardi, os vazamentos são um incentivo para mais reformas na Igreja.

Bento XVI também se pronunciou sobre o problema, embora indiretamente. Em encontro com os seminaristas de Roma, em fevereiro, o Papa disse que muitas coisas têm sido faladas sobre a Igreja de Roma e acrescentou: “Esperemos que se fale também da nossa fé.”

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